Informações
Projeto relacionado
Nome completo
Não foram observadas outras formas de denominação do entrevistado.
História de vida
● o entrevistado comenta que viu, em algumas revistas, que a atividade tem suas origens na grécia antiga. ● com relação às edificações da localidade onde foi realizada a entrevista, percebe-se que as pessoas construíam os muros de pedra, pois, próximo à localidade, encontravam-se muitas pedras, facilitando, assim, a construção dos muros a partir dessa matéria-prima. Além disso, segundo o entrevistado, no passado, não havia o concreto que se utiliza atualmente.
Localização
Aprendizado do bem
● o pai de weber fernandes batista (wfb) gosta de móveis e construções no “estilo antigo” [expressão do entrevistado]. Em 1992, o pai de wfb iniciou a construção do seu sítio na zona rural de antônio carlos, inspirado nas edificações que ele via em suas viagens a trabalho a são brás de suaçuí, congonhas, tiradentes, são joão del rei e ouro preto, e em fotografias de edificações européias. Em são brás do suaçuí, o pai de wfb viu um muro construído de pedra e resolveu construir um muro semelhante em seu sítio. Assim, o pai do entrevistado procurou o pedreiro responsável por tal edificação e o convidou para realizar o mesmo serviço no seu sítio. Feito o convite ao canteiro de são brás de suaçuí, conhecido como benedito ou “seu bené” (já falecido). Em 1992, dá-se início à obra do pai do entrevistado. Wfb, que na ocasião possuía por volta de 11 ou 12 anos, trabalhou como servente de benedito durante nove meses (“eu fazia massa, carregava pedra e calafetava”). ● passados quatro anos dessa data, o pai do entrevistado queria construir uma casa de 360 m², com a base revestida de pedra. Wfb comenta que, nesse momento, completava 16 anos, e já possuía o conhecimento necessário para realizar a edificação. O pai, contudo, não confiava na sua habilidade e resolveu convidar um canteiro oriundo de são joão del rei chamado sr. Antônio. ● wfb comenta que sr. Antônio não tinha muito capricho e esmero. Segundo o entrevistado, ele não gostava de trabalhar “muito certo”, “muito na linha”, a fim de terminar o serviço mais rápido. Para tanto, antônio gostava de trabalhar com pedras maiores. Após terminar um muro, o pai não gostou do serviço, pois, segundo o entrevistado, era um “serviço porco”. Vendo que o serviço estava mal feito, o pai de weber pediu-lhe que fizesse um muro sozinho. Então, com 17 anos, wfb construiu o seu primeiro muro, sem a ajuda de terceiros. ● a partir daí, a imaginação do pai aumentava. O pai de wfb construiu jardins, “senzalas” (locais que imitavam as antigas senzalas dos casarões e fazendas do período da escravidão), capelas e novas casas. à medida que a imaginação do pai crescia, a habilidade de seu filho também aumentava. Assim, dos 12 anos até os 26 anos, o filho trabalhou para a construção do sítio de seu pai. Nesse período, aprendeu não só as técnicas da cantaria, mas também da marcenaria, pintura, entalhes em madeira e pedra. ● com relação aos dois canteiros que trabalharam no sítio de seu pai, wfb comenta que benedito (“seu bené”) já é faleciodo e o sr. Antônio ainda está vivo, porém não trabalha mais no ofício. Segundo o entrevistado, atualmente, o sr. Antônio entalha figuras em pedra (leões, entre outros). O entrevistado comenta que o aprendizado com esses canteiros foi extremamente difícil e que pouco aprendeu com eles: “eles não me ensinaram, eu meti a cara e fui fazendo”. Porém, com o sr. Antônio, aprendeu um segredo para fazer o muro de pedra seca. Assim o entrevistado descreveu o segredo: tem um segredinho sim. Eu falo para todo mundo, mas eu não falo o segredo. Na hora que você põe a pedra assim ó. Põe pedra de cá e de cá. Então você põe a pedra assim, você nunca põe a pedra caindo para fora do muro. Se ela está caindo vai escamando ela com a marreta. Vai trabalhando com a marretinha assim. Você põe, se ela apoiou assim ó, beleza, se ela está mancando para dentro, ótimo, você calça daqui de dentro ela nunca vai sair para fora. O calço nunca vai sair. Ele vai ficar ali dentro. Então o muro, as pedras nunca vão cair. E muro tem uma outra coisa que ele me explicou, nunca põe uma pedra em pé. às vezes tem uma laje bonita assim, tem uma face boa, mas você nunca vai por ela em pé, vai por ela deitada, sempre a camada, nunca põe ela em pé para aproveitar o lado maior, entendeu? Não dá certo, essa pedra para fazer muro não dá certo para colar, tem que por assim a camada, entendeu? Aí foi só isso que ele me explicou e eu comecei a fazer. Peguei o jeito e comecei a fazer, e faço, com pedra grande, com pedra pequena, de qualquer jeito. Entendeu? Questionário de identificação: ofícios e modos de fazer mg 02 04 10 q60 002
Transmissão de saberes
● não. Tentou ensinar a alguns ajudantes, porém não obteve êxito. Diante disso, prefere trabalhar sozinho, pois uma segunda pessoa calçando o muro pode atrapalhar a execução da atividade. ● segundo o entrevistado, boa parte das pessoas às quais ele tentou ensinar tem a “cabeça dura”. ● associa o aprendizado com o dom e a facilidade em montar o “quebra-cabeça” que é montar o muro de pedra. ● o entrevistado considera valoroso passar o conhecimento a outras pessoas e comenta sobre as dificuldades de se passar a técnica: é legal você passar para outras pessoas, porque é igual eu falei uma pessoa me ensinou, entendeu? é assim que faz e tal. Outras pessoas igual eu estava lá esse ano mesmo que eu estava acabando esse muro lá em cima. Tinha tanta gente assim admirando. Aí um rapazinho falou: “ah eu vou fazer isso lá na minha casa, mas como é que faz?” “não, você faz assim, assim e assado que vai dar certo, vai dar certo sim”. Mas acho que a pessoa não entende, ou acha que não tem o dom, não tem habilidade de fazer. Porque eu, sinceramente, ele me explicou [referência ao sr. Antônio] como colocar o calço por dentro, mas eu aprendi praticamente só de olhar, só de olhar ele fazendo eu aprendi a fazer, entendeu? E eu faço melhor que ele, não me gabando, mas o meu muro fica mais certo que o do homem.

