Informações
Projeto relacionado
Nome completo
Maria Oliveira De Araújo
História de vida
A entrevistada é envolvida com a prática do chouriço desde jovem, tendo a aprendido com sua mãe. Casou-se, em 1978, com o também agricultor, inácio medeiros dantas e a partir daí foram residir na cidade de currais novos, onde ele trabalhou por mais de cinco anos na mina brejuí. Em 1982, o casal mudou-se para carnaúba dos dantas e, dentre outras atividades, passou a criar porcos, prática familiar ao casal desde quando eram solteiros e residiam na zona rural. Desde o princípio, o criatório vem sendo viabilizado com a junta “voluntária” de comer de porco (ou lavagem) por parte de vizinhos, amigos e parentes residentes na própria comunidade. Com a venda e o abate dos porcos, maria da guia, juntamente com seu esposo, tomou a iniciativa de fazer seu primeiro chouriço, o que aconteceu no ano de 1985. Prática que permanece em pleno vigor nos dias atuais. Mesmo sendo responsável por todo o processo de fabricação do doce, a mestra conta com a colaboração de parentes, amigos e vizinhos no dia de sua feitura. O chouriço é um doce feito com sangue e banha de porco, garapa ou mel de rapadura, farinha de mandioca, castanha de caju (moída), leite de coco, canela, cravo, erva-doce, gengibre e pimenta do reino. Para que o doce fique no “ponto” são necessárias em média oito horas de fogo à lenha, tempo este ideal à realização de uma festa familiar, conhecida como “festa da matança de porco”, em que o prato principal é a carne de porco. Mas não são apenas as questões de sociabilidades que podem ser reveladas na feitura do chouriço. Podemos vislumbrar questões simbólicas, como por exemplo, incompatibilidades entre sangue menstrual e comida. No caso específico dessa mestra, a permissão para mexer, ininterruptamente, o doce é reservada a alguns amigos do sexo masculino. Mesmo sendo os homens (mexedores) de sua confiança que têm a tarefa de não deixar o doce pegar no fundo do tacho é a mestra que tem o controle de todo o processo de feitura do doce. Cabe a ela a compra, a pilagem ou a moagem dos ingredientes e dos temperos, a queima e a descasca das castanhas, o empréstimo do tacho, o convite aos mexedores, a feitura da banha, a coleta do sangue do sangue do porco no momento do abate e dos depósitos vazios para armazenar o doce, o convite aos amigos para participarem da feitura e de sua comercialização, dentre outras atividades. Algumas atividades são realizadas em parceria com seu esposo e outras ficam a cargo dele, como a escolha e o armazenamento da lenha para cozinhar o doce e a entrega do porco para ser abatido pelo marchante. Apesar do chouriço ser resultante do trabalho coletivo, quando pronto recebe apenas o nome da mestra. Diz-se na comunidade: “esse chouriço é de mariquinha de lalá”!
Localização
Descrição da atuação em rede
A entrevistada é envolvida com a prática do chouriço desde jovem, tendo a aprendido com sua mãe. Casou-se, em 1978, com o também agricultor, inácio medeiros dantas e a partir daí foram residir na cidade de currais novos, onde ele trabalhou por mais de cinco anos na mina brejuí. Em 1982, o casal mudou-se para carnaúba dos dantas e, dentre outras atividades, passou a criar porcos, prática familiar ao casal desde quando eram solteiros e residiam na zona rural. Desde o princípio, o criatório vem sendo viabilizado com a junta “voluntária” de comer de porco (ou lavagem) por parte de vizinhos, amigos e parentes residentes na própria comunidade. Com a venda e o abate dos porcos, maria da guia, juntamente com seu esposo, tomou a iniciativa de fazer seu primeiro chouriço, o que aconteceu no ano de 1985. Prática que permanece em pleno vigor nos dias atuais. Mesmo sendo responsável por todo o processo de fabricação do doce, a mestra conta com a colaboração de parentes, amigos e vizinhos no dia de sua feitura. O chouriço é um doce feito com sangue e banha de porco, garapa ou mel de rapadura, farinha de mandioca, castanha de caju (moída), leite de coco, canela, cravo, erva-doce, gengibre e pimenta do reino. Para que o doce fique no “ponto” são necessárias em média oito horas de fogo à lenha, tempo este ideal à realização de uma festa familiar, conhecida como “festa da matança de porco”, em que o prato principal é a carne de porco. Mas não são apenas as questões de sociabilidades que podem ser reveladas na feitura do chouriço. Podemos vislumbrar questões simbólicas, como por exemplo, incompatibilidades entre sangue menstrual e comida. No caso específico dessa mestra, a permissão para mexer, ininterruptamente, o doce é reservada a alguns amigos do sexo masculino. Mesmo sendo os homens (mexedores) de sua confiança que têm a tarefa de não deixar o doce pegar no fundo do tacho é a mestra que tem o controle de todo o processo de feitura do doce. Cabe a ela a compra, a pilagem ou a moagem dos ingredientes e dos temperos, a queima e a descasca das castanhas, o empréstimo do tacho, o convite aos mexedores, a feitura da banha, a coleta do sangue do sangue do porco no momento do abate e dos depósitos vazios para armazenar o doce, o convite aos amigos para participarem da feitura e de sua comercialização, dentre outras atividades. Algumas atividades são realizadas em parceria com seu esposo e outras ficam a cargo dele, como a escolha e o armazenamento da lenha para cozinhar o doce e a entrega do porco para ser abatido pelo marchante. Apesar do chouriço ser resultante do trabalho coletivo, quando pronto recebe apenas o nome da mestra. Diz-se na comunidade: “esse chouriço é de mariquinha de lalá”!
Aprendizado do bem
“mamãe fazia, aí eu aprendi a fazer com ela, quando eu era pequena, ajudando a ela”. No princípio, quando ainda solteira e residindo com seus pais, ajudava à sua mãe na feitura do doce. O título de mestra de chouriço começou a ser engendrado na comunidade a partir do momento que o realizou pela primeira vez, em 1985, quando, de uma certa forma, foi “obrigada” a fazer o chouriço, sozinha. Daí em diante ela passou a ter prestígio e status de mestra conceituada junto à comunidade, principalmente quando começou a comercializar o doce por meio de uma rifa. A produção do doce acontece anualmente, geralmente entre os meses de outubro, novembro, dezembro e janeiro, devido ser este um período não chuvoso na região. O cenário da “chouriçada” é a própria residência da mestra, sendo a cozinha e o quintal seus espaços mais significativos. É mais precisamente neste último que acontece o cozimento do doce. A feitura do doce envolve dias de preparação, mas sua produção propriamente dita dá-se durante um dia inteiro, no caso dessa mestra, começa no final da tarde, em torno das 16 horas, e estende-se até a madrugada. Quando ela residia no sitio sua mãe costumava fazer o chouriço durante o dia, prática esta que não conseguiu manter devido às condições ambientais de sua residência. Seu quintal é totalmente descoberto, o que dificulta a realização da festa durante o dia.
Transmissão de saberes
Não. Suas filhas não vêm manifestando interesse na atividade, participando apenas da limpeza da casa e de alguns afazeres que circundam a conjuntura de feitura do doce. Ademais, elas não têm a permissão da mãe (da mestra) para mexerem ou tocarem no chouriço devido suas condições de mulheres férteis, ou melhor, que ainda menstruam. A mestra não permite, em nenhuma hipótese, que uma mulher em idade fértil toque em nada do chouriço, inclusive suas filhas.

