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Nome completo
Romana
História de vida
Dona romana é caixeira da festa do divino espírito santo. Ser caixeira, para ela, significa o cumprimento de uma obrigação religiosa para com o santo. A cada ano, no mês de maio, ela se desloca da ilha do cajual até a sede do município de alcântara, onde acontece esta celebração centenária. Ao mesmo tempo em que esse deslocamento mostra a sua devoção ao divino espírito santo, também expressa uma forma de integração do território étnico, ou seja, os agentes sociais que constroem a festa são oriundos de diversas comunidades quilombolas, tornando o mês de maio um momento singular, um ponto de encontro entre todos os grupos sociais do território alcantarense. Reúnem-se compondo neste encontro um conjunto de expressões sociais e rituais, símbolos desta manifestação cultural: “aí todo ano, antes da festa começar, eu já tô me alinhavando [preparando] já pra mim ficar tirando [participando] outro ano. Eu num posso dizer que não, que é a função minha que ele deixou. Né? Aí eu vou. Mas não me dou mal. Graças a deus! Todo mundo me trata bem. Sou bem arrecebida”. Dona romana também nos falou sobre o que ela chama de sua função na festa: “a minha função é tocar caixa e ir nas casa dos festeiro todos, todos festeiro. Gente tem obrigação de ir. Chegar lá, se representar, cantar direito, salvar o santo direito. Assim que é a função! Tem que fazer a função certa! ” a sua participação na festa do divino começa no sábado de aleluia. Ela e outras caixeiras visitam todos os festeiros, em cada casa, entregando o que chamam de posto. É a chamada “entregação do posto”, que define a data da festa e anuncia quando vai começar. Após esta etapa da festa, entoam o que chama de cantorias e dançam em vários momentos das cerimônias. Dona romana disse que além de passar o dia inteiro visitando a casa de todos os festeiros, as caixeiras passam, também, o dia todo realizando a denominada tiração de jóia, outra atividade característica da festa e que envolve as caixeiras diretamente.
Localização
Descrição da atuação em rede
Dona romana é caixeira da festa do divino espírito santo. Ser caixeira, para ela, significa o cumprimento de uma obrigação religiosa para com o santo. A cada ano, no mês de maio, ela se desloca da ilha do cajual até a sede do município de alcântara, onde acontece esta celebração centenária. Ao mesmo tempo em que esse deslocamento mostra a sua devoção ao divino espírito santo, também expressa uma forma de integração do território étnico, ou seja, os agentes sociais que constroem a festa são oriundos de diversas comunidades quilombolas, tornando o mês de maio um momento singular, um ponto de encontro entre todos os grupos sociais do território alcantarense. Reúnem-se compondo neste encontro um conjunto de expressões sociais e rituais, símbolos desta manifestação cultural: “aí todo ano, antes da festa começar, eu já tô me alinhavando [preparando] já pra mim ficar tirando [participando] outro ano. Eu num posso dizer que não, que é a função minha que ele deixou. Né? Aí eu vou. Mas não me dou mal. Graças a deus! Todo mundo me trata bem. Sou bem arrecebida”. Dona romana também nos falou sobre o que ela chama de sua função na festa: “a minha função é tocar caixa e ir nas casa dos festeiro todos, todos festeiro. Gente tem obrigação de ir. Chegar lá, se representar, cantar direito, salvar o santo direito. Assim que é a função! Tem que fazer a função certa! ” a sua participação na festa do divino começa no sábado de aleluia. Ela e outras caixeiras visitam todos os festeiros, em cada casa, entregando o que chamam de posto. É a chamada “entregação do posto”, que define a data da festa e anuncia quando vai começar. Após esta etapa da festa, entoam o que chama de cantorias e dançam em vários momentos das cerimônias. Dona romana disse que além de passar o dia inteiro visitando a casa de todos os festeiros, as caixeiras passam, também, o dia todo realizando a denominada tiração de jóia, outra atividade característica da festa e que envolve as caixeiras diretamente.
Aprendizado do bem
Dona romana nos revelou que sua relação com a caixa do divino espírito santo começou com sua tia, dona margarida, que era a caixeira – mor da festa do divino espírito santo até quando adoeceu, por volta de 2004. Ela diz que foi preparada desde muito cedo para assumir o lugar da sua tia, hoje falecida: “caixeira antiga, a primeira caixeira. Ela era escura, ela morava no cajueiro, era minha tia. Aí toda vez que eu ia pra festa em alcântara, aí eu acompanhava com ela, toda vez que eu ia, que eu num perdia uma data de festa, eu ia. Mas eu num sabia cantar, num sabia tocar nada. Aí ela foi me exercitando. Né? Ela foi me botando pra mim cantar. Às vez, pra botar o verso. . . Encabulada que era um coco! (risos). Aí nunca que eu acertava botar o verso. Mas agora, que caboco puxa na frente, eu tomo de conta. Mas pra butá verso, eu sou uma menina encabulada! Eu num vou mentir! Mas assim mesmo, com os “pé quebrado” , nos “pé quebrado”, o negócio vai. E aí minha tia foi me exercitando, margarida, porque quando ela chegasse a falecer, ela já deixava uma no lugar dela. Foi como aconteceu. Ela faleceu, aí eu fiquei. Ela que me escolheu”. Esta relação, entre aprendiz e mestre, mostra o quanto a continuidade dos rituais da festa dependem das relações de parentesco unindo os grupos sociais que compõe o território étnico de alcântara. São as relações de parentesco que garantem a transmissão de todos os saberes e, neste caso,à prática das caixeiras. Graças a estas formas de articulação interna dos grupos, hoje a festa se mantém, através da reprodução dos rituais e saberes próprios, fazendo deste marco cultural quilombola uma das manifestações culturais mais grandiosas e autênticas do brasil.
Transmissão de saberes
Dona romana esclareceu que tenta, com insistência, ensinar suas netas e sobrinhas, jovens mulheres, mas que seus esforços, até hoje, foram em vão. Com isso, ela apontou que há certa resistência das moças em aprender a arte da caixa: “quem? Ninguém quer! Tem uma prima minha ali. Uma sobrinha, já fiz assim [expressão de esforço, insistência] pra ela ir comigo. Nunca que ela quer ir. Sempre dá uma desculpa. Então, eu num posso é amarrar ela no meio e sair arrastando, que ela num quer ir. Né? ” segundo a entrevistada, cabe às caixeiras mais antigas a ação de ensinar – ou exercitar, como ela chama – as mais recentes, nisto que podemos chamar de “ofício” dentro do universo da festa do divino. Dessa forma, a entrevistada ainda se coloca na posição de aprendiz enquanto caixeira. Revelou, também, que apesar de tocar caixa há muitos anos, toca há somente 4 anos na posição que ela denomina como “pegar a responsabilidade”, ou seja, está há 4 anos comprometida com a festa, na posição de caixeira. Isso é importante, porque existe uma hierarquia entre as caixeiras que, de acordo com o seu grau de conhecimento desse “ofício”, assumem o lugar de aprendiz ou mestre. Dona romana queixou-se sobre o fato de não possuir uma caixa: “eles [donos da festa] preparam, ajeitam e quando é o tempo da festa, elas [as caixas] já estão organizadas direitinho pra gente tocar. Fizeram promessa de me dar uma [caixa], mas não me deram”. Apesar de não ter feito referencia à relação entre a posse da caixa e o ensino do toque da caixa, me arrisco em colocar que me parece que se dona romana tivesse posse de uma caixa, isto poderia dar-lhe mais autonomia no uso e expressão deste bem cultural, já que poderia ser utilizado, se ela assim o fizesse, em outras ocasiões fora do período oficial da festa. Poderia também – reitero que isso é só um ponto de vista – aproximar suas netas, sobrinhas e primas da arte de tocar caixa, não apenas no momento da festa. Refleti sobre isso porque, como disse dona romana, ela tem vontade de ter em suas mãos uma caixa, tanto que já lhe prometeram uma.

