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Nome completo
Roberto carneiro
História de vida
A origem das técnicas construtivas tradicionais do pernambuco é, para roberto carneiro, européia, especificamente, portuguesa. Os primeiros conhecimentos das técnicas das quais é mestre foi adquirido por roberto carneiro com seu envolvimento em obras de restauro em bens imóveis tombados, ou seja, históricos aperfeiçoados pelos cursos em lisboa, portugal, e em veneza, itália. Apenas o conhecimento da técnica da taipa de sopapo foi adquirido em observação do cotidiano das comunidades já realizando os trabalhos na fundarpe.
Localização
Aprendizado do bem
Na adolescência, roberto carneiro aprendeu o trabalho de pedreiro reformando a casa de sua família após o falecimento do pai. Era filho de uma família com 14 filhos, sete homens e sete mulheres. Roberto carneiro aprendeu o ofício auxiliando um pedreiro contratado pela família. Como estava desempregado, trabalhou junto deste pedreiro até o fim da reforma da casa: “fui continuando com ele e ele foi me ensinando. Eu era muito curioso, queria aprender. Aprendi como era a composição de uma argamassa, na época eu aprendi com cimento, areia, brita e ferro, materiais considerados novos. Concluímos a obra. E o convívio com este pedreiro foi desfeito. Eu como era adolescente, minha mãe não deixou que eu fosse para um lugar mais distante. Sendo assim, eu passei a fazer trabalhos na própria vila em que morávamos na casa dos vizinhos que precisavam de algum reparo”. Trabalhou alguns anos na construção civil moderna com o assentamento de azulejos e pisos diversos, como cerâmica e em piso de cimento queimado – “o piso de cimento alisado com ferramentas de aço de pedreiro, colher de pedreiro ou um desempeno ou desempoladeira de aço na cor natural ou misturando com pigmento vermelho, amarelo ou verde”. Ao término do ensino médio, começou um curso técnico de edificações na escola técnica – atual instituto federal de pernambuco – e o seu professor josé raimundo oliva, um engenheiro calculista, que era também funcionário do iphan – instituto de patrimônio histórico e artístico nacional: “nesta época, no iphan havia o pró-memória que era quem de fato executava as obras de restauração. No desenvolvimento do curso, josé raimundo me convidou para fazer um teatro para expor os materiais e como se usava as ferramentas na disciplina. Ele dava a disciplina ‘materiais de construção’ ou ‘técnicas construtivas’. Eu já fazia trabalhos como pedreiro. A gente fez, eu e alguns colegas, esse teatro para o corpo de alunos: como se usava um prumo e porque se usava um prumo, o que era um nível e porque se usava um nível, o que era um fio de prumo, o que era um prumo de centro, porque se usava a régua e alguns materiais simples que tem que estar presentes. Assim, a gente fazia umas três camadas de tijolos. A gente explicou também porque não fazer a superposição de tijolos dividindo juntas. Na nossa linguagem, a gente faz amarração que é a seqüência da sobreposição do tijolo. As divisões não podem coincidir, elas têm de ter intervalos fazendo uma amarração”. Em seguida, roberto carneiro começou a trabalhar em restauração: “foi depois disso que esse professor me convidou, no início de 1983. Ele estava à frente de um trabalho na sacristia do convento franciscano de olinda. Ele me convidou para participar desta obra para ver a questão dos azulejos que seriam removidos. Neste tempo, eu não sabia o que significava nem uma parede. Eu conhecia parede singela com tijolo vazado. Eu não conhecia o tijolo manual. Eu conhecia o tijolo trabalhado padrão das olarias de pernambuco. A argamassa, o traço da massa, era areia e cimento que eu conhecia. Não usávamos a cal, só usava para pintar parede e não na composição das argamassas. Para reboco, a gente usava barro e areia de fingir que é o que a gente chama aqui a areia branca, bem clara, e com granulometria muito fina. Já a areia de rio, que a gente chama aqui de areia lavada, com várias granulometrias que, dependendo de onde é retirada - de que parte do rio - tem um teor de barro muito grande. é uma areia considerada de boa qualidade quando bem peneirada para retirar as substâncias orgânicas. O barro de aterro tem até uma consistência boa. Mas, o que predominava era barro saibro que é um barro de coloração amarelo ou branca. Barro para o revestimento. Era isso que eu conhecia”. E detalha: “eu conheci os azulejos, trabalhando com eles, a partir do ano de 1983 na cidade de olinda. Trabalhei com azulejos figurativos do século xviii que fazem parte da sacristia do convento franciscano de olinda. O professor precisava remover os azulejos de toda a sacristia porque ela fica numa topografia muito irregular ocorrendo um carreamento de areia e de barro por causa da chuva. Então, houve dilatação e questionário de identificação: ofícios e modos de fazer pe pe re 10 q60 29 uma fissura na parede e precisava fazer uma estabilização. Para a estabilização, a empresa tecnosolo, uma empresa da bahia que foi contratada para fazer este trabalho de estabilização não só das paredes, mas, também dos morros, ia chapear cimento para atingir todas as fissuras, hoje, não faria assim. A minha função era remover os azulejos e embalar em caixas que a gente produziu lá mesmo. A gente removeu e catalogou tudinho. Eu me lembro bem que quando eu cheguei, no primeiro dia, de ter me espantado com a largura da parede. Ela tinha oitenta centímetros. Pelo conhecimento que eu tinha de pedreiro, eu era um operário simples. Eu só tinha um pouco mais de cuidado porque eu comecei a aprender e a valorizar. Eu comecei a me interessar porque estava gostando do que estava fazendo. Enquanto, eu estava removendo os azulejos, os outros trabalhos iam acontecendo e eu fiquei curioso. Eu trabalhei, então, com o mestre daniel que era conhecido como o mestre do patrimônio. Hoje, a gente tem muitos mestres de cursos. Os mestres que eu trabalhei eram mestres em curso que iam conhecendo a partir dos trabalhos que eles iam desenvolvendo. Eles não tinham conhecimento teórico. Mestre daniel me chamava para ajudar em trabalhos de pedreiro, simultaneamente, tinha trabalhos de marcenaria, carpintaria e também um trabalho de restauração com a técnica do iphan, a rosália, que estava restaurando os adornos do teto da sacristia. Desenvolvendo o trabalho com o mestre daniel, eu desenvolvi a confecção de cimento e colunas, remoção de material... Enfim, este trabalho demorou cerca de um ano e oito meses. Eu estava na pró-memória através de contratos temporários que foram sendo renovados até que eu fiquei com um contrato com tempo indeterminado. Terminamos este trabalho”. Depois deste primeiro contato, roberto carneiro relata: “a partir daí, 1983, eu comecei a fazer parte deste mundo das construções tradicionais ou dos patrimônios históricos nas diversas especialidades. Eu me especializei mais na área do revestimento azulejado. Depois, fui convidado para trabalhar no convento franciscano de joão pessoa no estado da paraíba e não pude ir. Solicitei demissão e voltei a trabalhar como pedreiro pintando parede, assentando piso, colocando cerâmica na técnica que era usada na época que não era a tradicional. Por conhecer bem o assentamento de piso, eu tinha mais ganho por causa da agilidade e da habilidade”. Em janeiro de 1985, roberto carneiro foi convidado para trabalhar na igreja de nossa senhora da conceição em vila velha através de um contrato com a fundarpe – fundação do patrimônio histórico e artístico de pernambuco: “a fundarpe nesta época executava as obras de restauração. E a partir daí eu já fui tendo um maior contato com as técnicas tradicionais. Fui conhecendo a cal como material para a composição das argamassas. A gente estava fazendo molduras de parede com o mestre jovelino que tinha uma formação da fundarpe em um curso [curso de 1976]. Eu fui contratado como pedreiro. Eu passei uns quinze dias nesta obra e, em função das dificuldades de deslocamento, pedi afastamento”. Ainda em janeiro de 1985, roberto carneiro começou um novo trabalho de restauração: “ai surgiu o trabalho da igreja de nossa senhora da boa viagem que fica em igarassú [pernambuco], na zona rural, às margens da br 101 sentido joão pessoa [paraíba] cerca de uns vinte quilômetros do centro de igarassú. A igreja estava em ruínas e não tinha nem telhado. A técnica construtiva era do tijolo manual com argamassa de cal e areia e aqui e ali uma pedra calcária porque era uma região onde tem muita jazida. Voltei a trabalhar com mestre daniel que tinha sido contratado pela fundarpe. Ele bebia [bebidas alcoólicas] exageradamente, mas era de extrema competência. E isso acontecia muito: excelentes profissionais tomados pela bebida. Eu tinha uma relação de muito respeito ao mestre daniel e não gostava que as pessoas falassem sobre isso. Quando ele estava bom, ele me ensinava e me passava como devia ser feito o trabalho. Ia me ensinando sobre o uso dos materiais e ferramentas. Só para vocês terem uma idéia, quando a pessoa sabe utilizar os materiais ele sabe sobre o uso sem mesmo estar vendo: eu me lembro, quando peguei o serrote e comecei a cerrar, de ele me dizer que quem cerra é o serrote e que, pelo som que ele estava escutando, eu não iria cerrar nada porque eu ia cansar depressa. Segundo ele, pelo som, eu estava usando uma pequena parte do serrote e que a ferramenta tinha aqueles dentes todos porque precisava usar ele todo. Eu tinha que deixar o serrote correr inteiro. E assim eu fui aprendendo. Foram duas coisas que ele me ensinou: a primeira, eu dominei o serrote e cortava mais rápido e, a outra, foi aprender a trabalhar com a marreta. Eu estava batendo a marreta em uma parede e estava com a mão apoiada no meio do cabo dela. Enquanto eu estava batendo, ele me disse que eu estava enforcando a marreta. Era a mesma coisa que o serrote, eu ia me cansar e o impacto era mínimo. Ele me disse que era para eu pegar no fim do cabo da marreta porque o próprio peso do ferro dela ia ajudar. Eu, pegando tão perto da peça de metal, estava indo junto com a marreta e fazendo muito esforço. Estas são peculiaridades da minha formação, aprender a usar a ferramenta. O uso correto das ferramentas não te exige muito e você ainda faz bem o trabalho. E isso eu devo muito ao mestre daniel e aos ensinamentos dele. Eu fiz também a parte de cantaria. Naquela ocasião, não tinha cantel. O cantel era o mestre daniel , o eletricista era mestre daniel , o carpinteiro era o mestre daniel... Com ele, eu tive conhecimento na área. No desenvolvimento deste trabalho até setembro de 1985, a gente já estava em fase de conclusão”. Em setembro de 1985, com o fim dos trabalhos na igreja nossa senhora da boa viagem, roberto carneiro foi trabalhar no convento franciscano da ordem terceira de igarassú com a equipe do mestre jovelino. Ainda na qualidade de pedreiro e com o conhecimento acumulado em patrimônio histórico edificado, ele relata: “sobre orientação do mestre jovelino, passei dois meses fazendo argamassa e subindo parede, inclusive removendo argamassas originais. No segundo mês, eu fui chamado para trabalhar com os azulejos porque já tinha feito isso no convento questionário de identificação: ofícios e modos de fazer pe pe re 10 q60 29 franciscano de olinda. O primeiro momento era marcar, remover e acondicionar estes azulejos. Eu ai fui agraciado pela passagem de pedreiro para restaurador. Não é uma profissão reconhecida, mas mesmo assim, naquela ocasião fui conduzido à condição de restaurador. Não me envaideci, mas gostei porque comecei a ganhar cinco vezes mais. Eu estava gostando do que estava fazendo e ainda tinha a questão do ego. Mas, nunca me deixei envaidecer por conta disso. Comecei a desenvolver os trabalhos, já buscando as argamassas melhores, um conhecimento dos materiais mais adequados”. Entretanto, como relata, “eu fiz toda a abobada e comecei a trabalhar nos painéis. Mas, nós paramos a obra por cerca de oito anos e fui trabalhar onde, atualmente, é a sede da fundarpe na rua aurora”. No ano de 1990, a equipe de trabalho foi desfeita pela fundarpe: “eu e outros companheiros fomos demitidos da fundarpe e ela passou a trabalhar com elaboração de projetos e a terceirizar as execuções. Toda a turma muito boa de trabalho foi dissolvida. Eu passei, então, dois anos não institucionalizado e, em função da necessidade de sobrevivência, eu voltei para o trabalho de pedreiro propriamente dito, construindo casas usando as técnicas construtivas modernas: concreto armado, cerâmica industrializada, etc”. Em 1992, roberto carneiro retorna a trabalhar na fundarpe: “pela força de lei porque eu e os outros colocamos o nosso caso na justiça, eu retornei à fundarpe. Na ocasião do retorno da fundarpe, eu passei para o trabalho burocrático, serviços internos, porque ela não mais desenvolvia trabalhos de restauro. Eu faço parte, atualmente, da diretoria de patrimônio histórico, como era chamada, a denominação hoje é diretoria de preservação cultural. Mas, com este retorno à fundarpe, eu comecei a desenvolver trabalhos fora da instituição, como aconteceu com o retorno da restauração do convento franciscano de igarassú, ai já na parte da nave. Quem estava executando a obra era a fundação ricardo espírito santo, uma fundação portuguesa”. Durante o retorno para o convento franciscano de igarassú, roberto carneiro foi convidado por uma representante da fundação ricardo espírito santo a fazer um curso fornecido por esta instituição em lisboa, para trabalhar no contexto da obra de restauro, em 1997. Sobre o curso, relata: “passei três meses em lisboa – setembro, outubro e novembro de 1997 - desenvolvendo atividades ligadas à restauração e confecção de réplicas de azulejo do século xviii como, também, douramento em madeira e talha barroca. Eram três módulos de oficinas: azulejo, madeira e douramento. Retornei para a cidade de igarassú em maio de 1998 e trabalhei durante dois anos em contexto de obra utilizando as técnicas que aprendi em lisboa aliadas às técnicas que a gente já conhecia aqui. (...) desta vez, com mais conhecimento e pesquisa e com uma equipe voltada para restauro. Nesta época, eu dominava não somente a técnica do assentamento, mas também a técnica do fazer o biscoito, a chacota – é a mesma coisa chacota e biscoito, só que o termo chacota é utilizado mais em portugal. Então, comecei a conhecer e aplicar em contextos de obras procurando trabalhar com a questão da reversibilidade e da compatibilidade que são os princípios básicos da restauração. Passei a ter esta consciência e a conhecer a argamassa como fazer e como preparar um biscoito. Aprendi a ter a visão do azulejo não somente a partir de seu valor histórico, mas também como uma obra de arte. Naquela altura, começou a ter uma visão destes azulejos como obra de arte, até então, era considerado assim somente a pintura parental, a escultura em madeira e o douramento. Enfim, houve um despertar do pessoal da área de restauração, os ditos restauradores, porque o mercado iria dar a condição que tem hoje. A visibilidade que tem a questão deste revestimento é grande e o retorno financeiro para quem está ai no mercado – eu realmente estou fora do mercado, da mão na massa como dizem – é grande”. “eu procurei sempre me envolver com responsabilidade. Podia até não saber fazer, mas, eu sempre demonstrei o querer aprender para poder continuar. Por conta dos dois anos trabalhando com os portugueses, uma outra equipe de são luís do maranhão, formada também por baianos e portugueses fez um curso semelhante ao nosso, mas mais direcionado a azulejos e aplicaram em contexto de obra na ordem terceira de são francisco em salvador. Precisavam de uma pessoa que tivesse mais conhecimento na área de argamassa, não só remoção, mas, também de construção destas argamassas e aplicação – recondução dos azulejos aos seus locais de origem. Como nesta equipe havia portugueses que se lembravam de mim, eles me solicitaram através da fundarpe. A fundarpe me cedeu para esta obra em salvador para eu trabalhar com azulejos do século xviii. Eu então, conheci todas as técnicas utilizadas e as dificuldades que se tinha com salinização e, enfim, trabalhei não só na confecção de argamassa, remoção de azulejo, recolocação, mas, também em reintegração cromática. “no começo dos anos 2000, surgiu o curso em que o governo federal, no governo passado, estava juntando profissionais artífices em seis áreas distintas - ferreiro, pedreiro, estucador, cantel, pintor e outra que me esqueço agora - para que tivessem uma formação na itália, na cidade de veneza, no centro de restauro onde funciona também a faculdade de veneza. Naquela ocasião, já estávamos concluindo a restauração dos azulejos em salvador e eu fui convidado pela então professora cristina dias que era coordenadora do projeto monumenta para me inscrever e fazer parte da equipe para ser selecionado. Ela me disse que eu reunia condições para participar deste curso que seria desenvolvido na área de pedreiro para o restauro. Eu fui sem grandes pretensões porque eu não sabia se havia condições da fundarpe, novamente, me disponibilizar. Eu me inscrevi quando voltei para recife porque precisa de um aval de pessoas com quem eu trabalhei: um profissional de arquitetura e um profissional em engenharia civil. Eles tinham que atestar os trabalhos por mim realizados. Eu participei da seleção de pernambuco. Os estados convidados foram, além de pernambuco, o rio de janeiro, minas gerais, paraíba e rio grande do sul. Vieram fazer as entrevistas questionário de identificação: ofícios e modos de fazer pe pe re 10 q60 29 para estas seis áreas distintas, eu fui classificado e fui despretensioso. Eu falei da minha área e eu falei uns vinte minutos , eles me perguntaram como eu desenvolvia a minha atividade como pedreiro e como era isso na área de bens históricos. Só me fizeram uma pergunta e eu falei. Eu achei que tivesse fora porque teve gente que respondeu um questionário , comigo, foi muito rápido em relação aos outros. Mas, na verdade, eu tinha sido selecionado. Chegou uma carta aqui na fundarpe. E, para lá eu fui na condição de mestres artífices pedreiro. Tinha um representante da bahia, um do rio de janeiro, dois de minas gerais e um do pernambuco – esta era nossa equipe. Em contexto teórico, a aula era para todos e com pessoas de outros países – tinha mestres artífices de portugal, da irlanda, da inglaterra, da frança e outros países. Até a gente conheceu e andou trocando, nos primeiros momentos foi difícil, mas depois a gente começou a se comunicar. Essa foi a experiência que a gente teve. Foi uma experiência riquíssima. Eu tive até a oportunidade de conhecer a torre de pisa em que estavam controlando aquela inclinação. Minha formação na itália foi na área de pedreiro e a gente conheceu as técnicas construtivas e as degradações como a salinização que lá é muito forte, aprendi a cutcuts e a forma de refixação dos afrescos. Eles têm também uma técnica do estuque que é o marmorino ou fito mármore em que o gilmar e o amauri, que estiveram na equipe dos estucadores, aprenderam. Como resultado da nossa necessidade, a gente [a equipe de pedreiros] se juntou e decidimos que precisávamos aprender o marmorino. Houve até uma inquietação porque a gente foi para uma área em que a gente não estava escalado, éramos pedreiros. Mas, o professor fubliata, excelente professor, nos ensinou. A gente ficou conhecendo mesmo o marmorino a partir da forma didática que ele repassa. Conheci como era o processo e como era feito isso: basicamente, com a cal. Ele chamava de cacá ou merda todo trabalho feito com cimento, era como ele dizia. O bom é o material tradicional para dar uma superfície fina e o resultado final do mármore com nuance de tinta em pó diluída dando o tom do mármore que você quer, tanto criativo quanto em recuperação. Ai a gente vê que pilastras e esculturas que a gente achava que era pedra de mármore puro, era, na verdade, marmorino: construções de tijolo e cal ou pedra e cal e o revestimento final em marmorino. A gente vê na igreja dos salesianos em recife o que eu imaginava que era mármore, a partir do conhecimento adquirido na itália e pela textura, era marmorino. O conhecimento disso foi resultado do interesse da equipe de pedreiro. Vamos aplicar? Ai depende da habilidade de cada um. No caso, como elemento de mercado, aqui a gente tem muito pouco e até desconhece. Na itália, é muito comum. Claro que no brasil não temos técnicos específicos com esta capacidade tradicional porque também nem houve continuidade, não houve muitos usos. Em pernambuco, tem esta técnica aplicada por artífices italianos. A técnica é tão perfeita que até fica parecendo que é mármore. Na técnica, para ter uma superfície se usa uma espátula de pedreiro de aço com o uso da água do sabão de coco que libera um óleo natural que possibilita este trabalho e o resultado final com o brilho e a impermeabilização. Eu apliquei em contexto de oficina, mas nunca apliquei em contexto de obra. Depois disso, estivemos em ouro preto uns vinte dias com um pessoal em brasília que ficou nos ensinando a didática do repassar o conhecimento”. Diante da pergunta se é também era estucador, roberto responde: “eu não sou estucador, eu trabalho com estuque. Geralmente, um estucador foi pedreiro antes ou trabalha ainda atuando como profissional pedreiro. Ele se especializou em estuque, ou seja, em relevo de paredes em superfície”. Sobre a continuação de sua atividade, roberto carneiro relata: “depois deste treinamento, eu fui convidado pela equipe de portugueses que estavam em intervenção na igreja da glória no rio de janeiro, próxima ao aterro do flamengo, e fui para lá. A fundarpe mais uma vez me liberou e eu passei cerca de um ano e um ano e pouco lá com este grupo desenvolvendo as mesmas atividades desenvolvidas em salvador com restauro e pesquisa. Eu nunca me restringi ao remover, ao fazer e ao aplicar as argamassas. Eu sempre fiz pesquisa do reconhecimento da origem da peça. Quando uma peça era deslocada, eu conseguia visualizar de onde ela era. Eu realizei muita pesquisa em igarassú e salvador e, por isso, conseguia localizar a origem da peça pela marcação original que vinha de portugal. E foi isso que me fez participar em várias intervenções pelo país”. Sobre sua atividade atual, roberto relata: “eu sou servidor de uma instituição pública, a fundarpe, e estou nela há 25 anos, fruto do primeiro momento vivido em olinda. Eu fui primeiro funcionário em regime celetista, mas, atualmente, eu sou servidor em regime estatutário. Hoje eu faço parte da diretoria de preservação cultural, sempre fiz parte desta diretoria. A fundarpe tem sete diretorias, todas voltadas para a área da cultura, mas a gente separou pelos segmentos culturais. Saindo do campo eu passei a fazer parte da equipe técnica dando pareceres das intervenções. A fundarpe não atua mais realizando as intervenções, ela terceirizou, ela somente elabora projeto e acompanha. E realiza um trabalho da fiscalização destes bens”. Atualmente, roberto carneiro atua somente esporadicamente na área de restauro para complementar a sua renda de funcionário público: “o funcionário publico, eu, por exemplo, que tenho muitos anos de casa, às vezes, tem uma renda insignificante em relação aos concursados atuais. Eles têm uma renda bem maior que a nossa, os mais antigos. Por conta disso, vez por outra, eu aplico os meus conhecimentos na construção de parede, assentamento de piso ou para fazer prospecções arqueológicas. Caso necessário e tiver possibilidade e saúde, mesmo com os conhecimentos que eu penso que tenho, vou levantar parede e, se tiver, eu vou fazer e repassar os meus conhecimentos da melhor forma possível porque isso não me tira o mérito. Pegarei a argamassa, farei não, eu faço tendo a oportunidade. Eu faço porque eu gosto”. Questionário de identificação: ofícios e modos de fazer pe pe re 10 q60 29
Transmissão de saberes
Sobre suas atividades de ensino, roberto carneiro nos relata: “a idéia do governo naquela época era construir centros de restauro em recife-olinda, em ouro preto, no rio de janeiro e em porto alegre. A idéia era de ensino e não foi a frente. Mas, no rio de janeiro as pessoas conseguiram dar esta continuação de formação. Aqui em pernambuco, a gente tentou reunir independentemente da ação do governo e construir um centro. Mas, não houve esta afinidade, esta compreensão e não foi feito. Aqui tem o ceci que é uma extensão da universidade federal que absorve esta mão de obra e por questões políticas deixa alguns de fora. Aqui em pernambuco isso é muito forte, a questão das resistências. Pernambuco e salvador, isso é muito grande. Na área como um todo, é muito forte a questão da resistência, da divergência e rivalidade, a política de quem sabe mais e das origens. Se você vem de uma origem humilde, você não reúne capacidade para tal. Isso é um pouco cultural e desagrega. Não forma mais técnicos e não constrói uma linha comum. Há divergências em equipes e, ao invés de formar mais técnicos, os afasta. Tem muita gente que está nesta área, digo na do restauro entre os artífices nem tanto, por status”.

