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Nome completo
Gilmar
História de vida
Define o estuque como “sendo um revestimento artístico necessário à apresentação estética de uma edificação a estucaria vem desde a mesopotâmia das regiões dos árabes, foi para a itália e se espalhou pela europa”. Segundo gilmar, as origens da atividade são as técnicas construtivas européias utilizadas no brasil colônia a partir das matérias primas disponíveis no local de execução: “fomos colonizados por europeus e a gente detém estes materiais de origem européia mesmo. Com a colonização, foram trazidos os mestres artífices, ferramentas e materiais para a construção de edificações. Foi sendo utilizada a mão de obra de negros escravos e índios e, de certa forma, houve uma formação técnica. A gente tem hoje as técnicas européias adaptadas às regiões brasileiras com ferramentas e matérias primas nativas, como o sapê e o adobe que receberam influência de materiais como as árvores locais. Em minas na igreja do carmo, o estuque que, tradicionalmente, a parte de madeira é feita com caniço, bambu ou tabique de cedro, eu encontrei com a parte central de palmeiras. E cada técnica foi aplicada tendo em vista o clima também. Elas foram sendo aplicadas em seu formato europeu, mas foram sendo modificadas. (...) eu aprendi os traços gregos e romanos, são receitas medievais. Há uma diferença para as técnicas portuguesas. Portugal começa a receber influência italiana a partir do reinado de dom joão vi, artistas e escultores italianos. Até então, portugal estava muito fechada em suas técnicas tradicionais. E como houve as missões francesas no brasil e com a reconstrução de lisboa após o terremoto de 1775, houve necessidade de contratação de mão de obra italiana, principalmente, cantaria. E nós como colônia recebemos também esta influência. Rio grande do sul recebeu muita influência de estucadores italianos porque lá existe a parte econômica das charqueadas isso em 1840. Eles vendiam a charque e carne para a itália e, normalmente, traziam de volta mármore. Em pelotas, eu encontrei a técnica do fito-mármore e da escaiola”. Questionário de identificação: ofícios e modos de fazer pe pe re ol 10 q60 10 gilmar enfatiza a relação entre a maçonaria e o domínio destas técnicas construtivas tradicionais: “a formação da construção civil é de maçons. Maçom em francês significa pedreiro. Olha os símbolos: o compasso, o esquadro... São símbolos maçons. As técnicas estão envolvidas em toda uma ritualística de formação de um povo. é muito mais profundo. Hoje, eu me sinto à vontade por resgatar minhas origens. Eu sou consciente da minha formação. Os ciganos é que dominavam as ligas e as têmperas de metais e de origem medieval européia. Os tachos de doce, os alambiques, tudo isso. Atualmente, eles estão marginalizados. Mas os artífices vêm desta formação, desta origem. Os estucadores, os pedreiros e os restauradores, a origem é maçônica. Quem detém a geometria, a aritmética e os cálculos eram as corporações e os maçons. E tudo isso veio do egito. Eram sociedades secretas e os clientes não sabiam disso. Mas, toda a simbologia está impressa nas obras e nos altares. As origens não são negadas. Muitos altares têm simbologia do sincretismo do candomblé negro, por exemplo. Da mesma forma, os mais diversos símbolos. Quem não é, não reconhece, mas os iguais se reconhecem. Daí a formação do artífice. Tem que haver um reconhecimento das suas origens”. Sobre as origens da escaiola, gilmar relata: “na escaiola utiliza-se o gesso, técnica decorativa interna e o próprio nome já identifica a técnica – escaiola em espanhol significa gesso. A escaiola tradicional, a italiana, que é do final do renascimento e vai até o neo-clássico e eclética, mas, no final do barroco, a escaiola entra em desuso. Há uma variável de materiais novos usando os mesmos traços de técnicas antigas. Eu conheço escaiola feita com cola branca como veículo, gesso ou cimento branco. Mas a escaiola em um prédio antigo não foi feita com esta concepção. Eu conheço uma [obra com] escaiola portuguesa do final do século xix que utiliza cimento branco, mas é com cola animal diluída de cartilagem de coelho”. Gilmar define o marmorino e relata sobre a sua origem da seguinte forma: “o marmorino é uma argamassa pura: cal virgem extinta e pó de marmore que fica numa cor branca. Pode ser uma diversidade de pós de pedras: pode ser pedra dista ou calcária. Ela assume a cor que a pedra tiver. E um polimento único de parede. A aplicabilidade desta técnica é incrível. Ela é utilizada em escultura e você tem certeza que é mármore. Esta técnica utiliza os mesmos elementos. O que a natureza demorou milhares de anos para sedimentar, o marmorino simula. Ela, com o passar de muitos anos, vira rocha. O exemplo disso está em herculana e pompéia que, durante escavações arqueológicas, foram encontradas marmorinos e arfrescos em perfeitas condições. Agora, quando a técnica possui raios e cores imitando o mármore, chama-se fito-mármore. Tem o marmorino em relevo em estuque de forro”. Gilmar, ao relatar sobre os testes originais de estuque encontrados sobre a nave mor da basílica da penha, detalha sobre as origens e o impacto da industrialização nas técnicas construtivas tradicionais: “no momento em que as obra estava sendo executada, as paredes estavam sendo edificadas e os estuques estavam sendo realizados, os artífices estucadores que foram contratados da itália - o mestre estucador desta igreja era italiano, mas faleceu no período da execução e foi contratado um outro estucador português que concluiu o trabalho, assim toda a mão de obra foi de estucadores que prepararam todas as massas e não de pedreiros ou pintores decorativos – fizeram um corpo de prova. Aqui é um corpo de prova, esta área está toda manchada de pinturas e testes de tons. Isso é muito natural em obras antigas, principalmente, na parte posterior. Você encontra isso muito em ouro preto, atrás dos altares. Você vê o desenho dos altares feito em grafite ou carvão onde as medidas eram refeitas nas paredes para ser executados. Aqui você encontra esta tradição dos artífices na qual eu sou a parte mais jovem que herdou estas informações. Hoje, eu me sinto feliz por continuar estas tradições. (...) é importantíssimo que nossos mestres artífices continuem nesta tradição e que ela seja divulgada, que esta memória seja registrada. Cada vez mais a gente vai perdendo informações tradicionais das técnicas e dos materiais porque a industria está ai, né? Ela vende tintas acrílicas, tinta pva, filmes e plásticos que, cada vez mais, vem substituindo as pinturas tradicionais, minerais e técnicas tradicionais com as argamassas prontas. Hoje, você já pode comprar um pacote de argamassa pronta e colocar água para assentar piso, azulejo, cerâmica e cantaria”. Sobre as madeiras utilizadas e a origem do forro de estuque, gilmar relata: “imbiriba é utilizado como ripa para telhado, não era usado no estuque. A madeira que vai prensar a argamassa de estuque pode ser bambu, caniço, dendê (eu encontrei muito em minas gerais) que tem como madeira a parte central da folha da palmeira que é cortada e pregada. Esses tem uma fibra excelente. Como a imbiriba, ela é uma madeira excelente. Mas se padronizou no país a usar o cedro. O cedro aqui no nordeste e no rio grande do sul, pelotas, estive fazendo uma intervenção por lá com dois amigos estucadores. Mas tem uma coisa também que ficou na mão do artesão. Aquela técnica que foi passando de família para família , não era uma formação de escola, era a tradição. E as pessoas vão adaptando os matérias para aqueles que tem acesso. Na igreja de mariana, onde houve o incêndio que tomou toda a nave e pegou um pouco da capela-mor, eu estive lá. Eu fui restaurar o forro da capela-mor. Ele sofreu toda a influência do calor e se fragilizou. Ele perdeu a umidade e mudou o tamanho. Eu observei que na parte estrutural do estuque foi utilizado a parte central de uma palmeira que pode ter sido o dendê ou qualquer outra palmeira de palmito nativa da região. Os materiais são os mais variados possíveis”. Sobre a origem da talha barroca, gilmar relata: “a talha barroca é de influência portuguesa dos séculos xvi e xvii. Vieram para cá vários entalhadores portugueses. Recife possuía uma escola de talha que atendia todo o nordeste. Questionário de identificação: ofícios e modos de fazer pe pe re ol 10 q60 10 pela forma do corte da ferramenta na madeira você consegue ver o estilo do artífice e cada ferramenta possui uma função. é um jogo de ferramentas para entalhar um retabulo. Esse jogo é de difícil acesso porque não temos mais ferreiros que produzam estas ferramentas no brasil. Não temos uma industria ou mercado para isso. O meu jogo eu encomendei de um ferreiro em lisboa. Na alemanha e na inglaterra, até que você encontra estes jogos. Mas, na década de [19]80, só encomendando com o pessoal que trabalha com a forja. Para fazer uma curva, você precisa da goiva. A talha barroca existe a questão técnica da luz e da contra luz: ela é mais aprofundada, ela tem mais relevo e mais volume. (...) ela veio da contra reforma para um efeito dramático e impressionar os fiéis católicos. E o ouro é a representação da riqueza. No brasil, a talha é feita em cedro, canela, o amarelo vinhatico, o louro rosa, jacarandá na bahia”.
Localização
Aprendizado do bem
Segundo gilmar, sua vivência de criança com os avôs enquanto sacristão dentro das igrejas talvez tenha ficado marcado em seu subconsciente. A influência familiar na área de construção civil adveio de seu tio artista plástico, amaro crisóstomo, que trabalhava no ibge de pernambuco na área de confecção de mapas: “eu ajudava muito ele ainda criança com dez ou doze anos de idade. Ele levava muito trabalho em casa e morava próximo à minha casa. Eu ajudava a fazer mapas e normógrafos que era um tipo de letra. Meu tio, como artista plástico e irmão franciscano, prestava muito serviço para a ordem terceira de são francisco de olinda. Eles solicitavam muito das habilidades artísticas dele. Ele não tinha formação em restauração porque, nos anos 70 e anos 80, a restauração era uma coisa muito fechada e restrita. Era uma área pouco divulgada. Ao contrário de hoje, que está mais divulgada. Precisa de mais trabalhos em educação patrimonial, principalmente, nas escolas em cidades que possuem sítios históricos. Que se acrescente esta cadeira para que possa ser dado noções básicas. Na europa, andando pelas ruas, você tem uma aula de história da arte com vários períodos. Nós também temos, não de uma forma tão grandiosa, mesmo com nossas limitações, nós temos. E aqui os alunos picham paredes de forma indiscriminada por falta de uma formação”. Gilmar formou-se técnico em edificações em 1979: “eu tenho um curso de formação em edificações por necessidade de conhecimento técnico das construções, das edificações. No principio da década de [19]80, eu trabalhava na área da construção civil. Trabalhei na construção do centro de convenções de pernambuco e na implantação das estações de metrô em recife. Eu fiz a supervisão de obras da parte de pavimentação e estacionamento das estações. Eu tive esta experiência das técnicas construtivas modernas e civis, entre 1980 a 1986”. Formou-se em nível superior em artes plásticas com ênfase em escultura em meados da década de 1980. O trabalho que ele considera o primeiro como artífice na área de elementos artísticos integrados aconteceu em 1984, na restauração da igreja do amparo: “há nesta área uma carência de pessoas com habilidades artísticas e débora assis mendes [artista plástica e especializada em restauro no cecor de minas gerais] foi através dela que eu comecei a ter acesso ao universo de restauração. Ela estava com uma equipe pequena na igreja do amparo e o cronograma de execução de obra estava apertado. E ai foi feito um teste, uma seleção, com diversas pessoas para reforçar a equipe. Eu fui submetido com mais algumas pessoas a um teste da história da arte, a um teste prático de pinturas de reintegração – tinha que atingir os tons envelhecidos – e de remoção de camadas pictóricas. O teste foi realizado na igreja do amparo. Eu fui aprovado com mais umas três pessoas e a gente reforçou esta equipe. Esse foi o meu grande início desta aventura consciente e orientada, então, pela débora, uma das grandes restauradoras que temos no estado de pernambuco. Foi com ela que eu comecei a desvendar e ter informações das cartas de veneza, dos tratados e das técnicas tradicionais. Até então eu só observava, mas não tinha um conhecimento dos nomes e dos materiais. Foi ai que eu comecei a me dedicar com mais intensidade. Minha curiosidade fluiu para este lado das pesquisas dos materiais e das técnicas tradicionais. São estes materiais e técnicas que temos em todas as intervenções de prédios antigos”. Antes de seu trabalho na igreja do amparo, havia realizado, sem formação técnica, restauro em peças de gesso e molduras de familiares. Entretanto, gilmar afirma que nestes trabalhos de restauração para a família desconhecia os tratados de veneza, os tratados de restauração, realizava de forma autodidata e somente dominava a parte plástica: os desenhos e os relevos. Sobre o seu trabalho na igreja do amparo, relata: “para mim, que possuo formação artística em escultura, a parte em madeira era mais fácil de dominar em relação aos outros questionário de identificação: ofícios e modos de fazer pe pe re ol 10 q60 10 membros da equipe. Em equipe, há uma divisão dos trabalhos por etapas: suporte, nivelamento, perdas, preenchimento, reintegração pictórica e acabamento final. Eu participei de todas estas etapas”. Cita alguns colegas com os quais conviveu na restauração da igreja do amparo: “josé cabral que começou comigo e trabalha com remoção , arruda floriano é um mestre de carpintaria com quem aprendi muito no trato das fibras de madeira, nas samblagens, nos cortes da madeira. Conheci outros mestres de entalhe, seu aluísio de santana [bernardino da silva] que mora em olinda e seu almeida que faleceu”. Depois do teste, gilmar ficou contratado pela prefeitura de olinda como prestador de serviço durante três anos no setor de patrimônio histórico cuja diretora era débora. Sua trajetória profissional foi marcada por trabalhos temporários em vários estados, como relata gilmar: “estive em seguida em várias equipes de restauradores e ateliês de restauro aqui em olinda. Mas, como aqui tínhamos poucas obras eu tive a necessidade de viajar. Estive em alagoas, sergipe, bahia, rio de janeiro, são paulo, joão pessoa prestando serviço na fundação josé américo, por exemplo. Ela é uma fundação de restauração e cultura de joão pessoa onde eu fui convidado para fazer a restauração e desmonte de altares. Era sempre como freelancer não era ligado às instituições oficiais. Eu era contratado pelas equipes. Eu fiz este tipo de trabalho até 2007 ou 2008. Até pouco tempo eu estava em pelotas fazendo um trabalho de estuque para uma construtora local. Por volta dos quarenta anos de idade, gilmar teve a oportunidade de fazer um curso de especialização em lisboa como relata: “em 1997 para 1998, houve um projeto da fundação ricardo do espírito santo, de lisboa. Esta fundação fez um projeto de restauração de patrimônio barroco em todo o mundo. E escreveu um projeto para a comunidade européia e foi beneficiada com o projeto de igarassú que havia escrito. Era um projeto de memória barroca, principalmente, portuguesa. Este projeto queria restaurar patrimônio barroco e a igreja de santo antônio de igarassú foi beneficiada pelo projeto. Com esta verba, a fundação fez um acordo com outras fundações: a chavier de sales da espanha e a joaquim nabuco de pesquisa social do recife. Este acordo era para fazer um curso de formação e preparação de técnicos para intervir em azulejaria portuguesa, douragem em ouro fino e entalhe barroco – técnicas que seriam usadas na igreja. Foi feita uma seleção de técnicos pela joaquim nabuco. Eu fui indicado pela fundação joaquim nabuco, eu não era funcionário, eu era freelancer, mas pelo trabalho que eu já havia prestado a eles fui requisitado. Fui requisitado junto com mais três companheiros: josé edson félix, givaldo bernardino, marcus pinto e roberto carneiro [fundarpe]. Fizemos quatro meses de especializações em lisboa na escola ricardo espírito santo porque eles tem curso de formação para restauração. é uma fundação que tem um know how em muitos cursos como fundição, talha, vários cursos de artífices... Eles conservam as mesmas técnicas dos séculos xvi, xvii e tem um acervo porque tem um museu. Eles praticam as técnicas de uma forma bastante tradicional: eles mesmo fabricam o ouro deles – é um ouro de 24 quilates batido, uma das melhores folhas de ouro do mundo e foi este que a gente usou lá na restauração da igreja de igarassú. No módulo de entalhe barroco, tive aula de como afiar uma ferramenta para o corte da madeira. Há profissionais que não sabem afiar suas próprias ferramentas, sabem somente afiar de forma que cortem, mas não da forma certa. Eu aprendi a afiar da forma correta e a conservá-las”. Após o curso trabalhou no restauro dois anos na igreja em igarassú. Em 2000, trabalhou no projeto brasil 500 anos restaurando bens imóveis tombados em porto seguro e trancoso no estado da bahia. Em seguida, restaurou o forro da capela mor em estuque da igreja nossa senhora do carmo em mariana, no estado de minas gerais, e realizou pequenas intervenções em ouro preto. Ainda como freelancer participou de projetos de restauração em pelotas. No rio grande do sul, retornando a recife em 2005. Em todos estes locais, gilmar se preocupou em buscar informações sobre as técnicas e materiais utilizados com os mestres artífices locais. Gilmar credita boa parte de sua formação ao projeto monumenta/bid: “eu sou fruto do projeto monumenta/bid em um processo de capacitação feito na itália, em veneza, que levou uma média 32 a 33 técnicos do brasil todo. Nossos professores aprenderam com seus pais e suas famílias e seguem uma tradição medieval na forma da receita. O mestre estucador aprendeu com o avô e o pai que eram estucadores. O objetivo do projeto era formar mestres artífices gabaritados. E o objetivo foi alcançado, os técnicos que foram para lá se capacitaram em pintura, em cantaria, em forja, estuque e outras. Eu fiz a especialização em estuque. A gente conseguiu identificar várias técnicas que até então convivendo em obra a gente não tinha certeza da identificação delas e hoje em dia a gente já tem. é importante estas capacitações na área das edificações e arquitetura”. Com esta formação, gilmar se caracteriza por uma tradição das corporações de ofício que baseiam seu trabalho em manuais de ofício medievais e tratados. Sempre que possível, gilmar fabrica suas ferramentas de madeira muitas vezes recicladas de obras. Todo o seu trabalho artístico e em restauro é realizado tendo em vista medidas com compasso e proporções da forma medieval: “eu tenho uma fascinação pela pedra filosofal [que, para ele, representa o processo de aprendizado, conhecimento e evolução humana], pela receita, pelo laboratório, pela alquimia, pelos testes que se faz para obter resinas. Sempre que possível eu venho me dedicando a isso. A gente vem de intervenções que adotaram estes critérios. Os artífices que passaram pelas obras que, hoje, eu restauro, utilizaram estes padrões. Eu tento respirar a obra, compreender como a montagem foi feita para que eu possa entender da forma mais delicada possível o artista. Eu uso a mesma lógica que as obras foram concebidas”. Assim sua formação é continua. Em cada viagem busca encontrar com os mestres artífices locais e aprender as técnicas que eles utilizam. Considera-se um questionário de identificação: ofícios e modos de fazer pe pe re ol 10 q60 10 pesquisador tanto das técnicas e materiais tradicionais, quanto de materiais e técnicas contemporâneas que facilitem e acelerem os trabalhos. Entretanto, não reconhece ninguém como seu mestre em estucaria. Informa que em pernambuco desde a década 1970 até 1990, não há escolas que dão cursos de estuque. A construção civil não reconhecia a profissão de estucador, estes profissionais eram considerados como pedreiros de massa de acabamento. Desde junho de 2009, trabalha como mestre de obra responsável pela restauração da basílica da penha em recife realizada pela empresa tinoco obras. Relata que registra todas as ocorrências e as intervenções em um diário de obra que deveria estar sendo fiscalizado pelo iphan. Segundo ele, não há ainda a fiscalização deste órgão. Relata que aguarda esta fiscalização porque de certa forma é uma ajuda que facilita as suas decisões. Sua habilidade de gerenciamento e liderança inclui a descoberta de talentos e capacidades em diversos funcionários remanejando-os de função e organograma. Gilmar não possui o seu conhecimento sistematizado para futuras publicações ou manuais, entretanto, registra, no que chama de diário de bordo, os dados das obras nas quais trabalhou. Desta forma, gilmar se considera um mestre artífice que tem uma “formação de obra”, ele define: “eu faço, eu executo. Eu não só oriento. Eu coloco a mão na massa. Eu tenho a formação como artista plástico e por isso fui para a restauração para emprestar, por um período - e estou até hoje -, as minhas habilidades manuais, as minhas habilidades no fazer e com técnico - domínio das técnicas e dos materiais, como eles se comportam, das fibras de madeira”. Ressalta que possui um acervo bibliográfico muito bom: “com livros e apostilas de cursos de outros núcleos, como do cecor de minas gerais, com outros colegas”.
Transmissão de saberes
Gilmar, como mestre de obra relata a sua experiência em obra como uma experiência de ensino: busca que os funcionários que são seus subalternos aprendam no canteiro de obra tanto as técnicas como educação patrimonial: “eu estou fazendo uma formação com o queiroz que é pedreiro, eu quero que ele seja meu contra-mestre. Ele já está se aperfeiçoando. Eu já estou formando o queiroz para esta responsabilidade. Estou formando também quatro auxiliares para o estuque. Eles é que jogam a massa. Em toda obra, eu formo profissionais. Mas, eu tenho que falar para vocês que eu formo, mas eu perco esta mão de obra. Eu perdi os da [igreja] madre de deus. Eu fiz uma formação de três a quatro anos com profissionais. Depois, tive que ficar ausente do mercado porque não tive mais trabalho e fui para outras áreas e cidades. Ai eu fui só porque é inviável levar uma equipe. Eu tenho de gerar receita na cidade em que estou. Assim, eu sempre perco profissionais. Não há continuidade. Um estucador é mais caro que um pedreiro normal. Então, o pessoal dono dos casarões ecléticos de recife, por exemplo, preferem contratar estes pedreiros sem formação”. E como professor, gilmar ministra aulas práticas de estucaria no ceci em cursos de restauro. Em 2000, participou da intervenção do projeto de 500 anos do brasil, projeto escola, em porto seguro e trancoso na bahia. Recebeu alunos de minas gerais e do espírito santo. Para gilmar, a inexistência de uma política de educação de técnicas construtivas tradicionais para a formação dos mestres artífices que estão à frente de obras de restauração é um risco ao patrimônio. Mestres que já deveriam estar preparados não estão. E patrimônio deve ser salvaguardado a partir de uma política de integração entre “os brasis”. Segundo ele, “só há como ter idéia de como intervir se souber a causa das patologias, dos desprendimentos da argamassa”.

