Informações
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Nome completo
Marcelo
História de vida
Questionário de identificação: ofícios e modos de fazer pe pe re 10 q60 14 começou a trabalhar como ajudante de seu pai na confecção e restauro de peças de ferro quando tinha aproximadamente 12 anos de idade. Acompanhava o pai nas obras e participava das tarefas executadas na oficina.
Localização
Aprendizado do bem
“tudo começou na oficina de meu pai, mexendo direto com o material. Aprendíamos a manusear o material, a cortar, desenhar, a tirar as proporções e as medidas, a lidar com todas as técnicas. Isso no início. Depois nós fomos utilizando livros pra verificar as técnicas antigas, da iugoslávia, da frança, de portugal... E trabalhando na restauração dos monumentos antigos aqui do recife, de influência holandesa, nós fomos ver a similaridade das técnicas e a melhor maneira de lidar com o restauro. Procurávamos ver qual a constituição e a formação do material para deduzir qual seria a melhor técnica. Então daí a gente já não mais construía, mas restaurava, e no restaurar, vendo a melhor condição possível de se preservar a integridade do bem, sem usar da pessoalidade e modificar a peça e sem substituí-la.” “nós fazemos cursos de aprimoramento, em pequenos grupos. Antigamente os mestres se reuniam pra trocar idéia e dividir opiniões e saberes, trocando experiências. Eles se encontravam nos finais de semanas e, além de degustarem e beberem, como todo profissional dessa área gosta de fazer, eles faziam os próprios petiscos e tomavam água ardente, e trocavam experiências.” “o nosso avô era ferreiro. Se chamava hermínio e ensinou meu pai - que nos ensinou. Na época de meu pai, tínhamos caruso, meu pai que era lídio, tinha joão ferrão, joão espera, egídio costa, eduardo, quer dizer tinha uma média aproximadamente de 30 mestres na área de construção de metais e restauro. E todos eles altamente habilidosos. Que aprenderam com seus ancestrais, alguns eram autodidatas. Muitos não tinham nem mesmo o 1º grau escolar completo, mas acumulavam mais de 30 anos de conhecimento da profissão, que foram aprimorando. Eles foram morrendo e a maioria dos filhos não abraçaram a profissão. Muitos monumentos nesta região de alagoas, fernando de noronha, salvador, paraíba... Foram restaurados por esses mestres. Meu pai mesmo montou os elevadores do primeiro edifício do banco do brasil, e nós, com 12, 13 e 14 anos acompanhávamos ele e ele nos ensinava a como confeccionar as peças e preparar. Daí em diante a gente começou a ver a separação entre as etapas da construção e a de restauração. “e nós então acompanhamos a modernidade e todas as técnicas modernas sem deixar de lado o trabalho de restauro. Marcelo mesmo já fez uma porção de peças rústicas, peças da idade média, dos séc. Xviii, xvii, espécies de lanças, tocheiras, que foram usadas mesmo em algumas minisséries de televisão.” “pelo o que eu me lembro, pois era bem pequeno, meu avô já trabalhava aqui na rua do brum com serralheria, com restauração de peças em metais. Mas a gente não tem registro porque a maioria dessas pessoas era de baixo poder aquisitivo e não deixaram muita coisa. Mas ainda existem as peças que ficaram pra contar a história de pessoas como meu avô. Tem peças aqui nos bairros que podem ser identificadas pelas formas específicas que contém e por assinaturas, marcas deixadas por essas pessoas, como compasso, esquadro, um ponto, dois pontos, abreviação de nomes. Eles trabalhavam na restauração de sinos de igrejas, gradis, peças de esculturas de portas e janelas, lambris, ferrolhos, caixas de reservatórios de amarração e até mesmo canhões.” o pai de hermínio, o sr. Lídio da silva, aprendeu o ofício de ferreiro na oficina do pai. Hermínio ressalta também a necessidade de se considerar os locais de vivência do trabalho para se compreender a formação do trabalhador, questionário de identificação: ofícios e modos de fazer pe pe re 10 q60 14 justamente porque o trabalho do restauro se reveste de um teor artístico. O saber que envolve o ofício do ferreiro ou restaurador de metais está, portanto, inserido no conjunto das relações familiares e sociais mantidas pelos trabalhadores. “toda peça que você fabrica ou restaura tem que ter um pouco do artístico, tem que ter um pouco do profissional e um pouco do íntimo do trabalhador. Então, para que ele dê sua contribuição, o trabalhador tem que ter uma vivência muito grande nessa formação. Se você observar os restauradores de metais, eles são bem antigos e muito velhos, pra se ter uma formação mínima, tem que ser de 8 a 10 anos.” hermínio participou de um curso na itália, cidade de veneza, que foi de grande importância para a sua formação. Este curso teve como objetivo capacitar e formar trabalhadores e mestres para a realização do trabalho de ensino no brasil. “na itália foi uma temporada muito interessante. Primeiro, tínhamos que saber como faríamos para aprender numa sala que compunha uma diversidade muito grande de línguas. Tinha alemães, thecoeslováqueos, italianos, franceses, portugueses, brasileiros... E quatro tradutores numa mesma sala. Isso numa aula corrida, e pra você aprender tudo aquilo tinha que ter uma capacidade muito grande. Nos esforçamos então para trazer toda a bagagem de conhecimento que aprendemos e, na aula prática, nos reunimos para trocar informações. E acabamos fazendo uma troca de informações: ensinamos pra eles o que sabíamos e eles nos ensinaram o que a gente não sabia. Haviam provas teóricas de conhecimento específico, de arquitetura e história e provas práticas, onde fazíamos uma peça e apresentávamos em sala. Havia uma troca de conhecimento sobre a característica dos monumentos de cada lugar. E nós contribuímos com as informações sobre os nossos monumentos. O próprio carvão que atua sobre o aquecimento da peça pode influenciar no tipo de trabalho a ser feito.” segundo hermínio, o saber referente à restauração e qualificação de certos materiais está sendo perdido a partir do momento em que essas pessoas deixam de trabalhar ou morrem sem deixar sucessores. Ele dá o exemplo da descoberta arqueológica no forte de orange, onde foi encontrada uma infinidade de metais cujo tratamento adequado é ignorado pelo saber moderno. Hermínio e seu irmão marcelo foram chamados para trabalhar como consultores no trabalho de restauro que se pretende realizar com essas peças encontradas, que necessitam, em grande parte, de um trabalho de retirada de água que se encontra em seu interior. Hermínio se queixa da falta de profissionais adequados para realizar o restauro das peças ou mesmo dar orçamentos sobre os serviços necessários.
Transmissão de saberes
Conforme relatos de hermínio e marcelo, bastante gente aprendeu com eles o ofício de confecção e demais trabalhos em peças de metal. Esse aprendizado se deu através de trabalhos realizados em conjunto com ajudantes, que aprenderam o trabalho com ferro e outros metais, mas não propriamente o ofício ligado à área de restauro, pois as obras são escassas e os períodos de trabalho incertos. Hermínio se queixa diversas vezes de não haver hoje em dia uma formação específica para trabalhos de restauração. Hermínio ministra um curso no ceci denominado “formação e gestão de restauro em metais”. Seus alunos são compostos, em sua maioria, por pessoas com formação em arquitetura e engenharia. Participou de um curso de capacitação e formação em veneza no ano 2000, sendo uma das missões desse aprendizado trazer os conhecimentos adquiridos e repassá-los no brasil através de programas de ensino.

