![]()
Coco (Área Metropolitana)
Características do bem
Projeto relacionado
Outros nomes do bem cultural
Coco, Brincadeira do Coco
Categoria de bem cultural
Descrição
Bairro dos Novais
O coco e o grupo Ciranda do Sol
Atualmente, o coco não é o gênero preferido pelos cantadores e dançadores do Bairro dos Novais. Mané Baixinho, mestre do grupo Ciranda do Sol, mencionou o nome do responsável e o local onde essa brincadeira ocorria regularmente na região de João Pessoa. A informação foi confirmada por Dona Maria, que chegou a exclamar “Era bom!” durante entrevista gravada em vídeo, enquanto ele citava o responsável pelo coco e o lugar onde a manifestação acontecia (ver DVD Inventário – Pesquisa de Campo, parte 1).
No grupo Ciranda do Sol, o coco é cantado e dançado eventualmente, pois seus integrantes preferem a ciranda. Mané Baixinho é reconhecido no bairro como herdeiro da tradição de João Grande, já falecido.
O grupo é composto por aproximadamente 30 pessoas, em sua maioria mulheres com mais de 60 anos. Entretanto, também participam homens, que tocam e dançam, além de crianças e adolescentes.
O Ciranda do Sol está ligado ao Bairro dos Novais, localizado na periferia de João Pessoa e próximo à residência de seus integrantes. Seus ensaios acontecem no Centro Popular de Cultura (CPC), organização não governamental que reúne vários mestres da cultura tradicional. A relação do grupo com esse espaço também se deve ao mestre João Grande, conforme será descrito no item 8 desta ficha.
O CPC constitui um ponto de referência para o contato com mestres de diversas manifestações culturais do bairro, entre elas o cavalo-marinho, a capoeira, o babau, a ciranda e outras expressões.
Os ensaios
Os ensaios acontecem todos os sábados, aproximadamente entre 15h30 e 17h, na sede do CPC, instalada em um galpão onde são guardados os adereços dos grupos populares. Na época da realização do inventário, as atividades precisavam ser encerradas nesse horário porque o fornecimento de energia elétrica do CPC havia sido interrompido por falta de pagamento.
Geralmente, os ensaios começam com informes transmitidos por Mané Baixinho ou por Tina, uma jovem de aproximadamente 30 anos que exerce uma função de liderança na organização do grupo. Ela arrecada dinheiro dos integrantes para providenciar crachás e camisas, organiza a participação do grupo nas apresentações e, normalmente, é responsável por abrir e fechar a sede do CPC nos dias de ensaio.
Depois dos informes, os integrantes começam a dançar. Quando considera necessário, o mestre interrompe a atividade para orientar alguém sobre a maneira correta de cantar. Raramente são dadas orientações sobre a forma de dançar.
A ciranda é dançada de mãos dadas, de maneira compassada e sincronizada. Observando-se a cena como um todo, percebe-se que os participantes, enquanto giram, deslocam-se lateralmente e também, de maneira leve, para dentro e para fora da roda. Nesse movimento, flexionam um pouco os joelhos na ida e na volta, produzindo um conjunto articulado e harmônico.
São utilizados três instrumentos: uma zabumba, um ganzá e uma caixa. Eles são tocados, respectivamente, por Tina, Seu Cícero — ou Dona Maria Cirandeira, quando ele não comparece — e mestre João do Boi, responsável pelo grupo infantil de cavalo-marinho do bairro.
Quando algum integrante faz aniversário durante a semana, o grupo costuma encerrar o ensaio com uma comemoração, acompanhada de bolo e refrigerante.
Há também um figurino próprio para os ensaios: camisa azul com a logomarca do grupo, saia rodada e florida para as mulheres e calça comum para os homens.
As apresentações
Nas apresentações, a primeira mudança observada é o figurino. Nessas ocasiões, os integrantes usam camisas verdes ou vinho, reservadas especialmente para esses eventos. As mulheres vestem saias floridas e rodadas, enquanto os homens usam calças comuns, aparentemente com preferência por cores escuras.
A maioria das apresentações é contratada pela Fundação Cultural de João Pessoa (FUNJOPE), órgão da prefeitura responsável pelo setor cultural. Na época da entrevista, o cachê pago pela instituição variava entre R$ 700,00 (setecentos reais) e R$ 1.000,00 (mil reais).
Além disso, o grupo precisa pagar antecipadamente a taxa do Imposto Sobre Serviços (ISS) e destinar 10% do valor recebido ao CPC, como contribuição para o custeio das despesas fixas da instituição. Consequentemente, não resta uma quantia significativa para os brincantes. Mesmo assim, o valor remanescente dos cachês é dividido entre todos os integrantes.
Por fim, é importante registrar que, embora o grupo tenha assumido certo grau de profissionalização ou institucionalização — utilizando, inclusive, termos como “ensaio” e “apresentação” —, as pessoas que vão dançar aos sábados no CPC não participam da atividade com uma perspectiva predominantemente profissional. Elas são motivadas pelo divertimento, pela integração e pela socialização, sobretudo durante os ensaios.
Nesse aspecto, observamos algo semelhante ao que também confere significado às festas comunitárias: o fortalecimento dos laços sociais.
Mandacaru
Para mestre Carbureto, o coco acontece como uma sequência das atividades da tribo de índios, uma dança dramática tradicional do carnaval de João Pessoa. Nesse contexto, a brincadeira do coco constitui um momento de descontração após os ensaios da tribo.
Segundo seu relato, os ensaios terminavam por volta da meia-noite. Depois disso, as pessoas pediam que fosse tocada uma ciranda ou um coco, prolongando a brincadeira até as quatro ou cinco horas da manhã do dia seguinte. Era nesse momento que se cantava e se dançava o coco.
Carbureto forneceu detalhes importantes sobre três modalidades: coco de roda, coco de umbigada e coco de palma.
No coco de palma, as pessoas dançavam ao redor dos músicos, formando uma roda, respondendo aos versos, cantando os cocos e batendo palmas. No coco de roda, dançavam soltas, virando-se de um lado para o outro, sem fazer menção à umbigada ou realizando esse movimento de maneira muito discreta. No coco de umbigada, por sua vez, a umbigada constituía um elemento marcante da coreografia.
Questionado sobre as diferenças entre o coco e a ciranda, Carbureto destacou a instrumentação, especialmente o emprego de instrumentos de percussão e de sopro, de maneira semelhante ao que se observa em algumas apresentações de grupos pernambucanos, como o de Lia de Itamaracá.
Essa referência está diretamente ligada à experiência adquirida por Carbureto durante os anos em que morou em Pernambuco. Lá, ele conheceu formas de ciranda acompanhadas por terno de metais, formação pouco usual na Paraíba.
Rangel
Segundo Vó Mera, antigamente o coco era realizado durante as festas juninas, especialmente nas celebrações de São João, São Pedro e Sant’Ana. Muitas vezes, ela aguardava essas datas com ansiedade para poder cantar e dançar o coco.
Outra informação importante diz respeito ao caráter comunitário da brincadeira. De acordo com Vó Mera, em Tananduba, local onde aprendeu a cantar e dançar coco, a manifestação também acontecia durante a queima de peças de barro ou de madeira destinada à produção de carvão.
Nessas ocasiões, os fornos e as caieiras permaneciam acesos durante toda a noite. Por isso, era necessário que algumas pessoas permanecessem no local, cuidando para que o fogo não se apagasse. Desse modo, além de servir como forma de passar o tempo, o coco ajudava a manter as pessoas despertas e atentas, evitando que as peças fossem danificadas ou que a carvoeira se apagasse.
Engenho Velho
Nesse bairro rural de João Pessoa existe um grupo formado por quatro pessoas:
- Seu João de Penha, mestre e zabumbeiro;
- Dona Cícera, que responde às músicas e toca o ganzá;
- Dona Geralda, que responde às músicas;
- Hassein, que toca a caixa e dirige os ensaios.
Além deles, há Raminho, um menino de aproximadamente 10 anos que acompanha o grupo e está aprendendo a tocar caixa.
O grupo de apresentação foi formado há menos de dez anos. Com o incentivo da organização não governamental Escola Viva Olho do Tempo (EVOT), que atua na região do Vale do Gramame, seus integrantes voltaram a cantar e tocar. Em algumas ocasiões, jovens de uma quadrilha da comunidade também participam das apresentações, dançando ciranda enquanto o grupo toca.
Tanto a ciranda quanto o coco existem nessa localidade há muito tempo, conforme os relatos registrados durante a pesquisa de campo. Essas manifestações permanecem na memória coletiva por meio das lembranças dos moradores mais velhos, que recordam gerações anteriores dançando, como o pai de Seu João.
Apesar da presença das duas brincadeiras na memória da comunidade, atualmente a ciranda predomina nas apresentações. Em geral, são cantados apenas quatro ou cinco cocos. Os relatos sobre o passado indicam que antigamente “era mais coco”. Entretanto, ao recordarem uma viagem recente à praia, os integrantes contam que encontraram pessoas que conheciam cocos antigos e que dançaram animadamente no local (ver DVD Inventário – Pesquisa de Campo, parte 1).
A comunidade está situada na zona rural de João Pessoa. Muitos moradores trabalham diretamente com a terra, embora o sustento principal das famílias geralmente provenha de empregos assalariados ou de atividades autônomas.
