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Nome completo
Botina
História de vida
Questionário de identificação: ofícios e modos de fazer mg 02 03 10 q60 010 o entrevistado mencionou lembrar apenas alguns antecessores do seu pai como paulo “baião” (tio da sua mãe) e prudêncio (tio do seu pai).
Localização
Aprendizado do bem
Vicente de paulo ferreira (vpf) aprendeu a trançar esteiras com o pai, que atendia pelo nome de josé isaías pereira. O pai recebia várias encomendas e, quando as recebia, ele próprio retirava as taquaras no mato. Quando não era possível realizar a atividade sozinho, pedia a outras pessoas para lhe ajudar. Uma dessas pessoas passou a ser o entrevistado. Quando vpf tinha aproximadamente seis anos, seu pai levou-o ao mato para que ele aprendesse a tirar, bater, rachar e cortar a taquara. O entrevistado enfatiza que esse aprendizado foi importante, pois, para retirar a taquara, é preciso conhecer as técnicas específicas para tal. Dessa forma, assim que vpf aprendeu com o pai a retirar as taquaras no mato, seu pai começou a orientá-lo na atividade de trançar os forros. Em pouco tempo, o filho passou a ajudá-lo a trançar esteiras e, na adolescência, com aproximadamente 15 anos, o entrevistado recebeu as primeiras encomendas. Durante a juventude (dos 20 aos 30 anos), o entrevistado trabalhou fichado como “braçal” (serviços gerais), sem trançar esteiras. Apesar disso, o ofício aprendido com o pai ainda estava presente em sua memória e corpo. Vicente de paulo cita, como exemplo, uma história que vivenciou no período em que trabalhou numa fazenda em que se cultivava eucalipto: “um carregador me perguntou: ‘você sabe fazer esteira? Respondi: ‘não sei não, mas sei rachar taquara’. Disse isso para ver se alguém sabia fazer melhor do que eu. Aí, estou vendo o cara tecendo e disse a ele: ‘você está tecendo errado’. O cara virou e me disse: ‘mas por quê? Então você sabe tecer?’. Respondi: ‘não sei não, mas que está errado está’”. Depois disso, o entrevistado ensinou aos empregados a técnica certa para cortar e fazer o forro. Segundo vpf, após aprender com o pai o ofício, permaneceu durante muitos anos sem trançar esteiras. Retornou a praticar o ofício apenas há 16 anos (em 1994, aproximadamente). O entrevistado trançou 1.000 m de forro com a ajuda de dois aprendizes para a igreja do caraça. Apenas ao término desse serviço, considerou-se capaz de realizar o ofício. Perguntado se teve algum outro mestre, o entrevistado mencionou que apenas seu pai lhe ensinou. No entanto, é interessante destacar que o pai de vpf aprendeu a tecer forro no caraça com o seu cunhado (“nanias”).
Transmissão de saberes
Questionário de identificação: ofícios e modos de fazer mg 02 03 10 q60 010 já ensinou a algumas pessoas. Enfatiza que aquelas que trabalharam com ele saíram capacitadas para trançar forros. A forma como ensinava a essas pessoas seguia a mesma didática do pai. Primeiramente, ensinava-as a tirar e a rachar a taquara no mato. O entrevistado diz que se trata de uma parte da execução do ofício extremamente importante e perigosa, pois, ao puxar as taquaras com cipó para arrancá-las do chão, elas podem se soltar do cipó e golpear a face daquele que pretende retirá-la. Dessa forma, é preciso ensinar passo a passo as técnicas de retirada da taquara para os aprendizes. Sobre o processo de aprendizado de alguns de seus aprendizes, relatou-nos a sua experiência com aqueles que lhe ajudaram a trançar o forro no caraça. Abaixo, está esboçada uma síntese do processo de ensino desses dois aprendizes: eram dois irmãos. Um deles estava à toa, sem serviço e se chamava luís. O outro, que se chamava vandilson, trabalhava comigo e me perguntou: “quem você quer que trabalhe com você?” respondi: “qualquer um. Qualquer pessoa que você ver que dar para trabalhar comigo você pode chamar, uai.” então vandilson me perguntou: “meu irmão serve? Serve uai! – respondi. Logo de cara, luís, irmão de vandilson, foi trabalhar com uma cara muito ruim, o que me fez pensar: “ai, meu deus, eu estou ‘fudido’. Com esse cara aí não vai dar nem para brincar com ele.” porém, quando começamos a trabalhar juntos, o próprio luís começou a tecer as brincadeiras. Pensei: “tá bom uai...” [comentário do entrevistado]. Ele aprendeu. Já o vandilson não tinha treino algum, ele não sabia nem tirar a taquara. Eu falei com ele: “aprende uai!” você vai puxando ela, na hora que ela engrossar de um lado você vira para o outro. No chão mesmo, pega no chão e vai firmando ela no chão. Quando ela afinar de um lado você vira para ela sair boa até na frente. Dessa forma, ela racha até o final. Aí vai. Depois que treinou, ela racha de qualquer maneira, mas enquanto você não treina, ela lasca para um lado e parte no meio. Assim, os dois aprenderam como retirar taquara. A princípio, vpf convidou os irmãos apenas para rachar e amassar as taquaras. Porém, quando ele percebeu que um dos ajudantes estava desocupado chamou-o e disse: “se você quer aprender, continue esse trançado aqui.” o entrevistado ensinou aos seus aprendizes a trançar iniciando um trançado e pedindo que eles o continuassem. Um dia, um deles disse: “eu quero começar e continuar”. O entrevistado respondeu a ele: “então você começa, pois o difícil é começar.” dessa forma, os dois irmãos aprenderam a cortar a taquara e trançar o forro com vpf. P.S.: ambos os irmãos são de santana/mg.

