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História de vida
De acordo com o relato de seu amauri, parte das atividades que executa teve sua origem em casa, aprendendo com o pai, mas com o tempo foi se aperfeiçoando através da própria experiência de observar e tentar fazer, assim como dos cursos que durante sua trajetória profissional pôde participar.
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Aprendizado do bem
Sobre o aprendizado, o entrevistado conta, “minha profissão veio através do meu pai, manuel luis de queiroz, mestre de obras, pedreiro e, empreiteiro de obra”. Segundo amauri, ele tentou fugir da profissão do pai, pois enquanto jovem pensava em exercer outras profissões como aviador ou carreteiro, mas acabou seguindo os passos profissionais do pai. De acordo com o relato, não se lembra bem da época que começou a aprender com o pai, mas afirmou que o aprendizado ocorreu em casa, “eu nasci na profissão”. Da taipa, relatou que aprendeu com o pai desde pequeno, no bairro de água fria, começaram a construir casas e logo depois iniciaram juntos os trabalhos de alvenaria. Nesta mesma época, embora soubesse a técnica da taipa, ainda não tinha conhecimento da técnica como um ofício, “o meu ofício veio a partir daí, quer dizer, a partir dessa vocação que eu tinha pela alvenaria, porém só vim entrar no ofício depois de umas duas décadas, e eu vim entrar no restauro em 1988. (...) eu sabia a técnica, mas a teoria eu vim aprender há pouco tempo”. Sobre o aprendizado da taipa de pilão, o mestre conta que nunca restaurou taipa de pilão, mas que aprendeu olhando e fazendo e posteriormente fez um curso, “eu aprendi com tinoco [o arquiteto jorge eduardo lucena tinoco], antes de eu ir para a itália, e antes de começar o curso no ceci, ele me preparou para eu dar aula também, eu fui dar aula em penedo, alagoas”. O primeiro trabalho de mestre amauri no restauro foi em 1988 na igreja dos remédios, em fernando de noronha, antes trabalhava em obras modernas, na construção civil. Na época da construção civil já exercia o ofício, mas não tinha consciência do seu conhecimento, “exercia o ofício mesmo sem conhecer, estava fazendo uma coisa que não sabia que estava fazendo, depois eu fui me aperfeiçoando, fui aprender a prática e a teoria, mas eu já fazia umas colunas trabalhadas, porém eu não sabia que se tratava de um ofício de estucador, eu era, mas não sabia que era, já fazia traquinagem, assim, arte na argamassa, artesanato no cimento, aprendi vendo e fazendo, experimentando a gente pode fazer e aprender”. A respeito da execução das atividades, das quais tem domínio, amauri argumentou que o engenheiro gesta na teoria e na prática, o arquiteto somente na teoria e o mestre de obra gesta na prática. No entanto, acredita que o mestre pode gestar na teoria. Segundo o entrevistado, o pai dominava a prática e a teoria, pois quando exercia a função de empreiteiro tinha que entender de teoria, caso não soubesse dos dois não gestaria uma obra. Neste sentido colocou a questão: “o que é a prática?”. Então ele responde, “prática é saber fazer, é saber levantar uma parede, é saber assentar uma porta, a prática é saber fazer, mas não saber o porquê está fazendo, ou seja, é feito o papagaio, o papagaio fala, simplesmente fala, mas não sabe porque está falando, ele decora, e decorar é uma coisa, aprender é outra. E essa é a diferença da prática para a teoria, a teoria é saber levantar, saber fazer e saber porque está fazendo, o bom empreiteiro tem que ter a prática e a teoria”. Sendo assim, sobre o dom do estuque ele conta que, “eu já sabia, porém a desconhecia, quando você tem o dom pra coisa, em um instante você capta, eu vi alguém fazendo lá e fui aperfeiçoando o que os estucadores faziam”, além disso, ele afirma que conhecimento se aprende in loco, observando. Em 2001, o projeto monumenta, junto com o bid, selecionou profissionais do restauro para participarem de um curso de restauração em veneza, no período de setembro a novembro daquele ano. Amauri explica que, “esse curso de conservação do patrimônio arquitetônico de restauração foi feito pelo ministério da cultura, com o programa do questionário de identificação: ofícios e modos de fazer pe pe re 10 q60 02 monumenta bid, então foi um curso de formação patrocinado pelo ministério da cultura, nós já éramos estucadores, porém não éramos classificados como mestres artífices, veja bem, ser de fato é uma coisa, e ser de direito é outra, às vezes a pessoa é de fato, mas não é de direito. O cara sabe tanto, mas não trabalha porque não tem um canudo, então isso aqui veio muito fortalecer, nós já éramos mestres artífices, mas se não fossemos para esta escola não seríamos reconhecidos no brasil”. Dos critérios de seleção, um deles era de que estes tivessem maior conhecimento sobre aquelas técnicas específicas de restauro, como o estuque, a cantaria e a pintura. No entanto, os profissionais deveriam ter um aval de certos empresários e arquitetos renomados e do ramo, “minha carta de referência foi assinada por dr. Tinoco e d. Jorge passos”, lembra. De acordo com amauri, estes são os dois arquitetos que mais entendem de restauro em pernambuco, pois estão no ramo há muito tempo e são grandes estudiosos da área. Ainda na seleção para a viagem à itália, amauri nos contou que dois fiscais fizeram entrevistas e testaram seus conhecimentos em restauro e o sentido do significado do restauro, “eles conversaram com a gente sobre restauração, sobre o que é restauração, o que é barroco, o que é clássico, o que é eclético, eu achei que foi muito pesado para um mestre artífice, porque tem muito mestre artífice que não sabe o que é um barroco, que não sabe o que é a palavra eclético”. Do aprendizado no curso que participou em veneza, amauri diz, “tem muita gente que não quer deixar o legado para ninguém, você tem que se garantir, tem que confiar em você, você tem dizer assim, eu sou bom e acabou-se. Mas você tem que estudar e se aperfeiçoar, aprendi muitas técnicas lá em veneza, como o trabalho do estuque no silicone, a forma de silicone para mim foi uma novidade, eu não sabia. A técnica do marmorino também aprendi lá, eu realmente não sabia, não conhecia o marmorino, a gente trabalhava mais aqui com escaiola, a escaiola é uma imitação do marmorino, pois o marmorino é feito com pó de pedra, com a cal maturada, bem antigo, quanto mais antigo, mais maturado, melhor o marmorino. Também aprendi a técnica do afresco, que trabalhamos pouco aqui no nordeste”.
Transmissão de saberes
Segundo amauri, há 15 anos vem dando aulas e que por isso hoje tem aprendizes. Começou dando aula particular dentro do ofício, e depois entrou no ctc (centro de trabalho e cultura), já oficializado pela prefeitura do recife, onde passou cinco anos ensinando, “lá formei muita gente”. Sobre a experiência de trabalho no ceci – centro de estudos avançados da conservação integrada, relata que trabalhou ensinando durante quatro ou cinco gestões. Atualmente tem dois antigos alunos que estão trabalhando com ele nas obras de restauro, mas que, além disso, outros seguiram a profissão trabalhando com restauro, “vamos dizer assim, são minhas crias”. Da atuação como professor no curso de restauração no ceci, mestre amauri explica, “no curso você tem que conhecer o perfil do bom estucador, ele tem que ter dinamicidade e ser criativo (...) dinâmico é criar e desenrolado é desenrolar que criou e agilizou a prática (...) para ser um bom estucador ele tem que ter conhecimento, e conhecimento ele tem in loco, olhando (...) eu costumo forçar a mente das pessoas, a gente sabe das coisas, as coisas estão dentro da gente, se a gente se esforçar a gente bota tudo pra fora (...) quando você bota pra fora, você está aprendendo, você está ensinando. E, além disso, o profissional para ser um bom estucador deve ter educação patrimonial e entender a importância daqueles monumentos e da aplicação das técnicas tradicionais de estuque. O curso do ceci são três meses, dos quais um mês é de exercício prático”. A respeito de vocação e de habilidade, o entrevistado conta que em fernando de noronha tinha um mestre de obra que havia feito alguns trabalhos de restauro, mas não tinha vocação e tinha habilidade para ser mestre de restauro. Neste momento, amauri fez um paralelo sobre a atividade de restauro e a degustação de cachaça, afirmando que para diferenciar a cachaça de minas da cachaça de pernambuco é necessário ser um bom degustador, mas que existe o mau degustador, “você tem que ser um bom degustador, senão a cachaça vai sair ruim, então ele trabalhava, mas não desgustava direito, o que é degustar a cachaça? é sentir o teor, toma essa cachaça aqui, eita, é álcool puro, toma essa aqui, essa está macia. Mentira, porque aquela está mais forte do que essa, isso é um péssimo desgustador, ele não sabe de nada, ele fazia, mas não sabia se estava certo, ele não sabia distinguir se estava mal feito ou se estava bem feito”. Assim sendo, amauri fez questão de marcar a importância do conhecimento prático no canteiro de obras, na experimentação dos recursos utilizados nas atividades, dos testes, que somente in loco podem ser realizados, bem como a teoria, quando o profissional passa a entender o porquê de certos procedimentos na execução daquela técnica. Questionário de identificação: ofícios e modos de fazer pe pe re 10 q60 02

