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História de vida
A origem do entalhe na história profissional de givaldo vem de uma tradição familiar. Seu aprendizado se deu dentro de casa com o pai aluízio. Posteriormente, aprimorou e exerceu o ofício nos canteiros de obras de restauro do centro de preservação histórico de olinda e da fundação joaquim nabuco em recife, ao lado de seu pai e de outros parentes que também dedicaram a vida ao entalhe.
Localização
Aprendizado do bem
Do aprendizado da técnica de entalhe mestre givaldo relata, “eu comecei aprender eu era pequenininho, bem pequenininho, vamos dizer assim, chupava chupeta ainda, ele [o pai] me punha para lixar as coisas que ele fazia, meu pai trabalhava nesse negócio de talha para sustentar a família, eram dez filhos, aí não tinha muito estudo, meu pai era muito humilde, estudou muito pouco e ele trabalhou sempre nessa área e dava para sustentar a família. Aí tinha um senhor que sempre dava talha para ele fazer, vamos dizer era, como que eu posso dizer, espelho de cama (cabeceira da cama), era torneado, era lapidado, era desenhado e ele fazia aquele desenho todinho, os espelhos, os grandes e os pequenininhos, aí ele fazia uma, duas, aí o cara pagava a gente, pagava ele. Aí ele me botava para lixar, eu só fazia lixa, pequenininho eu só fazia lixa,lixa, lixa, aí eu fui crescendo um pouquinho mais, tive que parar com a atividade, estudar um pouquinho e tive que servir o exército, estudar um pouquinho mais, depois disso não apareceu emprego e meu pai sempre trabalhando nessa área”. Sobre a existência de algum mestre em sua vida profissional, givaldo conta, “além do meu pai, eu considero meu mestre também, apesar de ser quase da minha idade, o arruda [josé floriano arruda filho – mestre carpinteiro] é uma pessoa ótima, sabe trabalhar bem, tem a humildade. Acho mestre uma palavra muito pesada, porque você ser mestre é o máximo da história, porque a pessoa ser mestre é o máximo da história e eu acho que eu tenho muito que aprender, porque cada obra é uma história, cada dia você aprende mais. é como você dirigir, se você parar de dirigir, você pára de aprender, todo dia é um problema no trânsito, todo dia é um problema na talha. às vezes a talha não é simétrica, o que tem de um lado tem do outro, e aí a gente procura o que tem de um lado e não tem no outro, e aí? Aí entram os historiadores, arquitetos, entra um bocado de gente para dar luz pra gente. Talvez o que seja mais difícil para o entalhador... A gente só desenha, tem o dom de desenhar, mas a gente não tem o poder de decisão, por exemplo, a gente vê uma cartela, tem folha de acanto de uma forma, tem folha de acanto de outra forma, tem desenhos maneiristas, que você pensa que não é maneirista, mas são, tem desenhos rococós que tem suas características, mas que você não acha ali, se a pessoa que estudou mais que a gente disser ‘é rococó por isso e por aquilo outro’, explica e diz, e a gente só faz executar. Muitas vezes a gente é teimoso, ninguém vai subir lá em cima, são quatorze metros, dezesseis metros de altura, ninguém vai subir lá, a gente vai seguir o que o desenho pede, não foi a gente que inventou. Aliás, foi uma coisa que a débora [mendes – restauradora] me ensinou, a gente não deve tirar a leitura anterior, se o artista fez daquela forma é que ele queria que você entendesse daquela forma e a gente não tem o direito de apagar aquele registro, então a gente faz do mesmo jeito de antigamente”. Givaldo conta que antes alguns entalhadores, principalmente quando ainda não tinham consciência do que era um restauro, trabalhavam nas peças de entalhe raspando a pintura, a douragem, mas que hoje mudou devido ao valor que deram ao ofício de entalhador e a capacitação dos profissionais, “hoje em dia não, tem quantas camadas de pintura? Tem dez, tem doze, deixa naquela original, passa o verniz, trazer o passado ao presente, é diferente agora, agora virou moda, não é para destruir é para conservar e eu espero fazer um pouquinho”. Sobre como foi trabalhar na prefeitura de olinda, relata: “aí terminou esse período de trabalhar fora e apareceu oportunidade de trabalhar na fundação [laboratório de restauro da secretaria do patrimônio de olinda]. Dra. Rosinha falcão, engenheira na época, foi que abriu a vaga para eu entrar. Tinha um projeto que apareceu um punhado de crianças, aí dra. Rosinha perguntou: ‘seu aluízio, como que é isso? O senhor vai ensinar para as crianças? Ele disse: sim, não tem problema não, só que a senhora vai ter que botar meu menino também’. Ela disse: ‘não tem problema nenhum, traga ele que a gente vai e ensina’. Ela chamou, preenchi os dados todinhos, ela perguntou para mim, ‘o senhor começa hoje ou quer começar amanhã?’ eu já tava lá, fiquei trabalhando, ai chegando ao eufrásio barbosa, o mercado daqui [de olinda], disse: ‘seu aluízio cumpri minha promessa, agora falta o senhor começar a ensinar’. Aí a reunião todos os meninos, os grupos, aí eu comecei a trabalhar com eles, já sabendo o que ia fazer, daí em diante fui ficando, fui ficando, trabalhei na restauração da igreja do amparo, aí lá vai a gente sair dali e vai pra igreja do amparo, foi aquele período que eu falei para vocês que mestre lola trabalhava lá, mestre narciso também. E seu lola com aquele jeitinho dele, bem calmo, bem legal, ele era uma pessoa muito meiga. Que deus o tenha, né? Que ele já faleceu, pelo menos era uma pessoa muito legal, quando ele punha aquele chapeuzinho assim, saía rebolando, todo faceiro! Era muito legal, eu gostava muito dele, era muito legal, de lá eu passei um bom tempo, pedi a débora para sair da talha, que era minha chefe direta, para trabalhar no setor de pintura, de retoque, fazer a recapagem, fazer nivelamento, hoje em dia faço, mas a duras penas, com a lúcia. Até que um dia apareceu o projeto vita da fundação joaquim nabuco que foi uma obra enorme que teve aqui em pernambuco, onde deveriam ir dois técnicos de cada setor ligado a restauração. Foi da fundarpe, do iphan, dois da prefeitura e outros dois órgãos que não me lembro mais não, aí lá eu conheci a pérside que é a grande restauradora aqui de olinda e aí foi quando eu fui mais respeitado questionário de identificação: ofícios e modos de fazer pe pe ol 10 q60 12 também, mais valorizado, porque valorizar aqui é bronca, é difícil, viver de talha também é difícil, não tem jeito de viver aqui exclusivamente da talha, a não ser lá em minas gerais que deve ser melhor”.
Transmissão de saberes
No curso, além de aprender, mestre givaldo já sabia algumas técnicas do entalhe, sendo assim ajudava o pai, pois desde pequeno observou o ofício, “vamos dizer assim, está no sangue. Gostaria muito de ensinar, tenho tesão por ensinar, já tive a oportunidade de ensinar, inclusive tiveram dois cursos aqui, dados pela débora, o laboratório foi quem administrou isso aqui e eu tive a oportunidade de ministrar, como talhar, como fazer, como conhecer as ferramentas. Deram a oportunidade de garimpar pessoas, sabem quantas pessoas eu garimpei? Nenhuma. Porque não tem o dom da coisa, tem que ter o jeito, o jeito de trabalhar com aquilo lá”. De quinze alunos, nenhum, e eu também doidinho porque eu vi em portugal meninas trabalhando nisso”. Givaldo conta que apareceram meninas para fazer o curso, “vi jovens, meninas novinhas, ela pegava uma cadeira do século xvii estilo luís xv, ela fazia uma tese em cima daquilo, ela fazia a cadeira completa, estudava o desenho, recortava, talhava, montava e apresentava para o professor. Veja que coisa linda, aquela época lá atrás e você viver aquela coisa atualmente, porque não fazer isso aqui, talvez por conta da natureza agora, derrubar árvore, cedro é muito caro e muito difícil também”. Do curso com o pai, no mercado eufrásio barbosa, givaldo conta que tinha por volta dos vinte anos de idade quando fez, “esse curso foi muito interessante, era basicamente para pessoas da lba, do ministério da cultura, aquele negócio todo. A gente botava o desenho para a pessoa fazer, coisa simples, ai eles não conseguiam fazer, ai já ia eu dar umas orientações, às vezes papai ia e dizia alguma coisa. O curso era no galpão do eufrásio barbosa [antigo mercado de olinda], era uma área aberta grande, bem ampla. O entrevistado deixou um recado para os órgãos de restauração: “gostaria de dizer uma coisa, deviam olhar para o eufrásio barbosa, o eufrásio é a entrada de olinda, devia ser dado mais valor. A gente fez a restauração daquilo lá, e agora não funciona como um mercado, ali não tem um mercado, feito no recife tem o são josé”.

