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Mestre Paulo Brasa - foto de Pedro Aspahan
Informações
Projeto relacionado
Equipe
Ana Carolina Antunes | Pedro Aspahan | Tainah Leite | Vanilza J Rodrigues | Leonardo Rosse | César Guimarães
Nome completo
Paulo Ferreira
Data de nascimento
2 de abril de 1948
História de vida
Texto fornecido pelo mestre:
Mestre Paulo Brasa – Capoeira Angola
Paulo Brasa, nascido em 2 de abril de 1948, na cidade de Aracaju, Sergipe, é um dos importantes nomes da Capoeira Angola no Brasil. Atualmente com 75 anos, dedicou sua vida ao aprendizado, à prática e à transmissão dessa arte, sendo precursor da Capoeira Angola na região de Ouro Preto e Mariana, em Minas Gerais, onde deixou alunos que posteriormente se tornaram mestres e deram continuidade ao seu legado.
Início na capoeira e trajetória no Rio de Janeiro
Mestre Paulo Brasa iniciou sua trajetória na capoeira na década de 1960, na cidade do Rio de Janeiro, sob orientação do Mestre Caixote, que dirigia um grupo folclórico com o qual participou de diversas apresentações em diferentes espaços culturais.
Entre os espetáculos realizados, destaca-se o espetáculo “Calabar”, apresentado em diversos clubes da Zona Sul do Rio de Janeiro, região até então pouco acessível à capoeira.
Durante esse período, ministrou aulas em clubes recreativos da Zona Sul e formou grupos de praticantes, embora muitos tenham seguido outros caminhos posteriormente. Devido ao tempo transcorrido e às condições da época, não há registros fotográficos ou audiovisuais dessas atividades, nem a lembrança precisa dos nomes dos clubes e alunos.
Ainda na década de 1960, frequentava a tradicional roda da Central do Brasil, onde, inicialmente como aprendiz, observava e aprendia com os capoeiristas mais antigos, participando gradualmente do jogo e da musicalidade.
Serviço militar, artesanato e ativismo cultural
Em 1966, ingressou no serviço militar, servindo à Força Aérea Brasileira por três anos, até 1969. Após esse período, retornou ao bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro, onde passou a estudar artesanato, dedicando-se principalmente ao entalhe em madeira e pedra.
Em pouco tempo, começou a expor seus trabalhos na tradicional Feira de Arte de Botafogo. Nesse período, também passou a se envolver com discussões políticas e raciais, participando de organizações importantes, como o Instituto de Pesquisa das Culturas Negras (IPCN), ainda em processo de formação na década de 1970.
Entre 1977 e 1978, dedicou-se intensamente ao ensino da capoeira, ministrando aulas no curso de Danças Afro-brasileiras do SESC/SENAC e participando de apresentações no Teatro Arena Pelourinho.
Roda Livre de Caxias e convivência com grandes mestres
Na década de 1970, mudou-se para Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, onde conheceu o Mestre Barbosa, importante precursor da capoeira na região. Mestre Barbosa ofereceu-lhe espaço para morar em sua academia, onde conviveu com outros capoeiristas que posteriormente se tornaram mestres, como Mestre Cobra Mansa e Mestre Rogério.
Nesse período, também conviveu com nomes importantes como Mestre Jurandir e Mestre Pedrinho de Caxias.
Em 1973, participou da fundação da histórica Roda Livre de Caxias, hoje reconhecida mundialmente, que completou 50 anos de existência em 2023. Na ocasião, Mestre Paulo Brasa foi convidado a participar das celebrações e ministrar uma palestra sobre os primeiros anos da roda e sua fundação.
Mudança para Ouro Preto e contribuição regional
Em 1978, mudou-se para Ouro Preto, motivado pela forte presença histórica da cultura negra na região e pela tradição do artesanato em pedra-sabão.
Com incentivo do Mestre Lua Rasta, conseguiu espaço na antiga Casa do Estudante da Universidade Federal de Ouro Preto, onde passou a ministrar aulas de capoeira e percussão por aproximadamente quatro a cinco anos.
Desse trabalho surgiram alguns dos primeiros capoeiristas da região, entre eles:
Mestre Damião, fundador da Escola de Capoeira Oxalufã, em Mariana
Mestre Batata, que posteriormente integrou o Grupo Cativeiro e fundou seu próprio grupo
Durante esse período, também participou das reuniões do Movimento Negro Unificado em Belo Horizonte e contribuiu com textos sobre questões raciais em um jornal estudantil da universidade, abordando temas relacionados à identidade negra e ao combate ao racismo.
Sua atuação o tornou um dos pioneiros tanto da capoeira quanto do movimento negro na região de Ouro Preto.
Atuação em Belo Horizonte e circulação nacional
Durante suas idas a Belo Horizonte, participou ativamente das rodas da Praça Sete e estabeleceu relações com importantes mestres, como Mestre Dunga, Mestre Negoativo, Mestre Primo e Mestre Mão Branca.
Realizou também apresentações em clubes e casas de espetáculo, ao lado de Mestre Mão Branca e Mestre Cobra Mansa.
Posteriormente, mudou-se para Belo Horizonte, onde continuou ministrando aulas e contribuindo para o fortalecimento da capoeira na cidade.
Ao longo dos anos, viajou por diversas regiões do Brasil, apresentando-se como capoeirista e artesão, além de manter sua atuação no movimento negro. Conviveu com importantes lideranças, como Abdias do Nascimento, participando inclusive das mobilizações relacionadas à preservação da Serra da Barriga e à criação do Memorial Zumbi dos Palmares, em 1983.
Também viveu em Cuiabá, Mato Grosso, e posteriormente retornou ao Rio de Janeiro, onde residiu em Xerém, retomando suas atividades com a Roda Livre de Caxias, o ensino da capoeira e o ativismo cultural.
Período de vulnerabilidade e retomada
Durante a primeira década dos anos 2000, enfrentou um período de grande vulnerabilidade social, vivendo nas ruas do bairro da Lapa, no Rio de Janeiro. Nesse período, enfrentou problemas relacionados ao alcoolismo e ao uso de drogas.
Mesmo nessa condição, foi contemplado em 2010 com o prêmio “Iê, Viva Meu Mestre”, concedido pelo IPHAN, em reconhecimento à sua contribuição à capoeira. No entanto, optou por não receber o prêmio naquele momento.
Apesar das dificuldades, manteve vínculos com a capoeira e foi convidado a participar dos aniversários de 35 e 40 anos da Roda Livre de Caxias.
Posteriormente, com apoio do Mestre Cobra Mansa, passou a residir no Kilombo Tenondé, na Bahia, onde conseguiu se recuperar e restabelecer sua saúde, além de obter apoio por meio de programas sociais do governo federal.
Retorno a Ouro Preto e reconhecimento
Com o reencontro com antigos alunos, especialmente Mestre Damião, retornou a Ouro Preto em 2017, reencontrando a comunidade e reconhecendo os frutos de seu trabalho.
Em 2019, voltou definitivamente à cidade, onde reside atualmente, participando de rodas, eventos e atividades culturais.
Como reconhecimento por sua contribuição histórica, recebeu o título de Cidadão Honorário de Ouro Preto, concedido pelo poder público local.
Legado
Mestre Paulo Brasa é reconhecido como um dos pioneiros da Capoeira Angola em Minas Gerais, especialmente nas cidades de Ouro Preto e Mariana.
Seu legado permanece vivo por meio de seus alunos, das rodas que ajudou a fundar e da contribuição decisiva para o fortalecimento da capoeira e da consciência cultural afro-brasileira no país.
Sua trajetória é símbolo de resistência, transmissão de saberes e compromisso com a preservação da Capoeira Angola.
Identificação de gênero
Homem cisgênero




