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Projeto relacionado
Nome completo
Mestre caranguejo
História de vida
A origem da atividade para mestre caranguejo é familiar e ligada à profissão de pedreiro. Somente, a partir de 1984, ele aprofundou seus conhecimentos nas técnicas tradicionais de estuque.
Localização
Aprendizado do bem
Mestre caranguejo aprendeu, primeiramente, a profissão com o pai. O pai era pedreiro e trabalhava em engenhos e usinas fazendo cocheiras de gado, instalando pisos de ladrilho hidráulico, tijoleira ou tijolo manual, caibro, enxaimel – “um pedaço de madeira roliço que tinha um metro, um metro e meio que sempre coloca na parede da casas... Na construção tem as colunas de concreto e tranca com a alvenaria, na taipa é como se fosse a alvenaria que tranca entre os esteios. Ou coloca as ripas ou casa de vara que amarrava com cipó, quando era ripa, eles pregavam com um prego”. Segundo mestre caranguejo, “antigamente, não tinha piso de cimento. Os pisos eram feitos com tijolo manual. Primeiro nivelava tudim (o piso), corria uma camada de areia misturada com barro fazendo uma argamassa e ele vinha arrastando e colocando os tijolos manuais fazendo o piso das casas. Muitas casas históricas aqui de olinda que a gente vai fazer pesquisa a gente topa com dois, três ou quatro pisos. Quebrando, você vê que embaixo tem um piso diferente. A gente vai ver o que é e quando limpa e olha, a gente vê aqueles pisos de tijolo manual antigo embaixo. Quando eu comecei a ficar menino e mais velhinho, eu fui aprendendo com meu pai”. Eles construíam e reformavam também casas dos trabalhadores destes locais que eram construídas de taipa de sopapo com estrutura de madeira. Segundo mestre caranguejo, “nós não fizemos muitas casas porque as casas do interior... Quando vão fazer uma casa, é difícil... Porque eles fazem as casas de madeira, taipa de madeira. Quando uma casa de taipa de madeira chega a querer cair, ela está com mais de vinte anos ou até mais porque, antigamente, as madeiras eram muito boas e muito fortes. Eles faziam eram aquelas casas de taipa e tapavam tudim e ajeitavam. Quem ia morar nestas casas eram os trabalhadores mesmo, eram eles que socavam [o barro], ajeitavam e iam morar. Na continuidade, quando uma casa de taipa desta ia cair, passava muito tempo. Tinha vez, que não caia toda a casa: pendia um lado. Ai, eles tiravam um e esteio (“onde coloca a linha” uma seção de madeira, geralmente, na localidade, de imbiriba que dá a sustentação inferior de toda a estrutura da taipa de sopapo) e faziam um concerto, sabe como é? Colocavam outra madeira e, com esta outra madeira, passava mais outro tempo para precisar mexer de novo. Ai, caia outro pedaço e eles ajeitavam porque pode fazer por etapa também. Vai consertando aos poucos. As madeiras boas que eles colocavam passavam muito tempo. Um esteio de imbiriba na terra, depois que eles colocam um fogo nos pés dele, ajeitam queimando, ele dura mais de vinte anos. Quando você tira o esteio, passado mais de vinte anos, parece que foi colocada hoje. Naquele tempo, eu não trabalhei muito tempo com meu pai fazendo casa... Fazia uma casa, passava um tempo, restaurava outra e ajeitava outra. Mas, em serviço de cocheiro, a gente trabalhou muito”. O pai faleceu em conseqüência de um acidente de trabalho na usina trapiche realizando um trabalho em um bueiro. Ele caiu de um andaime e faleceu dois anos depois em decorrência do acidente aos 70 e poucos anos, idade que não precisou. Depois do falecimento do pai, mestre caranguejo, então com aproximadamente 20 anos, em meados de 1976, se mudou para a cidade do cabo com a esposa e começou a trabalhar em uma fábrica chamada sarabó localizada em uma estrada estadual que liga a cidade de cabo de santo agostinho a ipojuca. Começou a trabalhar nesta fábrica como pedreiro a partir da indicação de um irmão e depois de ter passado um tempo em período de experiência. Como nos conta mestre caranguejo “quando eu comecei a trabalhar nesta fábrica, eu não tinha classificação como pedreiro [classificação profissional na carteira de trabalho]. A turma não classificava na carteira. Eu trabalhei três anos e sete meses nesta fábrica já como pedreiro restaurando a fábrica, mas não era na carteira. Eles não consideravam a profissão na carteira ainda. Foi o tempo que a fábrica encerrou a parte de construção e o empregador, seu amadeu, questionário de identificação: ofícios e modos de fazer pe pe ol 10 q60 24 disse que eu era pedreiro, que ia sair de lá e que não podia sair sem minha classificação como pedreiro. Ele chamou a diretora e ela disse: ‘você coloca a classificação dele’. Eles colocaram, mas, quando eu cheguei na cidade, aqui no rio doce, os engenheiros complicaram uma coisa que eu até ri. Quando eles viram aqui minha classificação, ela não era como a construção, normalmente, faz. A construção não coloca muito detalhe, eles colocam pedreiro e acabou-se. Na fábrica, eles não faziam assim. Eles faziam um mapa. Quer dizer, colocavam passou tanto tempo assim de pedreiro, exercendo tal função, tantos anos... Era uma segurança porque só saía de lá classificado quando sabia fazer mesmo o serviço”. O trabalho como pedreiro nesta fábrica era em construções que ele classifica como nova: “era construção totalmente nova como hoje em dia: era cimento, azulejo e cerâmica em parede, cobogó, piso queimado, assentamento de grade de porta, estas coisas...”. Após o fechamento da fábrica, mestre caranguejo recebeu uma indenização muito pequena e, juntamente com os outros trabalhadores da fábrica, procurou emprego na construção civil de recife. De 1979 a 1982, trabalhou na construção civil como pedreiro em rio doce: fazia massa, reboco, alvenaria com tijolo vazado e cimento. Em 1983, então com 27 anos, mestre caranguejo começou a trabalhar na prefeitura de olinda em obras de restauro, no período do projeto de conservação dos sítios históricos. A sua primeira restauração foi no mercado eufrásio barbosa em olinda, como conta o mestre caranguejo: “o mestre de obra lá no mercado eufrásio era o mestre narciso. Ele está aposentado hoje em dia... Ele era um mestre muito antigo na área de restauro, mas ele trabalhava bem com material mais grosseiro: cimentaria, concreto, piso, alvenaria, muro de arrima [arrimo]... Ele tocava estas coisas mais pesadas: coberta... E eu trabalhava com ele fazendo estas coisas. Já para o fim de 1984, precisamos destacar umas pessoas para realizar obras que estavam começando a se espalhar, como na igreja do amparo, na igreja de são joão, na igreja do varadouro que é a são sebastião. O mestre lola estava na igreja do varadouro e seu caboclinho, na igreja do amparo. Foi ai que eu sai um pouco do mestre narciso. Ele era meu amigo e me disse que eu ia para a igreja de são sebastião com o mestre lola porque, ele me disse, ‘você tem um perfil bom, um acabamento muito bom e ele vai ensinar você a exercer o serviço de moldura mais seu caboclinho’. Na área de restauro mesmo, eu aprendi com mestre lola e mestre caboclinho, os dois estucadores antigos que a gente tinha aqui. Estes eram mestres. Nós passamos quase uns cinco anos na igreja de são sebastião. Terminamos esta igreja e deixamos pronta: fachada, estuque e cantaria de pedra”. Assim, trabalhou com mestre narciso, mestre lola e mestre caboclinho com os quais aperfeiçoou o seu conhecimento na profissão de pedreiro e aprendeu a técnica do estuque juntamente com mestre cosme. Assim como foi aluno do senai durante seis anos, entretanto, segundo ele, devido ao trabalho com o pai, “já comecei na prefeitura prático na profissão”. O senai forneceu cursos para os trabalhadores da prefeitura de olinda no período de 1986/87 através de um projeto que se chamava oficina escola de restauro. Nas palavras de mestre caranguejo, “eu era pedreiro. Ai, teve esta vaga de ensino aqui. Foi no tempo de germano [coelho – prefeito à época] ainda. Ele abriu espaço para o pessoal ensinar na hora do almoço. Toda semana ele deu logo meio dia para o pessoal ensinar. Eles ensinaram uns cinco anos na igreja do amparo. Quem dava as aulas eram o mestre lola, mestre caboclinho, seu aluízio, givanildo, professor galci... As meninas aprenderam com dona ivonete, com débora [mendes – restauradora]... O senai incumbia este pessoal todinho e a gente aprendia. Depois o ensino foi pouco, porque aqui era muito trabalho de restauro de altar, de igreja como a de são sebastião, o palácio... Isso foi tudo serviço de restauro do centro histórico de olinda”. Mestre caranguejo continua relatando as restaurações que participou: “ai juntou todo mundo no mercado de novo [em 1989]. Ai, fomos fazer a fachada do mercado eufrásio barbosa. Ai não foi mais com seu narciso , foi no comando de mestre lola porque era ele que trabalhava com este negócio de moldura, de adorno, estas coisas mais finas. Neste tempo, seu narciso precisou de mim de novo para cobertura de telha porque eu faço este trabalho também. Para toda coberta aqui em olinda, este pessoal do iphan me chama. Ai eu voltei para seu narciso. Me afastei um pouco de mestre lola e mestre caboclinho, mas, neste período, eu já sabia fazer tudo que eles faziam. Passei uns nove meses fazendo estas cobertas de telha e capotas no mercado. Quando terminei, seu lola precisou e mandou seu eli me apanhar aqui de novo para a gente ir para a igreja do amparo que precisava fazer as fachadas [em 1990]. Só tinha o seu caboclinho, o filho dele e o mestre cosme, e precisava de outro estucador mais novo mais forte para correr mais. Seu caboclinho, nesta época, era bem velhinho e não agüentava puxar mais um molde que era muito pesado. Ele sofreu um derrame e ficou sem força em um braço. Tinha força, mas era pouca na mão direita. Ai ficou só mestre cosme. Era muita moldura e eles estavam querendo um pique na obra para avançar. E me buscaram e eu fiquei lá. Foi daí em diante que eu não voltei mais para trabalhar com mestre narciso. Terminamos as igrejas”. Trabalhou no restauro do forro do nicho do passo antes do mercado da ribeira com mestre caboclinho e mestre lola, com ferrão castelo branco e o engenheiro ernesto e um diretor do iphan. Mestre caranguejo continua: “ai, seu caboclinho teve outro avc e não pode vir mais para o serviço. E mestre lola passando da casa dele para o outro lado na avenida – ele já estava velhinho também – bambeou e o carro bateu. Foi o carro bater que ele morreu na hora, não teve nem socorro. Foi uma pancada. Ficamos sem os ensinadores (sic) bons. E ficamos só eu e mestre cosme. Mestre cosme não fazia nenhum serviço sem mim porque eu é que corto os capitéis, num sabe? (...) eu aprendi com o mestre lola e com mestre caboclinho a fazer os capitéis. Mas, o mestre questionário de identificação: ofícios e modos de fazer pe pe ol 10 q60 24 caboclinho não gostava muito de ensinar. Quando você pedia ajuda, ele dizia que depois ia. E, sempre, ele não vinha, sabe? Quando você saia para beber uma água, ele chegava e se desse tempo de ele fazer antes de você chegar, ele até fazia. Mas, se não desse, ele vinha outra hora e fazia”. E ressalta: “antigamente, este negócio de estucador, alguns não queriam ensinar bem a ninguém trabalhar... Não queriam ensinar o segredo para ninguém tomar a posição deles”. Sobre mestre lola, mestre caranguejo relata: “mestre lola é que fazia todos os moldes... O que a gente precisava para fazer a obra era ele que fazia... Hoje em dia a gente não tem estas pessoas. O mestre lola era quem subia no andaime, olhava tudo, riscava, descia, cortava o molde do jeito que era certinho. E entregava tudo pronto na mão do estucador. Lá, o estucador ia armar e correr os moldes. Os moldes eram feitos com carpintaria e marcenaria. Primeiro, é o andaime. (...) mestre lola era um mestre muito antigo. Ele me ensinou muita coisa. Ele não se importava de ensinar. Ele tinha obrigação... Tinha dia que ele não almoçava. Ele tinha um desejo tão grande de chegar perto da gente e ensinar a gente tudo que ele sabia. Era um homem voltado para o ensino. Ele não ensinava nada que dava errado. Ele ensinava e ainda dizia assim: ‘você teve dúvida de alguma coisa? Você sabe? Mais tarde eu levo você para fazer’. Botava você para fazer e sentava bem pertinho. Se você errasse uma coisinha, ele dizia: ‘epa, perai que você não está bom ainda. Vou ensinar mais. Quem vai fazer sou eu’. E ele ia fazer. Ele fazia com aquela paciência e dizia: ‘está bom agora, está vendo’. Ele não fazia uma moldura para passar uma esponja que era para não acabar com o cabo de aço. Fazia para você olhar e estar como uma agulha porque esponja em cima de cabo de aço, mata o cabo de aço (1:24: 47 caranguejo1). Deixe ela meio assanhadinha, mas que o cabo de aço fique bem como gume de faca. é onde você está vendo a sua profissão.” não soube relatar com quem o mestre lola e o mestre caboclinho aprenderam a profissão de estucador porque, segundo ele, “nós nunca sentamos para conversar assim um assunto. Tem pessoas que não detalham, né? Era muito difícil uma pessoa sentar para conversar e detalhar. O tempo era muito pouco, não dava tempo. O tempo era pouco em serviço. Construção é um trabalho muito corrido. E o engenheiro e o mestre de obras não quer que a gente perca nem um minuto para que o serviço ande. Era sair de casa umas seis e meia da tarde, tomava um cafezinho. Era uma hora de almoço. Ai quando acabava de almoçar já dava quase doze e meia para pegar uma hora. Era a hora que a gente se deitava um pouquinho ou conversa um pouco. E a sineta bate e pega de novo uma hora da tarde. Quando larga, é tomar um banho e cada um para sua casa. Ai não tinha detalhe para a gente chegar. E no dia de folga... Eu morava no cabo e seu lola morava em caetés. Ainda era mais longe para mim ir do que olinda. Chegava de novo final de semana. Não tinha um contato para dizer como eles aprenderam. Eu não sei”. “teve também o regional, onde é a antiga maternidade. Até hoje, o regional ainda tem coisa parada porque uma área de serviço nova no meio de uma área histórica. Em baixo, tem uns tijolinhos todos aparentes. é bonito o serviço. Mas, não foi aprovado porque eram coisas novas. Não tinha isso. A laje ali do regional era daquele tempo em era o ferro liso ainda”. “naquele tempo [no período das construções do regional], eles não trabalhavam com este ferro que a gente usa para concreto. Era aquele ferro liso e não tinha brita. A brita que tinha era isso ai [mostrando para tijolos e telhas quebrados no chão]: botava três quatro ajudantes para quebrar... Removiam piso velho, parede, caco de telha. Não se perdia nada. Iam colocando tudo de lado e dois ou três ajudantes ficavam com uma marretinha fazendo este tipo de brita. (49 a 56 minutos – caranguejo1). A gente machuca a massa porque o cimento não tem como machucar. A massa é uma pasta e ai tem como machucar. Com a brita, a gente mexe o concreto misturando até chegar um ponto que você não vê nada, nem o cimento, nem a areia, nem a brita. Você vê tudo misturado. A massa não é assim, você vai mexendo, misturando, quebrando até que ela vira uma pasta... Até que ela conjuga com o outro produto: a cal, o saibro, a areia. O saibro é um barro. A gente peneira o barro. Tem a areia e o saibro para fazer o reboco. Aqui se usa mais a cal. Mas, em muitas áreas usa. Tem o saibro e a areia, peneira os dois e coloca um traço de 7 para 1. Coloca 5 latas de areia e duas latas do saibro, do barro e uma de cimento. Ai coloca a água e o menino para quebrar, fazer a pasta. Misturar até aquele barro que se usa com areia que quebra com a areia”. Como decorrência do falecimento dos mestres lola, caboclinho e cosme, falecido há uns sete anos, e a aposentadoria de mestre narciso, caranguejo passou a ser considerado como o mestre estucador da prefeitura de olinda há mais ou menos 15 anos. Durante todos os seus 27 anos de trabalho em olinda, mestre caranguejo morou na cidade do cabo do santo agostinho que fica a 60 quilômetros. Todos os dias, o seu trajeto para o trabalho é uma viagem que dura de uma hora e meia a duas horas e meia dependendo do trânsito e que necessita de dois ônibus coletivos da região metropolitana. Relata, então, sobre o seu trabalho atual ligado à restauração: “deste tempo para cá [há 15 anos], sempre trabalhei e nunca tive problema. Até mesmo umas firmas me chamam para trabalhar. Agora a pouco mesmo, doutora vânia me chamou para fazer um serviço na cidade [em recife] e eu não quis porque o serviço é grande. Mas, ela me pediu para passar por lá porque a fachada caiu e o pessoal não iria saber. Eu disse que não podia porque não tinha tempo suficiente. Eu gosto de assumir e ficar perto para ver, não é? O movimento pró-criança, na rua marques de olinda perto do quartel do exército e do marco zero em recife, eu peguei o serviço. Quem ia pegar era jorge passo, mas ele pediu um preço muito elevado e o movimento não pode. Ai, doutor carlos veio aqui junto com um arquiteto e me chamou. Eu disse ‘olhe, eu vou tirar uma licença prêmio que dá para fazer o serviço’. Eu tirei a licença prêmio e fiz o serviço dele. Ficou bom, ele gostou. Eu fiz bem baratinho por causa das crianças, não é? Pro movimento pró-criança, questionário de identificação: ofícios e modos de fazer pe pe ol 10 q60 24 jorge passos pediu tipo uns r $ 90 mil. Eu não fiz nada assim. Eu chamei um pessoal, a firma deu toda a segurança e eu fiz o serviço para eles. Eu pedi o salário de dois estucadores e o meu pagamento de acordo com o meu salário. Ficou em torno de r$ 13 mil. Isso por causa das criancinhas, eles cuidam do movimento pró-criança. Foi bom. Ai jorge passos chegou lá e disse: ‘você é muito maluco, rapaz. Eu ia ganhar um dinheirão’. Eu disse a ele que era para as criancinhas”. O seu trabalho inclui o acompanhamento de obras de restauração realizadas por empresas privadas e realizadas no centro histórico de olinda: “[trabalhei] na joaquim nabuco que foi toda restaurada com uma empresa que ganhou licitação de restauro. Esta empresa me solicitou e outro mestre de obra para a gente ensinar a fazer as fachadas porque a prefeitura não autorizava outra pessoa para fazer este serviço sem a gente para eles não derrubarem tudo. A gente passou quase oito meses ensinando.” e completa: “a prefeitura me manda acompanhar algumas obras porque é um centro histórico. Algumas pessoas que estão fazendo não querem respeitar a área histórica, não pega uma massa histórica, usa uma massa de qualquer jeito. Ai quando pinta, dá defeito nas fachadas históricas. Quando tem alguém responsável pelo serviço e que faz bem, eu não vou. Mas, quando não tem, a prefeitura e os engenheiros avisam que eu vou passar de vez em quando para olhar a área. E o que não tiver bom tem de mandar derrubar mesmo”. Em alguns casos, por acordo entre a prefeitura e a empresa privada que ganha a licitação da restauração, mestre caranguejo fica encarregado de algumas atividades. Nestes acordos, as atividades e técnicas que mais executa atualmente são o estuque de fachada, beiral tríplice telha e a pintura, ambas ligadas ao acabamento das obras, como as principais. Sobre sua equipe e seu trabalho na prefeitura, mestre caranguejo esclarece: “atualmente, meu pessoal é cinco pessoas. Tem josé ferreira marques, isac joaquim dos santos, josé vicente borbas, josé joão e eu, caranguejo. Estas cinco pessoas fazemos todo tipo de trabalho, é tudo misturado... Tem um pedreiro que trabalha com a gente. A gente faz tudo que precisa na prefeitura. Quando precisa, a gente faz estuque, pinta e tudo mais. O estuque sozinhos eles não conseguem fazer, mas comigo sim. Eu deixo tudo armado e pronto, até traço de massa, molde e tudo mais. Eles continuam com o trabalho sozinhos, correndo o molde. Quando eu chego, eu só olho como estão as coisas dou mais uma cheia de massa”.
Transmissão de saberes
Sobre sua atividade como educador, mestre caranguejo relata: “eu passei um ano e dois meses ensinando aqui no varadouro, na rua do amparo, nas fachadas e, também, na joaquim nabuco que foi toda restaurada com uma empresa que ganhou licitação de restauro. Esta empresa me solicitou e outro mestre de obra para a gente ensinar a fazer as fachadas porque a prefeitura não autorizava outra pessoa para fazer este serviço sem a gente para eles não derrubarem as coisas. A gente passou quase oito meses ensinando. Não deu tempo da gente ensinar tudo. Na vereta, em um centro de ensino que tem na rua do amparo, eu ensinei também sete meses. Eles até pegaram currículo e um bocado de coisas para que armem as aulas para a gente ensinar. Não sei se eles ganharam alguma licitação, alguma coisa... Passei um ano e pouco em dois períodos ensinando. Já vejo um bocado de pessoas fazendo o serviço. Hoje em dia, tem dois moços que trabalham com jorge passos no imip, na cidade. Eu não sei se os dois ainda estão lá, um é joabes e o outro é joanadaques. Eles são filhos de mestre cosme. Eles são estucadores bons. Eu gosto de trabalhar com eles. Tem um que é mais devagar e mais caprichoso, o joabes. Eu dizia a ele que não adianta mesmo correr tem de fazer bem. Se você fizer bem, o pessoal vai te procurar. Se você fizer ligeirinho, as vezes, o pessoal não gosta. Como jorge passos gosta de correr um pouco, eu não sei se ele ainda está lá”. Destes aprendizes que relatou, há, além dos mencionados nominalmente, um grupo que ele considera que dominou minimamente a técnica. Deste grupo, há um número pequeno de pessoas que chegou a continuar na profissão e, hoje, dominam bem a técnica. Relata que foi chamado por jorge passos, engenheiro dono de uma empresa de restauração em pernambuco, para ajudar a confeccionar um adorno de fachada que foi quebrado em um acidente durante a restauração da faculdade de direito de recife. Ele recusou por falta de tempo, entretanto, ensinou à joabes: “mandei armar o andaime da altura certinha, eu chamei joabes e fiz como mestre caboclinho... [risos] eu perguntei para ele e ele nunca tinha feito este tipo de trabalho. Eu disse a ele que faríamos uma burrinha. Ensinei a ele. Nós colocamos a régua de nível, disse a ele para jogar massa e passar a burrinha. Ensinei a fazer o cintel no tamanho do adorno todinho. Quando ele terminou, ele me ligou e eu disse para deixar. E, no outro, dia nós fomos lá para riscar como era. Quando estava tudo pronto, ele sabia dar o acabamento. Ai, jorge passos perguntou como eu fiz porque eu não deixei ele subir no andaime. Eu disse a ele que não era para subir ninguém mesmo não porque ficava muito peso. Quando eu subia, eu falava com o menino para tirar a escada [risos]. Eu disse para tirar a escada porque chegava gente embaixo e perguntava por onde nós tínhamos subido. Eu dizia para não descer a escada porque senão a turma vem para cá aperrear. Eu dei uma de mestre caboclinho por conta disso”. Entretanto, completa: “mas, quem sabe passa para o outro. Tem de ensinar. Não adianta nada. Tem vez que eu estou ai... E, às vezes, eu tenho tanto serviço que até passo para os outros. Chamo um chamo outro para aprender. Eu já estou ficando velho e daqui alguns dias eu não vou fazer é nada”. Questionário de identificação: ofícios e modos de fazer pe pe ol 10 q60 24 segundo mestre caranguejo, em olinda, são necessárias mais oficinas para o ensino da profissão, “o ensino aqui em olinda é fundamental para a profissão. Mas, não fizeram mais. Pararam de dar oficinas. Tem até uma oficina de pina, [engenheiro da prefeitura de olinda] lá em rio doce. Ele ensina lá um bocado de gente. Eu tive lá duas vezes para dar aula para ele, mas, precisa ter mais. O centro de restauro tem o professor leôncio que é também daqui, tem o entalhador para tentar um pouco mais. Mas, em olinda, está sem serviço. Só se tem trabalho fora”. Sobre sua família, mestre caranguejo relata que possui cinco filhos e uma filha, o mais novo deles tem quatorze anos e nenhum de seus filhos quis seguir sua profissão: “todos eles disseram que não queriam aprender a profissão porque é muito pesado. Eles acharam coisa mais fácil. Tem um que trabalha numa fábrica e é soldador. Ele tem estudo bom e foi para o senai. Passou um ano e dois meses fazendo um curso lá. Agora, ele não quer mais não. Lá, o negócio passa... Ele ensina os negócios de solda. Ele está ganhando até bem. Ele não vai querer ficar neste serviço meu que é pouco. Isso é para o velho. Ele trabalha como pedreiro bem, faz serviço na casa dele. No domingo passado, ele estava com serviço na casa dele para fazer, assentar um barracão. Me chamou e eu disse a ele para ele mesmo assentar. Mas, ele diz que não queria porque achou um negócio melhor que ganha mais. Até que solda é um serviço mais perigoso devido ao risco, mas, ele melhorou um pouquinho porque está até ensinando, tomando conta”.

