Informações
Projeto relacionado
Equipe
Ana Clara Cunha Oliveira Dias | Edilberto Jose de Macedo Fonseca | Eduarda Manhães Santos | Elisabete Vicari | Gabriela Calafate | Ilana Musacchio | Joana Ramalho Ortigao Correa | José Augusto Camargo de Almeida | Julia Andrade | Julia Barros Silvera dos Santos | Lorena Fontes Ferreira | Maria Elisabeth Andrade Costa | Milena Barbosa | Raiane Alabaces | Alice Saint Martin da Cunha | Claudiane Dias de Carvalho
Nome completo
Katia Teixeira
História de vida
A trajetória de Kátia Teixeira no forró é marcada por um encontro fortuito que transformou uma atriz e dançarina em uma voz respeitada no gênero. Nascida fora do país e registrada no Rio de Janeiro, na região da Lapa, Kátia teve seu primeiro contato profundo com o ritmo em 1989, no bairro de Higienópolis, ao conhecer "Severo do Acordeon", músico que acompanhou ícones como Jackson do Pandeiro e Elba Ramalho. Desse encontro surgiu uma parceria de 22 anos, na qual Severo atuou como seu mentor, insistindo para que ela gravasse e se tornasse cantora, apesar da resistência inicial de Kátia, que não se considerava "forrozeira" por não ser nordestina. Severo a treinou rigorosamente, utilizando a sanfona para identificar os limites de sua garganta e reconhecendo nela um potencial vocal comparável ao de grandes artistas do gênero. Ao longo de sua caminhada, Kátia conviveu com figuras lendárias como Dominguinhos e Elba Ramalho, e participou de gravações importantes, incluindo as músicas "Sabiá" e "Do Jeito Que A Gente Gosta". Além de sua atuação como intérprete e instrumentista — estudando violão e violino aplicados ao forró —, ela se consolidou como poetisa e cordelista, integrando a Academia de Letras, Artes e Ciências do Brasil. Residente em Rio das Ostras há cerca de duas décadas, Kátia tornou-se uma articuladora cultural na região, lutando pela valorização do forró e pela criação de políticas públicas que incluam o ritmo no calendário oficial do município. Kátia também dedica-se a projetos educativos, como o "Cordel na Escola", onde utiliza a literatura de cordel e a xilogravura como ferramentas de transformação social e estímulo à escrita para crianças. Sua atuação artística é indissociável de sua militância pessoal; como "mãe atípica", ela defende veementemente a inclusão e a acessibilidade para autistas em eventos culturais, propondo que a cultura seja feita do povo para o povo e com respeito à diversidade. Para ela, o forró e a literatura são instrumentos de salvação e expressão que devem estar acessíveis a todas as comunidades.
Identificação de gênero
Mulher cisgênero
Localização
Atuação coletiva
Sim
Descrição da atuação em rede
Sua atuação foi construída em uma parceria de 22 anos com Severo do Acordeon, que por sua vez estava ligado a Dominguinhos e Jackson do Pandeiro. Essa rede de "mestres" a ajudou a receber não apenas ensino musical, mas acesso a um repertório e estilo de vida ligado ao forró. Pelo Fórum de Forró do Rio de Janeiro via WhatsApp, ela troca informações e se organiza politicamente. Tem ligação com as Academias de Cordel de Santa Teresa e São Gonçalo, bem como sua participação na Alcibrás (Academia de Letras, Artes e Ciências do Brasil). Kátia articula música com outras artes e participa do projeto "Forró na Praça" em Cabo Frio, que funciona como uma "lona cultural" itinerante, unindo músicos, contadores de histórias, artistas plásticos e cordelistas. Ela própria ministra oficinas de xilogravura e cordel, integrando a literatura à cena musical. Kátia relata o uso de instrumentos com história coletiva, como a sanfona que Severo ganhou de Dominguinhos para ensaiar com ela. Além disso, músicos locais utilizam espaços como a "Toca" em Barra de São João para dar aulas e formar novos talentos regionalmente. Kátia possui músicas compostas em parceria com Severo e utiliza arranjos que ele criou para grandes nomes como Alceu Valença e Elba Ramalho, mantendo viva a "assinatura" musical da rede. A atuação de Kátia Teixeira mostra que a rede não é apenas um meio de trabalho, mas um meio de sobrevivência cultural que conecta o Rio de Janeiro às raízes nordestinas, garantindo que o forró seja produzido e remunerado de forma a preservar sua dignidade como patrimônio.
Transmissão de saberes
De acordo com Kátia Teixeira, o processo de transmissão de conhecimentos sobre as práticas culturais do forró e do cordel ocorre por meio de uma combinação de vivência cotidiana, parceria de longo prazo entre mestre e aprendiz e, mais recentemente, através de oficinas e projetos educacionais estruturados. A própria formação de Kátia exemplifica a transmissão orgânica e contínua. Ela não frequentou um curso formal de forró, mas passou por um processo de 22 anos de convivência e parceria com Severo do Acordeon. Severo nunca anunciou que a treinaria para ser uma cantora; ele simplesmente oferecia músicas e pedia que ela as cantasse, testando seus limites vocais. O aprendizado se dava no "prestar atenção" ao que o mestre fazia no instrumento. Severo ensinava "macetes" técnicos, como focar na sanfona quando o percussionista falhasse, uma técnica que ela utiliza até hoje para se guiar no palco. Embora informal, havia cobrança. Severo passava "deverzinhos de casa" e a empurrava para o ambiente profissional do estúdio, onde o aprendizado era acelerado pela necessidade prática. Diferente de sua própria trajetória inicial, Kátia hoje atua de forma mais estruturada para formar novos detentores, especialmente crianças, por meio de Oficinas de Xilogravura e Cordel. Ministra oficinas no projeto "Forró na Praça Kids", em Cabo Frio. Para facilitar o aprendizado infantil, ela utiliza a "isogravura" (uso de isopor ou EVA em vez de madeira), o que permite que a criança desenvolva a técnica artística sem o risco de se machucar com ferramentas de corte. Com o Projeto "Cordel na Escola", leva o cordel às escolas municipais, com o objetivo é ensinar as crianças a escreverem em quadras e a montarem seus próprios livretos, estimulando a leitura, a escrita e o desenvolvimento psicomotor e emocional. Cita a existência de espaços coletivos como "A Toca", que Severo também frequentava para tocar e ensinar os jovens músicos da área.
Kátia estabelece uma distinção entre "Infiltrados" e "Detentores". Ela critica quem se "fantasia" de forrozeiro apenas no período junino sem estudar a história ou a técnica. Para ela, o verdadeiro detentor é aquele que mantém o estudo constante. Embora tenha aprendido na prática, Kátia hoje estuda partitura e teoria musical, ressaltando que o domínio técnico (saber as notas, os tempos e as claves) é o que diferencia um artista de palco de alguém que apenas "berra". O aprendizado avançado envolve segredos passados de geração em geração, como os que Dominguinhos passou para Severo, e Severo multiplicou para seus aprendizes. A formação de novos detentores por Kátia Teixeira transita entre a "herança oral e afetiva" (o mestre que "escolhe" o sucessor da obra) e a "pedagogia cultural" (projetos escolares e oficinas práticas), sempre pautada pelo respeito aos mestres tradicionais e pela necessidade de estudo contínuo.
Incentivo financeiro à prática de bem cultural
O período de junho e julho é o momento de maior circulação econômica, onde a rede se mobiliza para atender à alta demanda de festas juninas, garantindo a renda principal de muitos músicos. Artistas estabelecidos na rede abrem portas para outros. Kátia menciona ter aberto shows para nomes do undo do forró por indicação de Severo e levado o mestre para tocar com músicos jovens da região, gerando oportunidades de trabalho. Há uma tensão econômica na rede devido à falta de padronização de valores. Kátia critica a existência de "infiltrados" que cobram cachês muito baixos, o que prejudica os profissionais que se dedicam exclusivamente ao gênero. Ela defende que a rede deve se organizar coletivamente para estabelecer patamares justos de remuneração, evitando que a "ganância" ou a falta de critério técnico desvalorize o trabalho artístico.



