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Padrão gráfico criado por computador a partir do código repasso "Beirada". Imagem: Isabela Caragelasco. Imagem representativa do projeto “Tecelagem Manual no Triângulo Mineiro”. Padrão criado digitalmente a partir do repasso “Beirada”, 2026. Imagem: Isabela Caragelasco.Baixar
Informações
Projeto
Equipe
Eduardo Augusto Costa | Isabela D'Auria Caragelasco
Objeto
"Tecelagem Manual no Triângulo Mineiro" foi uma das primeiras e mais longas pesquisas desenvolvidas pelo extinto Centro Nacional de Referência Cultural (CNRC), entre 1976 a 1986. O projeto teve como objetivo estudar e registrar as formas de produção artesanal relacionadas à tecelagem manual do Triângulo Mineiro. Dentre as diferentes técnicas observadas, a pesquisa destacou os repassos, método de tecelagem específico caracterizado pela anotação de "receitas" em um código similar a uma partitura e pela produção de padrões geométricos e em blocos.
A inclusão dessa pesquisa no acervo virtual do INRC vem como projeto-piloto de aproximação da memória do Centro Nacional de Referência Cultural à atual organização do Inventário, visto a importância do CNRC para a articulação das atuais políticas de patrimônio imaterial no Brasil. As informações apresentadas sobre "Tecelagem Manual no Triângulo Mineiro" foram recolhidas e organizadas pela pesquisadora Isabela D'Auria Caragelasco, que, sob orientação do Prof. Dr. Eduardo Augusto Costa, desenvolveu pesquisa de iniciação científica e Trabalho de Conclusão de Curso sob o CNRC e seu projeto de tecelagem mineira. Os dados e documentos foram recolhidos principalmente do acervo atualmente resguardado pelo Arquivo Central do Iphan - Seção Brasília.
Justificativa
Como uma das primeiras pesquisas desenvolvidas pelo antigo Centro Nacional de Referência Cultural (1975 - 1979), a "Tecelagem no Triângulo Mineiro" tinha como objetivo não apenas registrar determinada expressão cultural, mas também explorar caminhos de estimulá-la de maneira sustentável, fornecendo apoio econômico e social para as artesãs e populares que se relacionavam com a prática. Assim, a pesquisa desejava fortalecer uma prática artesanal local que, na época, já enfrentava desafios como a mudança de costumes e do comércio locais.
“O estudo da tecelagem praticada no Triângulo Mineiro veio, portanto, de encontro ao objetivo básico do antigo Centro Nacional de Referência Cultural: realizar o referenciamento da dinâmica cultural brasileira de modo a favorecer a adoção de modelos de desenvolvimento socioeconômicos adequados à nossa realidade - objetivo assumido pela Fundação Nacional Pró-Memória”. (Maureau; Fonseca; Altafin [orgs.], 1984, p.5).
Objetivos
Ao longo do desenvolvimento da pesquisa, que se estendeu por cerca de 10 anos entre o CNRC e a Fundação Nacional pró-Memória (FNpM), seus objetivos específicos foram se modificando, sendo a mais notável transição aquela ocorrida entre uma análise tecnológica - determinante nos primeiros anos de pesquisa - e uma pesquisa sociológica sobre os motivos para tecer - mais presente ao longo da incorporação do Centro à FNpM.
Contudo, podemos resumir os objetivos de pesquisa em:
- Compreender a fundo as tecnologias empregadas na produção tecelã mineira, desde as técnicas de tear até produção e coloração dos fios;
- Registrar os materiais e ferramentas utilizados, compreendendo onde eram adquiridos ou fabricados dentro do contexto de pesquisa;
- Indicar as origens históricas da tecelagem no Triângulo Mineiro, com ênfase para a resistência da prática frente à proibição de produção têxtil estabelecida por Portugal no período colonial e as origens centenárias e obscuras dos padrões encontrados na técnica de repassos;
- Realizar uma análise sociológica dos motivos de produção tecelã, classificados pelo Centro como “Produzir para si” (consumo próprio), “Para os outros” (em rede de trocas e favores) e “Para o comércio”;
- Oferecer material devolutivo para as tecelãs do Triângulo Mineiro;
Finalidade
Analisar questões que afetam comunidades | Articular atores e formar redes visando a criação de parcerias com interesses congruentes | Diagnosticar vulnerabilidades de detentores e obstáculos à transmissão de saberes | Identificar atores e instituições com atuação relacionada à comunidades, territórios e bens culturais | Identificar detentores de bens culturais | Produzir documentação audiovisual sobre comunidades, territórios ou bens culturais | Propor ações visando a valorização de comunidades ou em prol de alguma questão afeta específica | Realizar diagnósticos sobre bens culturais, sua vitalidade e ameaças aos processos de transmissão
Cronograma
Data inicial do projeto
8 de julho de 1976
Data final do projeto
1 de julho de 1986
Atividades
Como apontado anteriormente, o foco de atividades da pesquisa modificou-se ao longo da vida da pesquisa. É possível apontar, de maneira geral:
1976 - 1979 | PESQUISA TECNOLÓGICA
As técnicas, sabedorias e ferramentas utilizadas na tecelagem mineira são o objetivo principal da pesquisa, defendida como de caráter tecnológico.
A partir de pesquisas de campo e associações com instituições parceiras, como a Universidade Federal de Uberlândia e Universidade de Brasília, são investigadas as técnicas e matérias primas para fiação, coloração e tecelagem.
Fotografia e filmagem são os dois métodos principais de registro, realizados tanto in loco quanto em ambiente preparado.
1976 - 1979 | COMPUTADORIZAÇÃO DOS REPASSOS
Paralelamente à pesquisa tecnológica, o CNRC também financiou a criação de dois programas de computador dedicados à pesquisa: um responsável pela leitura dos códigos repassos e outro pela identificação de repassos distintos, visto a ocorrência comum de códigos distintos com mesmo nome ou um mesmo código com diferentes denominações.
O maior responsável por essa parte da pesquisa foi Werner Streitwieser, professor de ciência da computação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Com o uso de tais programas, foi possível também identificar erros em códigos e melhorá-los, além de imprimir amostras diretamente pelas máquinas, assim não sobrecarregando as artesãs com a tarefa demorada de reproduzir os mais de 300 repassos para análise do CNRC.
1980 - (aprox.)1983 | MOTIVAÇÕES DO TECER
Com o fim do CNRC e a transferência do projeto para a Fundação Nacional Pró-Memória em 1979, os objetivos de pesquisa foram renovados, adotando um caráter mais próximo à análise sociológica.
Como principais atividades, destacam-se as visitas de campo, agora realizadas em parceria com a antropóloga Ana Gita de Oliveira, que buscavam compreender as motivações para tecer no Triângulo Mineiro, classificadas pelos pesquisadores entre “Tecer para si”, “Para os outros” e “Para vender”.
1980 - 1986 | COMUNICAÇÃO DO PROJETO
Utilizando dos recursos da FNpM, “Tecelagem no Triângulo Mineiro” é finalizado pela proposição de diferentes formas de comunicação do projeto. Os diversos dados e registros coletados até o momento são organizados nos seguintes materiais de divulgação:
1981: Exposição itinerante sobre a tecelagem mineira (embora não tenham sido identificados registros de que ela tenha sido executada)
1984: Livro “Tecelagem Manual no Triângulo Mineiro: uma abordagem tecnológica”.
1984: Catálogo dos repassos coletados e impressos por computador, distribuído às detentoras
1984: Videodocumentário “Tecelagem Manual no Triângulo Mineiro”
1986: Artigo “Tecelagem Manual no Triângulo Mineiro: uma política sistemática de inventário tecnológico” na revista do IPHAN.
Procedimentos do processo de identificação
Ao longo de todo o projeto, os procedimentos de coleta de informações foram definidos em:
- Pesquisa de campo
- Consulta a um grupo definido de detentoras
- Registro iconográfico (fotografia, vídeo, ilustração) e textual
- Consulta bibliográfica
- Experimentação laboratorial (Exs: Testes em botânica sobre corantes naturais pelo Departamento de Biologia Vegetal da UnB; Construção de códigos de leitura e interpretação de repassos pelo Departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal da UFMG)
Consultas de interesse
O primeiro contato com as detentoras foi realizado a partir da pesquisa artística de Edmar de Almeida (1944 - 2025), natural de Araxá, MG. Edmar apresentou o projeto de pesquisa ao CNRC, estabelecendo a primeira ponte entre as artesãs e equipe do Centro.
Ainda no primeiro ano da pesquisa, o artista precisou se afastar do projeto, muito provavelmente devido à relocação consequente à perseguição política enfrentada no Brasil. Dentro do grupo de pesquisa, a comunicação com as tecedeiras se manteve até a finalização do projeto, adotando-se ferramentas como formulários, entrevistas semi-estruturadas e gravação audiovisual de relatos e demonstrações para registro dos saberes, motivações e sentimentos das detentoras frente a sua produção e mudanças experienciadas no período.
Embora não seja possível afirmar Edmar como participante do mesmo grupo sociocultural das mulheres classicamente identificadas como detentoras da prática, é inegável sua inserção no contexto regional e na prática, possuindo sensibilidade para a riqueza da expressão que se apresentava no Triângulo Mineiro e a necessidade de preservação sustentável da mesma. Ao longo do trabalho desenvolvido pelo CNRC, destaca-se também a importância conferida ao frágil ecossistema socioeconômico em que se equilibrava a prática, buscando conduzir uma pesquisa que simultaneamente mergulhasse na possibilidade tecnológica da tecelagem mineira e auxiliasse as artesãs responsáveis. Dessa forma, embora seja um projeto anterior às técnicas de pesquisa colaborativas contemporâneas - e passível, portanto, de possíveis alterações nesse sentido - "Tecelagem no Triângulo Mineiro" apresentou um desenvolvimento bastante preocupado com o estado da comunidade consultada, resultando, inclusive, em um primeiro objeto de divulgação voltado majoritariamente para o seu proveito.
Anuência
Na documentação conservada do projeto, não foram ainda identificados documentos de anuência das comunidades pesquisadas, sendo muito provável que tal contato ou consentimento foi obtido por acordos informais firmados entre os pesquisadores e as artesãs e outros agentes consultados. Além de Edmar de Almeida, Teresa de Almeida, sua irmã, aparece como articuladora local entre os interesses dos pesquisadores e das detentoras, atuando como coordenadora do projeto ao lado de Xavier Maureau nos primeiros anos de pesquisa.
Participação nas atividades
Os detentores atuaram principalmente como fonte oral principal para desenvolvimento do projeto, sendo consultados acerca do modo de produção tecelã, convívio com a prática e componentes socioculturais da vida na região consultada, de maneira a estabelecer um depoimento geral sobre a tecelagem mineira.
Sobre a remuneração, embora seja possível depreender encomendas para a produção de determinados produtos pelas tecedeiras consultadas, não foi ainda identificado um contrato que formalizasse a participação de tais pelos depoimentos e entrevistas. Quanto à equipe de pesquisa, sabe-se que essa recebeu tanto agentes internos quanto externos do CNRC, proporcionalmente remunerados de acordo com sua participação em cada etapa do projeto.
Mecanismos de consulta
A comunidade foi consultada principalmente a partir de conversas e consultas individuais com os agentes do Centro envolvidos na pesquisa. Ferramentas como entrevistas semi-estruturadas, formulários e gravações audiovisuais foram utilizados.
Visto a situação de vida isolada de muitas das detentoras, observa-se ao longo da documentação a prática de visitas a domicílio, caracterizando um esforço de pesquisa descentralizado. Na primeira proposta de projeto enviada ao CNRC, é ainda descrito uma preferência por uma amostra de consulta qualitativa e não quantitativa: “Afim de poder ampliar cada vez mais nosso conhecimento já adquirido no momento de um novo contato com uma nova tecedeira, e não só afim de comprová-lo, parece indispensável prever que vários encontros vão ser necessários com uma mesma tecedeira. O que quer dizer, procura-se saber o máximo de informações de uma mesma pessoa, mais do que encontrar o máximo de pessoas” (Almeida, et al., 1976, p.2).
Formas de deliberação
Embora algumas detentoras sejam citadas diretamente nos produtos de comunicação produzidos em último momento pelo projeto - já dentro da alçada da Fundação Nacional Pró-Memória -, não existe certeza em apontá-las como representantes do grupo cultural consultado, marcado, como afirmam os pesquisadores, pelo isolamento geográfico e, à época da consulta, competição comercial.
Por tais motivos, não foi identificado um modo de deliberação adotado pelo CNRC para tomar decisões em conjunto com a comunidade. Novamente, embora a pesquisa "Tecelagem no Triângulo Mineiro" não apresente todas as características esperadas de um projeto colaborativo contemporâneo, deve-se levar em conta justamente o pioneirismo na pesquisa, registro, comunicação e devolutiva que buscavam beneficiar uma atividade de referência cultural local e não ligada à lógica de patrimônio monumental até então canonizada.
Devolutivas e validação de resultados
Embora apresentado ampla lista de materiais de comunicação de pesquisa, o projeto “Tecelagem no Triângulo Mineiro” teve como principal devolutiva a produção de um catálogo de repassos, uma publicação impressa contendo os códigos para produção e imagem por impressão computacional do padrão-produto dos mais de 300 repassos recolhidos pelo CNRC.
Distribuído entre as tecedeiras do Triângulo Mineiro, o material possibilitava a expansão do catálogo de produção de cada detentora, que, de acordo com a própria pesquisa, possuía normalmente cerca de 20 a 50 receitas distintas (Maureau; Fonseca; Altafin [orgs.], 1984, p.76).
Dessa maneira, a partir da pesquisa tecnológica, investigação em campo, emprego da computação e organização da informação, foi possível chegar a um resultado concreto de benefício à comunidade consultada, fortalecendo o projeto de tecelagem em específico como exemplo forte do pioneirismo sustentado pelo CNRC nas políticas de pesquisa cultural e patrimonial brasileiras.
Financiamento e formas de fomento
Direitos de autoria
O presente inventário foi desenvolvido por Isabela D’Auria Caragelasco com orientação do Prof. Dr. Eduardo Augusto Costa em ocasião de Trabalho de Conclusão de Curso para obtenção de bacharelado em Design pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da USP.
Direitos de imagem
As imagens utilizadas pertencem ao acervo do Arquivo Central do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Seu uso é livre para uso não comercial, desde que seja feita a devida atribuição de crédito ao IPHAN e à fonte original do documento, quando indicada.


