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Descrição e relevância do território
Sobre os doces de pelotas (mario osorio magalhães) depois de casa grande & senzala (1933), sua obra mais célebre, gilberto freyre escreveu guia prático, histórico e sentimental da cidade do recife (1934), sobrados e mucambos (1936) e nordeste (1937). Ou seja: já consagrado como o grande intérprete do brasil, volta-se mesmo assim para os fenômenos locais e regionais, dando prosseguimento, entre ambos, à sua trilogia de compreensão antropológica do homem brasileiro. E surpreende, mais uma vez, logo em seguida: em 1939, edita açúcar, um livro de receitas — melhor: um livro em que transcreve preciosas receitas de doces e bolos, conservadas por tradicionais famílias nordestinas. Precede-as de uma longa introdução, bem ao seu estilo: erudita, mas leve e saborosa. Demonstra, nessas páginas, haver florescido no país, à sombra da escravidão, uma arte doceira que, como a música, a arquitetura e o futebol, confere ao brasil uma identidade singular. Resume, textualmente, a certa altura: “o nordeste do brasil, pelo prestígio quatro vezes secular da sua sub-região açucareira não só no conjunto regional, como no país inteiro, se apresenta como a área brasileira por excelência do açúcar. Não só do açúcar , também a área por excelência do bolo aristocrático, do doce fino, da sobremesa fidalga tanto —contraditoriamente— quanto do doce e do bolo de rua, do doce e do bolo de tabuleiro, da rapadura de feira rústica que o pobre gosta de saborear com farinha [...]” quase 40 anos depois — em 1967 —, o antropólogo nordestino vem ao rio grande do sul, permanecendo alguns dias na cidade de pelotas. Profere três conferências na faculdade de direito local sobre temática que desenvolveria mais tarde no seu livro além do apenas moderno (1973). E em pelotas se interessa, naturalmente, por conhecer melhor o seu passado — a sua tradição doceira, inclusive. Reúne-se com historiadores, entrevista pelotenses tradicionais, é convidado a tomar chá na companhia de damas emblemáticas da sociedade local. Entre 1968 — um ano depois da visita — e 1986, elabora um novo prefácio para uma terceira edição de açúcar, que será publicada só postumamente — em 1997 — pela companhia das letras. Nesse prefácio confessa, então, sua surpresa: havia provado, no sul do país, doces finos que rivalizavam, em qualidade, com os doces do nordeste. Mais: tais doces eram fabricados e consumidos dentro de uma área regional não-produtora do açúcar, o que acabou por convencê-lo de que era preciso estabelecer uma nova concepção para a geografia do doce no brasil. E a explicação que encontra para o fenômeno resume numa única expressão: o intercâmbio charque-açúcar, entre pelotas, de um lado, e o nordeste, de outro. Não explica em detalhes, mas quis dizer: pelotas exportava charque, principal alimento de todos os escravos brasileiros — inclusive os dos engenhos de pernambuco. Importava, na troca, entre outros produtos, o açúcar que aqueles escravos produziam. Então, suas próprias mucamas, em parceria com as sinhás, transformavam-no, como lá, em sobremesas deliciosas, mas adaptadas ao gosto local. Daí esses doces finos, sempre tão bons, às vezes até melhores do que os doces do nordeste — sem dúvida, a área por excelência do açúcar , não, portanto, a área por excelência do doce, no brasil. Código da ficha rs zona urbana de pelotas 1º distrito, sede do municipio. 2008 f11 01 uf sítio loc. Ano ficha no. Sal e açúcar pelotas, capital nacional do doce... Uma tradição do açúcar — seu emprego na forma de bolos, pudins, docinhos, confeitos, geléias, frutas em conserva — já vem se impondo de fato há algum tempo, tanto no cotidiano dos pelotenses como na representação que se faz da cidade. é uma identificação que, de certa forma, veio nos dias de hoje substituir uma outra: aquela que pelotas teve, num passado mais remoto, com a indústria do charque, ou seja, com a tradição do sal. E, como se atribuem a cada um — ao açúcar e ao sal — propriedades opostas, poderiam igualmente parecer antagônicos, na sua origem, os elementos culturais que o doce e o charque simbolizam, nas tradições de pelotas. Mas é pura impressão. Construiu-se nesta cidade, durante o século xix, sobre a economia dos saladeiros e a força da mão-de-obra escrava, uma civilização em muitos aspectos singular, comparativamente ao resto da província. O lazer, justificado pela curta safra das charqueadas, e uma grande movimentação de capitais, motivada pela alta cotação do charque nos mercados, trouxeram como resultado estilos de vida predominantemente urbanos. O culto às letras e às artes e, até mais do que isto, o requinte social, ficaram como marcas genéricas, como emblemas dessa civilização. Acabaram por atingir uma importância inestimável, nessa sociedade, o comportamento educado, as boas maneiras, os hábitos e costumes europeus, tendo por palco o interior dos sobrados, dos casarões suntuosos, por ocasião das festas, das comemorações, dos saraus, dos banquetes. Já escrevi: “enquanto a coxilha simboliza o espírito militar da história da campanha −teatro que foi das inúmeras lutas que ensangüentaram o solo gaúcho−, o salão representa o espírito cavalheiresco da história de pelotas −teatro que foi dos torneios da elegância, da conversação, da galanteria”. E é aí que se insere o doce, embora não, de início, como protagonista, pois essa civilização se sustentava no suor do negro, na punição do escravo, na faca assassina, na degola do boi, no arroio tinto de sangue, no cheiro de carniça, nas mantas de carne sob o calor do sol. Era uma civilização do sal, mas que procurava atenuar seus rituais de castigo e de brutalidade adocicando-se em cortesias, amabilidades, versos rimados, saudações solenes, dedicatórias rebuscadas e, veladamente, sensuais. Era uma sociedade escravocrata, e por isso rude, e por isso cruel , mas que, para sobreviver internamente, procurava ser dócil consigo mesma. Enfim, era uma elite de emergentes, de novos áulicos, novos barões, novos bacharéis que, à maneira dos parentes lusitanos e dos senhores de engenho do nordeste açucareiro, buscava adoçar corpo e espírito, neste brasil de clima europeu, com licores (os “finos líquidos”) e desserts , que se deliciava em quindins, babas de moça, fatias de braga, camafeus, trouxas de amêndoas, pastéis de santa clara... Açúcar e sal não são, portanto, necessariamente excludentes: pelo contrário, foram complementares para o florescimento desta cidade gaúcha que desabrochou no século xix. Uma cidade tão única, tão orgulhosa de si mesma a ponto de se autodenominar, ressaltando os conceitos de opulência e cultura, “princesa do sul” e “atenas rio- grandense”. Pelo lado de fora, e como conseqüência de um contraste ostensivo, em outros recantos da campanha regional, ao fazer referência a essa sociedade que esta cidade produziu, hão de tratá-la de “aristocracia do sebo” ou “aristocracia da banha”. é claro, essas últimas expressões foram geradas com a intenção evidente do menosprezo, e certamente também por despeito. São significativas para a argumentação que faço porque revelam, metaforicamente, que os críticos, os maledicentes algozes dessa civilização não se conformavam, não admitiam a circunstância de que açúcar e sal pudessem coexistir e se harmonizar. Mas a realidade é que se harmonizaram e coexistiram na sociedade pelotense do século xix. Passas e compotas mencionei a safra das charqueadas. O trabalho durava de novembro a abril, enquanto o tempo se mantinha quente, e era executado, em cada uma dessas “fábricas de salgar carne”, por cerca de 80 escravos. Era preciso ocupá-los, no período da entressafra. Por isso, mas também para gerar uma receita extra, em cada charqueada funcionava, paralelamente, uma olaria , com poucas exceções, cada charqueador era proprietário de uma chácara, na serra dos tapes, no interior do município: para ela, os escravos eram conduzidos no inverno e se ocupavam em fazer derrubadas, plantar milho, feijão, batata, abóbora. Sobretudo depois da abolição da escravatura, aquelas “datas de mato” ou foram vendidas ou arrendadas pelos próprios charqueadores, na forma de pequenos lotes rurais. Acabaram por dar origem a inúmeras colônias (45 em código da ficha rs zona urbana de pelotas 1º distrito, sede do municipio. 2008 f11 01 uf sítio loc. Ano ficha no. 1900), como a santo antônio, a santa eulália, a são bento, a santa áurea, a santa silvana. Receberam imigrantes franceses, espanhóis, austríacos, italianos, alemães − etnias que não raro passaram a trabalhar e a conviver dentro do mesmo espaço. é então, e aí, que se vai verificar o aumento do cultivo do pêssego, do morango, da laranja, da maçã, do figo, da goiaba, do marmelo , pouco depois, o emprego dessas frutas na forma de compotas, doces de massa, passas e cristalizados. Porque, se a produção do açúcar no rio grande do sul era quase inexistente, através do porto do rio grande carregamentos trazidos do rio de janeiro, da bahia, de pernambuco, já eram largamente consumidos em pelotas, graças à tradição doméstica do doce fino, em festas, banquetes e saraus. Havia uma facilidade: navios que levavam o charque não haveriam de voltar vazios, e de torna-viagem traziam louças, pratarias, móveis, quadros, livros, figurinos, magazines das grandes capitais, mantimentos e, é claro, o açúcar. Com o tempo, as charqueadas foram deixando de existir, um pouco por causa da própria libertação do escravo (maior consumidor do charque, no norte e no nordeste brasileiros, no caribe, em todos os países que adotassem o sistema escravista), um pouco pela concorrência (com a implantação dessa indústria em outros municípios rio-grandenses, o que foi facilitado pela implantação das estradas de ferro), um pouco (talvez muito) pelo advento da carne frigorificada. Foi preciso optar, aqui, por novas frentes econômicas, já num período de forte capitalismo. Uma delas seria justamente a industrialização de frutas de clima temperado. As fábricas de conservas que se instalaram no município, já no século que acaba de findar, chegaram a dar a impressão, por um momento, de que a cidade retomava o primitivo apogeu, aquele que atingira na segunda metade do século xix. Não foi assim. Provavelmente, nunca será. De qualquer maneira, aproveitou-se e explorou-se uma experiência e uma vocação −e isto é tradição, no seu sentido dinâmico. Pelotas pode ser considerada, enfim, sem nenhum exagero, a terra do doce, do mesmo modo como foi o berço das charqueadas, dos salões faustosos, das grandes damas, dos barões beneméritos, dos poetas românticos. Mas tudo isso ocorreu dentro de circunstâncias muito específicas, dentro de um tempo tão singular e tão mágico que é lícito, às vezes, duvidar. Quanta gente jovem, quem sabe quanto forasteiro não chega, de vez em quando, a pensar: pode ser fantasia, simples produto do bairrismo , isso talvez jamais tenha existido... O doce na rua em 1920 visitou pelotas a consagrada escritora júlia lopes de almeida. No ano seguinte publicou jornadas no meu país, livro em que relata as suas impressões de viagem. Quem, como eu, vem descobrindo, reproduzindo e comentando os vários textos que os mais diferentes autores escreveram sobre a nossa cidade, pode perceber e concluir que nessa obra, de 1921, pela primeira vez um escritor de fora menciona os doces de pelotas. Diz júlia lopes de almeida que, já conhecendo a fama das nossas passas de pêssego, não estava, no entanto, preparada para “as delícias das outras complicações de ovos e açúcar”. Diz mais, literalmente: “não sei se por aqui houve conventos, mas se não foram ensinadas por mãos de freiras, exímias na fabricação de guloseimas, caíram do céu para as cozinhas pelotenses as receitas destes papinhos de anjo, casadinhas fofas e queijinhos de ovo, que tenho no meu prato e que são mesmo uma tentação!” significaria isso que é recente (do século xx) a qualidade — e as singularidades — dos doces de pelotas? Não, em absoluto. Quer dizer simplesmente que em 1921 a tradição do doce, muito mais do que cinqüentenária no âmbito local, não se havia propagado no âmbito nacional. Por quê? Porque até então as comunicações, sendo incipientes, exigiam que se selecionassem as notoriedades. E era mais específica, também mais curiosa, no que diz respeito a pelotas, a tradição que provinha do sal — da indústria do charque —, a qual fizera florescer, por sua vez, uma cidade próspera e uma sociedade extremamente ciosa dos seus valores culturais, em que as moças da elite sonhavam, caladas, com seu casamento na corte — realidades que se refletem em outros vários textos, no cancioneiro popular e, emblematicamente, num texto do maior escritor brasileiro, machado de assis. (no seu romance quincas borba, machado de assis faz seis referências explícitas a pelotas, tratando de uma pelotense, de nome sonora, que d. Fernanda pretendia casar com o primo, carlos maria , sonora, “um bijou”, só casaria “com moço da corte”.) o doce, embora também fosse característico desta cidade e dessa sociedade, identificava mesmo era o nordeste, região por excelência da produção, do beneficiamento do açúcar e da sua transformação em requinte culinário. A informação de que as passas de pêssego, ao contrário, eram conhecidas da autora, vem comprovar que, nessas código da ficha rs zona urbana de pelotas 1º distrito, sede do municipio. 2008 f11 01 uf sítio loc. Ano ficha no. Primeiras décadas do século xx, expandia-se a publicidade, já cumprindo, é claro, o seu objetivo mais típico: a valorização comercial. O que se promovera, veja bem, não era uma tradição, mas um produto recente. Conforme sublinhei em opulência e cultura, só com a superação dos saladeiros, no início do século, incrementou-se a industrialização, em nossa zona colonial, das frutas de clima temperado , utilizou-se então o pêssego (a fruta mais produzida) não só ao natural: também na forma de doce, de geléia, de conserva, de passa — sem dificuldades, pois já havia aqui, domesticamente, uma tradição doceira. Explorou-se e propagou-se o seu consumo, chegando afinal ao conhecimento da escritora júlia lopes de almeida. Justamente a partir desse momento (dos “frementes anos 20”, na expressão de nicolau sevcenko) é que fugirão pelas portas, ganharão o centro da cidade, e ainda mais as artérias e avenidas das capitais brasileiras, esses “papinhos de anjo, casadinhas fofas e queijinhos de ovo”, cujas receitas, muito antigamente, haviam caído “do céu para as cozinhas pelotenses” sem nunca ultrapassar a sala de visitas. é que uma nova burguesia se agitará pelas ruas , construirá, quase sempre ao ar livre, novos espaços de sociabilidades: ringues de patinação modernizados, cafés, salões de bilhar e, como o mais sofisticado de todos, as confeitarias. Nas suas vitrines estarão expostos tanto os doces tradicionais do nordeste quanto os tradicionais doces de pelotas. Com todas as suas diferenças e coincidências, de aspecto e de paladar. Por isso é que, dez anos depois de júlia lopes de almeida, um outro forasteiro, berilo neves — escritor e humorista — , pôde escrever, em pampas e coxilhas, que se fazem em pelotas “os melhores doces do rio grande” , e que as “suas compotas são, quase, tão famosas quanto as suas mulheres”. Nesse ano de 1931 recém a pelotense yolanda pereira havia conquistado, em nome do brasil, pela primeira vez o título de miss universo. O doce e o tempo já percebo claramente uma certa frustração — uma ponta de mal-disfarçada frustração — no semblante de quem acaba de percorrer estas mal traçadas linhas. Parece-me compreensível: afinal, não foi possível ao leitor apreender, aqui, uma narrativa mais linear e concreta sobre a origem dos doces de pelotas. Confesso: também ficaria mais satisfeito se pudesse lhe contar, por exemplo, que o doce chegou aqui no ano tal, vindo de tal lugar, trazido por fulano de tal , que no decorrer de tantos anos produziram-se tantos doces, os quais se disseminaram primeiro pelos sobrados de determinada rua, depois foram servidos nos seguintes saraus, banquetes etc. Etc... Ou seja, à semelhança do modo como nós, os historiadores pelotenses, contamos a origem do charque em pelotas: utilizando nomes de ancestrais, datas, dados numéricos e estatísticos. é assim, tenho observado, que se aprecia de preferência — e com razão — a história: através de informações materiais e precisas, com identificação de pessoas e de eventos , recheada de algarismos , dentro de uma ordem cronológica muito bem definida. Garanto absolutamente, porém, que assim, dessa maneira, essa história jamais será contada. Nunca houve um pinto martins do doce, como houve o do charque , de início não se criaram, para produzi-lo, indústrias, como as charqueadas , e isso porque o doce, à parte de ser o objeto material que é — um alimento —, foi desde logo aqui um fator sócio- cultural — integrante, já na sua origem, do nosso patrimônio imaterial. O acervo imaterial é anônimo e é coletivo. Por isso, seria inútil procurar o sobrado e a data em que se confeccionou, pela primeira vez, um doce em pelotas. Mesmo que essa informação existisse, seria no máximo curiosa — com certeza sem nenhuma influência para a sua transformação em costume, primeiro, e, depois, em tradição. Já no caso da charqueada é diferente: a primeira que se estabeleceu aqui serviu como estímulo para o surgimento das outras. Verdadeiramente significativo — e isso eu registrei — é o fato de que o doce foi ocupando os palacetes de pelotas no decorrer do século xix e se tornou um hábito local sobretudo por três motivos — motivos que nada explicam por si mesmos, mas tão somente quando se entrelaçam: porque os fundadores eram portugueses ou descendentes de portugueses — transportaram da metrópole esse gosto, que passaram aos filhos —, porque, enriquecidos, exercitaram o requinte social — promoveram festas, banquetes, bailes e saraus — e finalmente porque, na sua condição de charqueadores, tiveram facilidade para importar o açúcar do nordeste brasileiro, dentro dos mesmos navios que levavam o charque — e em troca do charque. Tenho ouvido uma versão que, por equivocada, me compete negar. Há quem diga que o doce foi originariamente fabricado, aqui, pelas freiras, em conventos religiosos. Essa pode ser, veja bem o leitor, a explicação para a origem, mais remota, do doce em portugal , atribuí-la a pelotas é uma grosseira simplificação, sem base histórica. O seu palco, aqui, foi de fato o sobrado, e os produtores desse elemento, nessa peça de costumes, a mucama e a sinhá. Código da ficha rs zona urbana de pelotas 1º distrito, sede do municipio. 2008 f11 01 uf sítio loc. Ano ficha no. Por isso é que cantava, anonimamente, o gaúcho: na cidade de pelotas as moças vivem fechadas , de dia, fazem biscoitos , de noite, bailam caladas.
Localização
Paisagem e meio ambiente
Cartografia da cultura doceira pelotense - a compreensão da configuração histórica e geográfica das duas grandes tradições doceiras pelotenses pode ser favorecida pela análise de suas distribuições espaciais, no território do município de pelotas e municípios adjacentes que foram criados a partir do recente desmembramento deste (morro redondo, arroio do padre, capão do leão e turuçu ), bem como da distribuição dos grupos étnicos que colaboraram com a constituição destas tradições. Para o estabelecimento de um zoneamento das tradições doceiras, foi elaborado um estudo com base nos seguintes elementos: para a caracterização geomorfológica, seguiu-se o estudo radam-brasil, para caracterização da planície costeira interna e do planalto sul rio-grandense, utilizados pelo lepaarq como referência para seu projeto de mapeamento arqueológico da região sul do rs , para os estudos de etnia na zona rural, foram tomadas como referência as intervenções desenvolvidas na região colonial, pela equipe do lepaarq, por decorrência do desenvolvimento do museu etnográfico da colônia maciel, voltado à memória da etnia italiana, além dos projetos em andamento voltados à constituição dos museus dedicados à memória das etnias francesa e pomerana , como referências cartográficas, foram utilizados, para o estabelecimento da topografia, o mapa oficial da prefeitura municipal de pelotas, e, para a localização nos distritos de pelotas, o mapa elaborado por jaekel & oliveira ltda., sob responsabilidade do eng. Agron. Fioravante jaekel dos santos. O mapa da pelotas antiga (ver item 6) apresenta um zoneamento geomorfológico, dividindo a região estudada em três áreas, conforme a altitude. A primeira, ocupando uma área cujas altitudes variam de 0 a 40 metros acima do nível do mar, corresponde à planície costeira interna. A segunda e a terceira, com altitudes correspondentes, respectivamente, às variações de 40 a 100 m e 100 a 400 m, compreendem duas subdivisões da encosta do planalto sul rio- grandense: a área intermediária, denominada coxilha ou “barreira 1”, e a área mais elevada, conhecida como serra dos tapes ou, geologicamente, “escudo cristalino pré-cambriano”. A planície costeira subdivisão interna: “(...) é constituída predominantemente por depósitos arenosos, síltico- argilosos, argilosos e ocasionalmente conglomeráticos, que fracamente consolidados ou inconsolidados constituem acumulações coluviais, fluviais, lacustres, eólicas e marinhas, de idades variáveis desde o limite entre o terciário e o quaternário até o holoceno.” (radambrasil 33, 1986, p. 34) constitui-se em amplas e extensas planícies costeiras, numa vasta superfície plana, alongada, alargando-se para sul, onde se registram as maiores áreas lagunares do brasil. A região geomorfológica planície costeira interna apresenta-se como uma área baixa, posicionada entre a unidade planície marinha a leste e os relevos planálticos a oeste. A região geomorfológica planície costeira interna abrange fundamentalmente dois distritos do município de pelotas, a colônia z-3 (2º) e sede (1º), onde se situa o grande conglomerado urbano. Nas regiões rurais destes distritos, percebe-se a relação entre as características fisiográficas e os processos de interações socioeconômicas. Na região costeira, nomeadamente na colônia z-3, destaca-se a atividade pesqueira, com destaque à pesca do camarão. No restante das áreas rurais da planície costeira interna, os latifúndios dividem-se entre a produção de arroz e a pecuária de corte. A região geomorfológica do planalto sul rio-grandense corresponde à área de ocorrência do conhecido escudo cristalino sul rio-grandense. Encontra-se limitada a norte e a oeste, pela depressão central gaúcha, a leste, pela planície costeira interna, e, a sul, adentra em território uruguaio, ou tem como limite a fronteira política com o país vizinho. Código da ficha rs zona urbana de pelotas 1º distrito, sede do municipio. 2008 f11 01 uf sítio loc. Ano ficha no. A complexidade da estrutura geológica dada principalmente pelas rochas pré- cambrianas do complexo canguçu se revela na paisagem através de um relevo intensamente dissecado em formas de topo convexo e vales profundos, que apresentam uma certa orientação de sudeste para noroeste e sudoeste para sudoeste. Ao lado disso, ocorrem áreas menos dissecadas, em oposição de topo, que constituem restos de superfícies pedi planas. Os solos da região são predominantemente podzólicos vermelhos, amarelos e litólicos, sob cobertura vegetal campestre (savana arbórea aberta, parque e gramíneo- lenhosa) e florestal (floresta estacional semidecidual).O rio camaquã constitui o principal eixo de drenagem que, juntamente com seus afluentes, mostra um padrão de drenagem subdendrítico. (radambrasil 33, 1986, p. 352). Genericamente o relevo se apresenta dissecado em formas de colinas, ocorrendo também áreas de topo plano ou incipiente dissecado, remanescente de antiga superfície de aplanamento (radambrasil 33, 1986, p. 352). Nos compartimentos superiores da unidade, onde o relevo é francamente dissecado ou mostra topos planos, ocorrem formações superficiais rasas, encontrando-se também rocha exposta em forma de lajeado, ao lado de pavimentos detríticos. Ocorre também truncamento de rochas metamórficas e migmáticas do complexo canguçu,... Nas encostas de declive forte, encontram-se matacões, principalmente onde ocorrem granitos e gnaisses, além de linhas de pedra alimentadas por veio de quartzo (radambrasil, 33, 1986, p. 353). A região da serra dos tapes abrangida pela zona colonial do município de pelotas corresponde à subdivisão do planalto sul rio-grandense denominada unidade geomorfológica planalto rebaixado marginal, marcada por uma superfície dissecada, posicionada altimetricamente entre 100 e 200 m, podendo em certas áreas atingir 450 m, que isola os relevos elevados dos planaltos residuais canguçu-caçapava do sul. O relevo encontra-se bastante dissecado em rochas pré-cambrianas do conhecido escudo sul rio-grandense, configurando colinas, interflúvios, tabulares e secundariamente cristais. As encostas são geralmente íngremes, onde se encontram matacões. Há cornijas e às vezes planos rochosos inclinados, onde as colinas têm topo estreito (radambrasil, 33, 1986, p. 355). Nos compartimentos alveolares, genericamente, encontram-se solos profundos, apresentando até duas linhas de pedra, separadas por colúvios. Aí também ocorrem paleocanais colmatados em posição mais elevada nas encostas das colinas e cascalheiros, indicam inversão de relevo. Constatou-se em trabalho de campo que nos paleocanais há encrostamento em torno de raízes, separados de uma cobertura coluvial, por uma linha de pedra, composta de fragmentos de crosta e seixos de quartzo e quartizto. A cobertura coluvial pode ser espessa, podendo atingir até 2m. Nas áreas onde os topos são planos, configurando interflúvios tabulares, encontram-se pavimentos detríticos e afloramentos rochosos em forma de lajeados. (radambrasil, 33, 1986, 353). Essa região geomorfológica do planalto sul rio-grandense abrangida pelo município de pelotas, além dos municípios de morro redondo, capão do leão, arroio do padre e turuçu, emancipados de pelotas a partir de finais da década de 1980, subdivide-se, do ponto de vista da altitude e da formação geológica, na região da coxilha e da serra dos tapes. A região da coxilha é uma região intermediária, que faz a transição entre as regiões de planície e planalto, compartilhando características de ambas, tanto do ponto de vista fisiográfico quanto sócio-econômico, misturando latifúndios e minifúndios, respectivamente nas porções de terra mais baixas e mais altas deste compartimento geomorfológico. Corresponde parcialmente aos distritos do cerrito alegre (3º) e monte bonito (9º). A região da serra dos tapes, correspondente ao “escudo cristalino pré-cambriano”, compreende integralmente os demais distritos rurais: triunfo (4º), cascata (5º), santa silvana (6º), quilombo (7º), rincão da cruz (8º), incluindo integralmente a área do município de arroio do padre, encravado dentro do território do município de pelotas, e morro redondo, e atingindo ainda parcialmente capão do leão e turuçu, os quais compartilham com pelotas a característica de distribuírem sua faixa territorial ao longo destas três áreas geomorfológicas identificadas. A região da serra dos tapes é composta marcadamente por minifúndios e pela policultura, com destaque à fruticultura e horticultura, associadas, na origem da ocupação destes territórios pelos imigrantes europeus, à introdução da avicultura e suinocultura. Prevalecem culturas anuais, como o milho, a batata, o tomate, cítricos e, mais recentemente, o fumo, que desestabilizou o princípio policultor dos minifúndios regionais, desde a formação sócio- econômica desta região no último quartel do século xix. Código da ficha rs zona urbana de pelotas 1º distrito, sede do municipio. 2008 f11 01 uf sítio loc. Ano ficha no. A introdução destas novas formas econômicas na região serrana está associada à instalação de colônias compostas por grupos étnicos de origem européia, que criam formas sócio-econonômicas baseadas na adaptação de suas tradições, trazidas da europa, às características fisiográficas da área de sua instalação e às demandas históricas do estímulo da ocupação destas áreas por estes contingentes populacionais de imigrantes, que criaram o que se costuma chamar de economia colonial. Para a compreensão da tradição doceira associada a esta região, faz-se necessário um comentário abreviado, do ponto de vista étnico, cultural, econômico e fundiário, sobre a instalação de colônias rurais de imigrantes europeus, aos moldes do que vinha sendo feito no nordeste do estado, deste a criação da colônia alemã em são leopoldo em 1824. A criação destas colônias, na zona sul, foi propulsionada pela instalação da colônia rheingantz, em são lourenço do sul, próxima à antiga sede deste município (boqueirão). A peculiaridade desta colônia é a introdução no estado de imigrantes pomeranos, que não devem ser confundidos com alemães, falando uma língua própria, que não é caracterizada como um dialeto. Estas colônias se expandiram, a partir das zonas lindeiras de são lourenço com canguçu e pelotas, para outros municípios. A particularidade de nossa região no movimento de criação de colônias é a diversidade das etnias: alemã, pomerana, italiana e francesa. No que se refere aos municípios envolvidos em nosso estudo, este movimento de criação de colônias em terras devolutas, na área rural, foi determinante na formação econômica e cultural de morro redondo, arroio do padre, pelotas e turuçu, que possuem áreas configuradas sob a influência histórica e cultural dos colonos europeus. De certa forma, a introdução das colônias de imigrantes na região resulta na criação de uma nova unidade produtiva: o minifúndio baseado na policultura, sobretudo na horticultura, inicialmente planejado para suprir a alimentação das cidades que cresciam no final do século xix. A maioria destas colônias foram criadas como empreendimentos particulares, apesar de dois casos particulares em pelotas, a colônia maciel, que era uma colônia imperial, e a colônia municipal (atual grupelli). Deste modo, podemos afirmar que, na segunda metade do século xix, a introdução das colônias reconfiguraram por completo a estrutura fundiária, o latifúndio estancieiro pecuarista cedendo lugar a esta nova configuração, o minifúndio horticultor. Como conseqüência disso, canguçu, vizinho setentrional do município de pelotas, hoje é o município da américa latina com o maior número de minifúndios. Essa economia de minifúndios, chamada economia colonial, gerou nestas áreas alguns períodos de fortalecimento econômico, a partir de atividades geradas pelo desenvolvimento destes núcleos coloniais, tais como a produção artesanal do vinho e de doces e a produção industrial do pêssego em conservas (a partir da segunda metade do século xx). Morro redondo e arroio do padre são os únicos casos da região de municípios cujo núcleo urbano que funciona como sede do município foi resultado do processo de ocupação colonial da área, sobretudo por colonos de origem, respectivamente, alemã e pomerana. A presença do imigrante alemão e pomerano, do ponto de vista cultural, coloca a diversidade de religiões cristãs, com a introdução de cultos evangélicos luteranos, paralelamente ao culto católico, predominante entre os descendentes de italianos e franceses. Deste modo, já no século xix, a chegada de imigrantes relativizou o predomínio católico na região, com a introdução de cultos evangélicos na área colonial de imigração, bem como pela presença nas cidades da região de judeus, maçons, muçulmanos, espíritas e seguidores de cultos de origem africana. Se considerarmos a distribuição geográfica das duas grandes tradições doceiras, constataremos que os ditos doces finos, cuja origem é atribuída à imigração portuguesa, concentram-se na zona geomorfológica da planície costeira interna, sobretudo na sede do município, onde se concentrou a maioria dos imigrantes de origem portuguesa, que se instalaram majoritariamente na área urbana, estabelecendo vínculos culturais com as elites de extração luso- brasileiras vinculadas historicamente aos latifúndios situados na planície costeira, com freqüência com ligações a tradições familiares remanescentes do período das charqueadas. Os chamados doces de fruta, eventualmente denominados doces de safra, doces coloniais ou mesmo doces de tacho, possuem sua origem na região de economia colonial, fortemente marcada pela fruticultura. Hoje, a manutenção desta tradição doceira oscila entre as formas artesanais de fazer e a produção industrial. As diversas formas artesanais, calcadas na tradição, com base na qual são produzidos doces bastante variados, com utilização de diversas frutas, apesar do predomínio do pêssego, permanecem majoritariamente sendo desenvolvidas por famílias ou pequenas manufaturas domésticas localizadas na região colonial, sobretudo na faixa territorial da encosta do planalto sul rio-grandense, com concentração maior na serra dos tapes e mais reduzida na coxilha. As indústrias de maior porte, por sua vez, concentram-se hoje nas áreas urbanas, sobretudo no distrito industrial de pelotas, localizado junto à sede do município (no primeiro distrito), e em morro redondo, apesar de que, em décadas passadas, espalhavam-se em toda região colonial dezenas de pequenas indústrias de conserva e compotas. Código da ficha rs zona urbana de pelotas 1º distrito, sede do municipio. 2008 f11 01 uf sítio loc. Ano ficha no.

