-
1.1. TERRITORIO_AREA-AFETADA_A3 -
2.1. RELEVO_A3 -
2.2. HIDROGRAFIA_A3 -
2.3. VEGETAÇÃO_A3 -
2.3.1.Unidades de Conservação ambiental_A3 -
2.4. Recursos Minerais + Minas_A3 -
2.5. INFRAESTRUTURA_A3 -
3.1. IMOVEIS_HISTORICOS_A3 -
3.2. IMOVEIS_HISTORICOS+AREA-AFETADA_A3 -
3.3. PCI-BAIRROS_A3 -
3.3.1. PCI+AREA-AFETADA_A3 -
4.2.1. BEBEDOURO - PROCISSÃO SANTO ANTONIO -
4.2.2. BEBEDOURO - PROCISSÃO SÃO PEDRO - região dos FLEXAIS -
8.2.1. PINHEIRO - PROCISSÃO MENINO JESUS DE PRAGA -
lugares de referencia x area demolida 2025 (1)
Informações
Descrição e relevância do território
A delimitação do território para a ação de identificação do projeto IPCI Maceió tem como ponto de partida os impactos causados pelo desastre tecnológico provocado pela exploração de sal-gema, que atingiu diretamente os bairros Bebedouro, Mutange, Bom Parto, Farol e Pinheiro.
A partir de 2018, o afundamento do solo comprometeu a integridade física de milhares de moradias e equipamentos urbanos, o que forçou a desocupação compulsória de grande parte dessas áreas e desarticulou redes comunitárias consolidadas. Esse processo de desterritorialização abalou profundamente os vínculos afetivos e culturais das comunidades locais, interrompendo ciclos de transmissão de saberes e práticas tradicionais enraizadas nesses territórios. As perdas não foram apenas materiais: atingiram modos de vida, lugares de memória e referências identitárias fundamentais para a construção do pertencimento coletivo.
Diante deste cenário, a ação de identificação assume caráter urgente e reparador. Reconhecer as referências culturais ainda existentes – mesmo que hoje muitas estejam deslocadas de seus espaços originários – é essencial para salvaguardar memórias ameaçadas e fortalecer as bases simbólicas que sustentam a vida social das comunidades atingidas. A destruição física dos bairros não eliminou os sentidos que essas populações atribuem aos lugares que habitaram: o território permanece vivo na memória, nas narrativas, nas celebrações, nos gestos e nos afetos que continuam a ser cultivados em novos contextos. É nesse sentido que a ação de identificação se apresenta como instrumento de valorização da cultura como direito e da memória como fundamento da dignidade coletiva.
Além da urgência imposta pelo desastre, os bairros afetados possuem uma densidade histórica e simbólica que justifica sua centralidade na proposta do IPCI Maceió. Bebedouro, por exemplo, é um dos núcleos mais antigos da cidade: articula historicamente as rotas entre o interior e o porto de Jaraguá e preserva um conjunto arquitetônico expressivo, hoje protegido como Zona Especial de Preservação (ZEP). Mutange e Bom Parto complementam esse corredor cultural com a presença de vila operária, expressões da cultura negra e rural, além de práticas como a pesca artesanal na Laguna Mundaú. Já Farol e Pinheiro, situados no platô urbano, foram espaços de consolidação de elites políticas e econômicas que imprimiram suas marcas simbólicas na paisagem e nas formas de sociabilidade da cidade.
Os critérios adotados para a delimitação do território consideraram, portanto, a confluência entre três dimensões: os efeitos do desastre na desestruturação dos laços comunitários; a relevância histórica, arquitetônica e cultural desses bairros; e a permanência de expressões culturais imateriais que ainda hoje são mantidas pelas comunidades afetadas. Essas expressões, mesmo deslocadas, resistem ao esquecimento e reafirmam a força dos vínculos com os territórios de origem, manifestando-se em festas, folguedos, rituais religiosos, saberes tradicionais, oralidades e formas próprias de organização social.
Assim, a escolha desse território não se resume a um recorte técnico ou geográfico, mas responde a uma realidade vivida, marcada por perdas profundas e, ao mesmo tempo, por uma intensa vitalidade cultural. Trata-se de reconhecer o papel desses bairros como lugares de construção de identidades, de sociabilidade e de resistência, reafirmando o direito das comunidades à memória, à cultura e à reparação simbólica. A ação de identificação proposta pelo IPCI Maceió parte da escuta sensível aos sentidos atribuídos pelos sujeitos ao território ao promover uma abordagem que articula justiça histórica, salvaguarda cultural e compromisso com as formas de vida que fazem da cidade um espaço múltiplo, diverso e profundamente humano.
Tipo do território
Localização
Descrição do(s) ponto(s) georreferenciado(s)
Bairros atingidos
Bebedouro: -9.627449180611055, -35.750701489506504
Mutange: -9.636181786452486, -35.7477759477626
Bom Parto: -9.64799849483947, -35.74304277705362
Pinheiro: -9.633786988326664, -35.74327078807246
Farol: -9.63921908249569, -35.740891566312776
Marcos físicos e edificados de relevância para o território
Formação histórica do território
A formação histórica da cidade de Maceió resulta de um complexo entrelaçamento de processos coloniais, econômicos, migratórios e territoriais que, ao longo do tempo, conformaram a paisagem urbana e a composição sociocultural de sua população. Antes da chegada dos colonizadores portugueses, a região era habitada por povos indígenas, em especial os Caetés, pertencentes ao tronco tupi e ao universo cultural Tupinambá. Esses grupos estabeleciam modos de vida profundamente articulados com os ecossistemas costeiros e lagunares, destacando-se como pescadores e canoeiros, detentores de saberes e práticas simbólicas ligadas à cerâmica, à espiritualidade e à relação com a natureza.
Com o avanço da colonização, a presença indígena foi drasticamente reduzida por meio da violência, do extermínio e do deslocamento forçado. Esse processo implicou no apagamento sistemático das presenças indígenas na região e promoveu a marginalização de suas memórias, territórios e modos de vida. Ainda assim, traços dessa ancestralidade persistem de forma residual e subterrânea, manifestando-se em topônimos, saberes tradicionais e práticas culturais que sobreviveram ao tempo e às reiteradas tentativas de erradicação. O próprio nome “Maceió” se remonta ao tupi – “Maçayó” ou “Maçaio-k” –, cuja tradução, “o que tapa o alagadiço”, evoca não apenas as características do ambiente natural, mas também a presença originária dos povos indígenas que habitavam a região muito antes da colonização portuguesa.
A origem urbana de Maceió é objeto de debate historiográfico. Uma das hipóteses associa sua fundação ao Engenho Massayó, instalado entre o mar e a lagoa no início do século XVIII. Apesar de seu funcionamento limitado, o engenho teria desempenhado um papel simbólico na transição do território indígena para o domínio colonial. Outra vertente, atualmente mais aceita, localiza o núcleo fundador no povoado de Jaraguá, um antigo reduto de pescadores cuja posição estratégica no litoral favoreceu o escoamento da produção canavieira dos vales dos rios Mundaú e Paraíba. A partir do Porto de Jaraguá, consolidaram-se os primeiros fluxos mercantis e populacionais que impulsionaram a expansão urbana e configuraram a cidade como entreposto comercial entre o interior agrícola e o litoral.
Esse processo de crescimento urbano esteve profundamente vinculado à presença e ao trabalho das populações negras escravizadas e, posteriormente, libertas. Responsáveis pela construção física da cidade – nas obras portuárias, nas edificações públicas e privadas e nas atividades produtivas –, essas populações também legaram uma expressiva contribuição cultural, organizacional e simbólica ao território. Com o declínio do sistema escravocrata e a reestruturação agroindustrial baseada nas usinas, muitos ex-escravizados migraram para áreas periféricas da malha urbana, especialmente as regiões alagadiças das lagoas Mundaú e Manguaba.
Nesse contexto, formaram-se os primeiros mocambos urbanos – aglomerados de moradias precárias à margem da legalidade fundiária – em bairros como Bebedouro, Ponta Grossa, Mutange e Bom Parto. Essas áreas urbanas de ocupação popular emergiram como territórios de resistência, memória e recriação cultural da população negra, estruturando modos de vida baseados em economias de subsistência, relações comunitárias e uma profunda vinculação ao meio ambiente.
A dinâmica socioeconômica desses bairros foi marcada por atividades como a pesca artesanal, a coleta de mariscos, o extrativismo vegetal e o transporte lacustre com canoas e jangadas. Essas práticas foram majoritariamente realizadas por trabalhadores negros e mestiços e contribuíram para a constituição de redes solidárias, formas de sociabilidade e resistência cultural que se mantêm como referência identitária para Maceió até os dias atuais.
A emancipação da Província de Alagoas, formalizada em 1817 com seu desmembramento da Província de Pernambuco, desencadeou acirradas disputas políticas e territoriais que tiveram como desdobramento central a definição da sede administrativa da nova unidade provincial. A elevação de Maceió à categoria de vila, ocorrida em 1815, representou um marco inicial na consolidação de seu protagonismo regional ao desmembrar-se da antiga Vila de Alagoas do Sul – atual município de Marechal Deodoro. Essa transformação administrativa, embora incipiente, já sinalizava as tensões em torno da centralidade política e econômica no novo território provincial.
Com a criação da nova Província, intensificou-se a disputa entre os dois principais núcleos urbanos da época: a tradicional Vila da Lagoa do Sul, sede histórica da administração colonial; e a emergente Vila de Maceió, cuja posição geográfica estratégica e crescente dinamismo econômico a partir do Porto de Jaraguá lhe conferiam uma vantagem competitiva nas redes comerciais regionais e atlânticas. Inicialmente, optou-se por manter a sede do governo provincial na Vila da Lagoa, preservando sua importância simbólica e institucional.
Contudo, o progresso material verificado em Maceió – impulsionado pelas atividades portuárias, pela abertura ao comércio marítimo e pela expansão da malha urbana – fortaleceu as reivindicações locais por sua elevação à condição de capital. Em 26 de agosto de 1822, representantes da Vila de Maceió enviaram uma petição ao rei Dom João VI solicitando a elevação da vila à categoria de cidade e sua designação como capital da Província de Alagoas ao alegarem sua posição privilegiada, seu potencial comercial e sua infraestrutura em desenvolvimento.
O impasse entre as duas localidades perdurou por quase duas décadas, sendo atravessado por conflitos políticos, rivalidades locais e disputas pelo controle dos recursos administrativos e financeiros da nova província. A definição final se deu apenas em 1839 em meio a uma série de embates envolvendo a transferência do Tesouro Real, que foi finalmente instalado em Maceió, selando sua ascensão à condição de capital da província.
A escolha por Maceió consolidou uma nova centralidade urbana no contexto alagoano, fundada menos em critérios de tradição institucional e mais em dinâmicas econômicas, logísticas e comerciais. Diferentemente de outras vilas do interior, cuja urbanização se deu a partir de funções político-religiosas, Maceió cresceu ancorada na funcionalidade portuária e na sua capacidade de articular o litoral com o interior canavieiro, especialmente por meio do núcleo fundacional de Jaraguá e das conexões com a Lagoa Mundaú.
A partir da consolidação de Maceió como capital provincial, a cidade passou por um processo contínuo de expansão urbana, acompanhado pelo fortalecimento de sua infraestrutura administrativa, econômica e simbólica, o que a consolidou como centro dinâmico da nova configuração territorial de Alagoas. Esse processo de crescimento urbano teve início na região portuária de Jaraguá e no núcleo administrativo do Centro, irradiando-se, em um segundo momento, para áreas próximas como Levada, Bebedouro e Fernão Velho. Assim, a ocupação inicial da cidade se concentrou na planície litorânea e na planície lagunar – regiões que compõem a parte baixa do território – moldando os primeiros bairros urbanos. Nessas áreas, bairros como Bebedouro, Mutange e Bom Parto se estruturaram a partir da proximidade com o porto, sendo profundamente impactados pelos ciclos econômicos regionais, pelo avanço da industrialização e, sobretudo, pelos intensos fluxos migratórios que marcaram a conformação social da capital.
Situado às margens da Lagoa Mundaú, o bairro Bebedouro desempenhou, desde os primeiros momentos da urbanização de Maceió, um papel estratégico na articulação entre o núcleo urbano e as regiões do interior alagoano. Inicialmente configurado como um ponto de conexão entre as rotas terrestres e lacustres, o bairro ganhou ainda mais relevância a partir do século XIX com a implantação do ramal ferroviário que o ligava diretamente ao porto de Jaraguá. Essa infraestrutura ampliou significativamente a capacidade de escoamento da produção agrícola – com destaque para açúcar, algodão e madeira –, mas, antes disso, já havia impulsionado a circulação de produtos oriundos da pesca artesanal, atividade fundamental nas margens da Lagoa Mundaú. A vocação de Bebedouro como entreposto remonta, portanto, às trocas de pescado e mariscos entre as comunidades lagunares e o núcleo urbano em formação, sendo posteriormente potencializada pela implantação do ramal ferroviário que o conectava ao porto de Jaraguá. Com isso, o bairro se consolidou como um importante polo logístico inserido nas dinâmicas comerciais e territoriais que moldaram o processo de urbanização de Maceió.
O bairro Bom Parto se consolidou como um dos principais núcleos operários de Maceió, especialmente a partir da implantação da linha férrea da Cambona e da instalação da fábrica têxtil Alexandria, que se tornou um dos maiores empreendimentos industriais da capital no início do século XX. Essa infraestrutura atraiu um contingente expressivo de trabalhadores e contribuiu para a formação de um tecido urbano popular marcado pela concentração de habitações operárias, forte organização comunitária e intensa vida cultural.
O bairro Mutange se consolidou como um território de expansão urbana periférica, marcado pela ocupação predominante de populações migrantes provenientes do interior alagoano, especialmente em períodos de intensificação das desigualdades socioeconômicas e das crises agrárias. A instalação dessas famílias em áreas de mangue e terrenos alagadiços, desprovidos de infraestrutura urbana e serviços públicos essenciais, reflete as profundas desigualdades estruturais que orientaram o processo de urbanização de Maceió. A ocupação do Mutange ocorreu de maneira espontânea e informal, sem planejamento estatal e à margem das políticas públicas de habitação, saneamento e ordenamento territorial. Como resultado, o bairro passou a expressar, de forma emblemática, a lógica de exclusão que historicamente empurrou os grupos socialmente vulneráveis para zonas ambientalmente frágeis e institucionalmente negligenciadas da cidade.
A expansão urbana em direção ao planalto – denominado Alto da Jacutinga – representou uma nova etapa no processo de conformação territorial de Maceió. O bairro Farol, a partir da instalação do farol marítimo em 1856, passou a atrair camadas sociais mais elevadas devido à salubridade do terreno e à distância em relação às zonas alagadiças da planície. Ao longo do século XX, a urbanização do planalto se intensificou especialmente com a pavimentação da Avenida Fernandes Lima na década de 1940, o que consolidou o Farol como eixo de valorização imobiliária, polarização de equipamentos públicos e expansão de áreas residenciais de médio e alto padrão.
O bairro Pinheiro, inicialmente concebido como uma extensão do Farol, passou a se consolidar como unidade urbana autônoma a partir da década de 1940 em meio ao processo de expansão horizontal da cidade sobre o platô. Seu crescimento reflete o avanço da urbanização planejada em direção às áreas mais elevadas de Maceió, impulsionado pela busca por melhores condições de salubridade, infraestrutura urbana e valorização imobiliária em contraste com a precariedade das regiões situadas na planície litorâneo-lagunar. O bairro Pinheiro fez parte da história da aviação em Alagoas ao contar com uma pista de pouso construída entre a antiga Rua Belo Horizonte – hoje José da Silva Camerino – e a Praça Arnon de Melo. A instalação do 20º Batalhão de Caçadores do Exército, em 1944, também desempenhou papel importante no processo de ocupação urbana da região e favoreceu o seu crescimento e valorização.
A formação urbana de Maceió evidencia um processo historicamente marcado pela heterogeneidade e pela desigualdade socioespacial. Longe de seguir um padrão linear ou homogêneo, a expansão da cidade resultou da sobreposição de dinâmicas simultâneas e conflitantes impulsionadas por diferentes racionalidades econômicas, sociais e territoriais em disputa. Nesse contexto, os bairros se constituíram como expressões concretas de fluxos migratórios, estratégias de sobrevivência, interesses de mercado e omissões do poder público. A análise integrada dessas trajetórias revela Maceió como um território de contrastes – entre centro e periferia, litoral e planalto, formalidade e informalidade –, mas também como um espaço de interconexões históricas e culturais profundas. Compreender sua formação demanda é criar, portanto, um olhar atento às dinâmicas interbairros, às redes de circulação de pessoas e mercadorias e às transformações socioespaciais que moldaram uma cidade multifacetada, continuamente tensionada entre vulnerabilidade e resistência, exclusão e pertencimento.
Nesse contexto, bairros como Bom Parto, Mutange, Farol e Pinheiro – e, de modo especial, Bebedouro – desempenham um papel central na constituição das referências culturais da capital alagoana. Bebedouro, em particular, destaca-se não apenas por sua localização estratégica comercial às margens da Lagoa Mundaú e por sua importância no processo de formação urbana de Maceió, mas também por sua densidade simbólica e histórica.
O reconhecimento do patrimônio cultural material presente nos bairros pelo conjunto de bens arquitetônicos e urbanísticos localizados nessas áreas integra um acervo de grande valor histórico, simbólico e paisagístico, cuja preservação está prevista no Plano Diretor de Maceió (2005) por meio das Unidades Especiais de Preservação (UEPs) e de uma Zona Especial de Preservação (ZEP), esta última situada no bairro Bebedouro.
Bebedouro se destaca como o mais importante núcleo de patrimônio material da região, reconhecido como bairro histórico e protegido pela legislação urbanística de Maceió, que o enquadra como Zona Especial de Preservação (ZEP). Essa área de proteção abrange o núcleo original de formação do bairro, incluindo seu centro histórico e importantes marcos urbanos que testemunham o valor arquitetônico e paisagístico do território.
A configuração urbana de Bebedouro preserva um expressivo conjunto de edificações que remontam às primeiras fases da expansão da cidade de Maceió que em conjunto com outras edificações nos bairros Mutange e Bom Parto formam um corredor cultural. Casarões coloniais e ecléticos ainda compõem a paisagem, marcando a presença de diferentes estilos arquitetônicos que dialogam com o contexto histórico e social de sua formação. As ruas, praças e imóveis de valor histórico conferem ao bairro uma ambiência singular, especialmente às margens da Lagoa Mundaú, onde se destacam composições arquitetônicas que aliam funcionalidade, estética e identidade local.
Entre os bens de maior relevância, destaca-se o Complexo Arquitetônico de Nossa Senhora do Bom Conselho, tombado em nível estadual pelo Decreto nº 38.081, de 1999. Esse conjunto representa um dos mais importantes exemplares do patrimônio histórico edificado de Maceió, tanto pelo seu valor artístico quanto pelo papel que desempenha na configuração da paisagem urbana do bairro. A presença desses bens de natureza material confere a Bebedouro um papel central na preservação da memória material da cidade. O bairro expressa, por meio de sua arquitetura, diferentes fases do desenvolvimento urbano e social de Maceió, revelando o modo como os processos históricos se inscrevem fisicamente no espaço.
Nos bairros vizinhos do Mutange e do Bom Parto, identificam-se importantes testemunhos da história urbana, arquitetônica e social de Maceió, materializados em edificações que integram o conjunto das Unidades Especiais de Preservação (UEPs). Entre os bens já contemplados por instrumentos de proteção, destacam-se a antiga Vila Lilota – expressivo palacete de estilo eclético, que abriga murais internos em Art Nouveau –, a antiga Vila Amália, que por muitos anos sediou o Sindicato dos Trabalhadores da Educação de Alagoas (Sinteal) e foi sede do Instituto do Meio Ambiente.
Para além dos imóveis já reconhecidos, há edificações de inegável relevância histórica, arquitetônica e simbólica que permanecem desprovidas de salvaguarda legal. Um exemplo emblemático é a vila operária da antiga Fábrica Têxtil Alexandria, no bairro Bom Parto. A arquitetura remanescente desse conjunto preserva registros materiais do ciclo industrial de Maceió e das experiências cotidianas dos trabalhadores que ali viveram, configurando-se como um marco das dinâmicas laborais e da formação de territórios urbanos populares. Apesar de seu valor cultural amplamente reconhecido, esse patrimônio ainda carece de proteção jurídica formal, permanecendo vulnerável à descaracterização e ao esquecimento.
Após os impactos causados pelo desastre geológico, os bairros Farol e Pinheiro passaram a contar com o reconhecimento oficial de dois bens de expressivo valor cultural. No bairro Farol, a Igreja Batista do Pinheiro foi reconhecida como patrimônio material e imaterial do Estado de Alagoas, por meio da Lei nº 8.515, de 6 de outubro de 2021, em razão de sua trajetória comunitária e relevância no cenário religioso e cultural alagoano. Posteriormente, no bairro do Pinheiro, a Casa nº 861 foi tombada como patrimônio material pela Lei nº 9.562, de 5 de junho de 2025, devido à sua importância simbólica para a memória local. Estes atos de salvaguarda refletem um esforço de valorização da cultura material e da memória coletiva, mesmo diante das transformações territoriais impostas pela desocupação compulsória.
Esse conjunto patrimonial, especialmente concentrado em Bebedouro, expressa não apenas diferentes fases da arquitetura urbana de Maceió – do ecletismo ao modernismo –, mas também os vínculos históricos e sociais desses bairros com os ciclos econômicos, os fluxos migratórios e os processos de urbanização e políticos que moldaram a cidade ao longo dos séculos. Reconhecer, valorizar e preservar esses bens é fundamental para garantir a transmissão da memória coletiva e a permanência de referências identitárias que estruturam a vivência e o pertencimento das comunidades locais.
A abordagem sobre a formação urbana dos bairros de Maceió não pode prescindir da consideração dos aspectos culturais imateriais que marcam profundamente o território e sua população. Para além das dinâmicas espaciais, econômicas e migratórias que estruturaram bairros como Bebedouro, Bom Parto, Mutange, Farol e Pinheiro, é fundamental reconhecer a centralidade das manifestações simbólicas e culturais no processo de construção da cidade. Esses bairros não se constituem apenas como unidades administrativas ou zonas residenciais, mas como verdadeiros espaços de produção de sentidos, nos quais práticas, memórias e identidades coletivas se consolidaram ao longo do tempo.
A trajetória desses territórios revela formas singulares de organização social e vínculos afetivos com o lugar, sustentados por expressões culturais que têm origem em matrizes indígenas, africanas, portuguesas, sertanejas e elitistas. Tais heranças se manifestam em rituais religiosos, folguedos, festas populares, práticas de oralidade, culinária, saberes tradicionais e formas de sociabilidade que resistem à homogeneização imposta pela modernização urbana. O patrimônio cultural imaterial, nesses contextos, não apenas persistiu até o início do processo de desocupação compulsória iniciado em 2018, mas segue sendo atualizado nas experiências cotidianas dos sujeitos e coletividades em seus novos territórios ao reforçar os laços de pertencimento e a continuidade das tradições.
Dessa forma, os bairros populares de Maceió, particularmente os investigados nesta pesquisa, configuram-se como territórios culturais por excelência, nos quais o patrimônio imaterial constitui elemento estruturante da vida social e urbana. A análise dessas áreas exige, portanto, um olhar sensível às dinâmicas locais e às formas de resistência cultural que, historicamente, desafiaram as hierarquias simbólicas e os processos de desterritorialização impostos por forças externas. Nesse sentido, a cidade se revela como uma construção contínua – não apenas a partir dos centros institucionais, mas sobretudo das margens – onde os modos de ser, fazer e celebrar expressam a vitalidade cultural do povo alagoano.
Cada bairro carrega, em seu tecido urbano e nas práticas cotidianas de seus habitantes, memórias ancestrais e manifestações culturais que atravessam gerações. Mesmo diante de contextos marcados por fluxos migratórios, desigualdades socioespaciais e um processo histórico de urbanização excludente, esses territórios revelam modos próprios de organização comunitária, redes de solidariedade e práticas culturais que resistem às pressões do tempo e da especulação. A compreensão da relevância cultural desses espaços demanda, portanto, atenção às formas de habitar, aos gestos cotidianos e aos saberes transmitidos oralmente que conferem identidade, continuidade e coesão social às comunidades que os compõem.
Na região da planície lagunar, destaca-se a presença emblemática da cultura da pesca artesanal, sobretudo nos bairros Bebedouro, Mutange e Bom Parto. A pesca na Laguna Mundaú constitui uma das formas mais antigas e simbólicas de ocupação humana nesses territórios. Desde o início do século XIX, famílias de pescadores e marisqueiras se estabeleceram às margens da lagoa e em torno de nascentes de água doce e cultivaram uma relação profunda com o ambiente natural e com as práticas produtivas, culturais e religiosas. Sustentada pela transmissão intergeracional de saberes e pela solidariedade no trabalho coletivo, essa forma de vida tradicional foi gravemente abalada pelo desastre tecnológico provocado pela Braskem, mas permanece viva na memória coletiva e nas ações de resistência das comunidades afetadas, reafirmando o valor simbólico desses territórios como guardiões de um patrimônio imaterial fundamental para a história de Maceió.
Outro elemento estruturante das territorialidades culturais da planície lagunar é a presença da cultura negra, cujas marcas se evidenciam na diversidade de saberes e práticas oriundos da diáspora africana. Para além dos folguedos populares, como o coco e a capoeira, essa herança se manifesta nos terreiros de candomblé e umbanda, na arte das benzedeiras e em diversos espaços de convivência onde a ancestralidade africana é reafirmada como forma de cuidado, resistência e fortalecimento comunitário. Transmitidos de geração em geração, esses saberes contribuíram para a formação de identidades coletivas e seguem como base simbólica e cultural, mesmo diante de adversidades como o preconceito, a exclusão e a desterritorialização.
Além das heranças afro-indígenas, os bairros da planície lagunar também foram profundamente influenciados pelo universo rural sertanejo trazido pelos fluxos migratórios oriundos do interior alagoano. Ao longo do século XX, famílias vindas do agreste e do sertão se instalaram nas margens da lagoa e trouxeram consigo modos de vida, valores e práticas sociais que conformaram uma sociabilidade marcada por tradições rurais. Essa presença se manifesta na religiosidade popular, nos ofícios tradicionais, nas celebrações juninas e natalinas, bem como na culinária e nos modos de sociabilidade, conferindo identidade e continuidade cultural a esses grupos. Assim, os bairros se constituíram como espaços de reencontro entre a memória sertaneja e as dinâmicas da cidade, preservando formas de vida que resistem à urbanização acelerada.
Por sua vez, os bairros Bebedouro, Mutange e Bom Parto também abrigaram, entre o final do século XIX e início do XX, figuras influentes da elite política, econômica e cultural alagoana. A localização estratégica da região – entre a Lagoa Mundaú e a linha férrea que conectava a capital ao interior – favoreceu a construção de chácaras e casarões que se tornaram símbolos de distinção social e expressão de poder. Mais do que elementos arquitetônicos, essas estruturas dinamizaram a vida cultural local e incentivaram festas populares e práticas de sociabilidade que integravam diferentes camadas sociais. Essa memória permanece viva nos traçados urbanos, nas edificações remanescentes e nas lembranças das celebrações, o que compõe um patrimônio histórico e simbólico que testemunha as transformações de Maceió.
Na porção elevada da cidade, os bairros Farol e Pinheiro, localizados no Planalto da Jacutinga, consolidaram-se ao longo do século XX como espaços privilegiados de residência das elites maceioenses. A partir das primeiras décadas daquele século, coronéis, políticos, comerciantes e outras figuras proeminentes, que anteriormente habitavam bairros tradicionais como Bebedouro, passaram a migrar para essas áreas mais altas. Inicialmente, essa movimentação foi motivada pelas condições ambientais mais salubres – como o clima ameno, a boa ventilação e o afastamento de zonas alagadiças –, mas, com o tempo, também passou a ser impulsionada pela busca de distinção simbólica e afirmação de status social no espaço urbano. A presença da elite nessas localidades provocou transformações significativas na paisagem e na dinâmica sociocultural, marcadas pela criação de residências imponentes e pela organização de eventos sociais seletivos como festas, encontros políticos, celebrações religiosas e saraus, que reforçavam os laços internos dos círculos dominantes e contribuíam para a construção de representações sociais de prestígio e exclusividade.
Esse processo contribuiu para que o Farol e o Pinheiro se tornassem centros irradiadores de práticas culturais legitimadas, associados a ideais de civilidade, distinção e prestígio. Ao longo do século XX, esses bairros se afirmaram como territórios simbólicos das classes dominantes, onde se construíram imaginários urbanos centrados na exclusividade e no pertencimento de determinados grupos sociais. A influência dessas elites permanece viva na memória coletiva da cidade, reiterando o papel estruturante que essas localidades desempenharam na definição das referências culturais, simbólicas e territoriais de Maceió.
Dessa forma, a análise da formação urbana de Maceió revela que os processos de expansão territorial, migração e organização social não apenas moldaram a configuração física da cidade, mas também estruturaram os sentidos simbólicos e culturais atribuídos a seus bairros. A dinâmica entre a planície litorânea-lagunar e o planalto da Jacutinga evidencia contrastes e interdependências marcados por desigualdades, mobilidades e permanências. Enquanto bairros como Bebedouro, Mutange e Bom Parto se constituíram como territórios populares de resistência, memória e intensa produção cultural, bairros como Farol e Pinheiro se tornaram espaços privilegiados de afirmação da elite local e de legitimação de modelos hegemônicos de urbanidade. Ainda assim, em todos esses territórios, o patrimônio imaterial segue como fio condutor das identidades coletivas e das formas de pertencimento, reafirmando que a cidade é construída tanto pelas grandes decisões institucionais quanto pelas práticas cotidianas e pelas expressões culturais dos sujeitos que a habitam.
Histórico - Linha do tempo
Data
Antes do século XVI
Marco temporal
Ocupação indígena pré-colonial
Descrição
Povos indígenas, especialmente os Caetés (tronco tupi), habitavam as margens das lagoas e áreas costeiras, com modos de vida associados à pesca, cerâmica e rituais religiosos.
Data
1609
Marco temporal
Primeira ocupação da colonização registrada
Descrição
Manoel Antônio Duro ocupa terras na Pajuçara após receber uma sesmaria de Diogo Soares, alcaide-mor de Santa Maria Madalena.
Data
Início do século XVIII
Marco temporal
Construção do Engenho Massayó
Descrição
Primeiro núcleo urbano da atual capital, localizado entre a lagoa e o mar. O nome “Maçai-ó-k” (o que tapa o alagadiço) deu origem ao nome Maceió.
Data
Meados do século XVIII
Marco temporal
Presença de populações negras na condição de escravizadas
Descrição
Intensifica-se a presença de pessoas negras escravizadas no território, especialmente nas atividades ligadas aos engenhos de açúcar, ao transporte de cargas e ao Porto de Jaraguá. Sua força de trabalho foi fundamental na construção da infraestrutura urbana e no desenvolvimento econômico da região, deixando marcas profundas e duradouras na formação social e cultural de Maceió.
Data
1808
Marco temporal
Abertura dos portos brasileiros ao comércio internacional
Descrição
Impulsiona o crescimento de Maceió como entreposto comercial, especialmente via o Porto de Jaraguá.
Data
1815
Marco temporal
Maceió é elevada à condição de Vila
Descrição
Desmembrando-se da antiga Vila de Alagoas do Sul (atual Marechal Deodoro), fortalecendo sua autonomia administrativa.
Data
1817
Marco temporal
Emancipação o território alagoano
Descrição
Alagoas separa-se de Pernambuco em 16 de setembro de 1817, tornando-se uma capitania independente. Essa separação foi oficializada por meio de um decreto assinado pelo Rei Dom João VI.
Data
1839
Marco temporal
Maceió torna-se capital da Província de Alagoas
Descrição
O status de capital consolida sua centralidade política e econômica da província.
Data
1877
Marco temporal
Grande seca e migração do interior
Descrição
A grande seca que atingiu o Nordeste em 1877 provocou intensos fluxos migratórios do agreste e do sertão alagoano em direção à capital. Muitos migrantes se estabeleceram nos bairros da planície lagunar, como Bebedouro, Mutange e Bom Parto, contribuindo para a expansão urbana e a constituição de territórios populares marcados por práticas culturais, modos de vida rurais e redes de solidariedade.
Data
Início do século XIX
Marco temporal
Início do Povoamento da região do Bebedouro
Descrição
A região de Bebedouro passou a ser ocupada inicialmente por populações populares, processo que gerou um adensamento populacional ao longo do tempo, e posteriormente também pela elite maceioense, atraída pela posição estratégica entre a lagoa.
Data
1845
Marco temporal
Início da ocupação da região do Bom Parto
Descrição
Primeiros registros de ocupação da região de Bom Parto, marcada pela presença de populações populares às margens da Lagoa Mundaú.
Data
Início do século XX
Marco temporal
Ascensão dos bairros altos
Descrição
Primeiros registros de ocupação da região do Alto do Farol, marcada pela presença da elite local em busca de áreas salubres, elevadas e com vistas privilegiadas.
Data
Meados do século XX
Marco temporal
Expansão urbana no planalto e formação do bairro do Pinheiro
Descrição
A partir da década de 1940, intensifica-se a ocupação do Alto do Farol com a pavimentação da Avenida Fernandes Lima, principal vetor de crescimento urbano na parte alta da cidade. Nesse contexto, o bairro do Pinheiro se consolida como desmembramento do Farol, impulsionado pela presença de equipamentos urbanos e pela fixação de famílias das classes médias e médias-altas.
Data
1970–1990
Marco temporal
Êxodo rural e reestruturação dos canaviais
Descrição
A partir dos anos 1970, o avanço da reestruturação produtiva nos canaviais alagoanos gerou a expulsão em massa de trabalhadores rurais, com expropriação de pequenos produtores e desestruturação dos antigos sistemas de moradia dos engenhos. Entre o final da década de 1970 e início dos anos 1990, intensificou-se a migração de famílias para Maceió e região metropolitana, contribuindo para o crescimento dos bairros populares e o aumento das desigualdades urbanas.
Data
2018
Marco temporal
Desastre tecnológico e início da desocupação compulsória dos bairros afetados
Descrição
Processo de subsidência do solo, provocado pela exploração de sal-gema realizada pela empresa Braskem, compromete a estabilidade geológica de bairros inteiros e leva à desocupação compulsória das áreas de Bebedouro, Mutange, Bom Parto, Pinheiro e parte do Farol.
Bioma
Vegetação
Descrição da vegetação
A área de interesse está inserida no Bioma Mata Atlântica e apresenta vegetação predominantemente composta pela Floresta Ombrófila Aberta (ou mata de transição), caracterizada por árvores mais espaçadas e um sub-bosque pouco denso. No entanto, a intensa ocupação urbana e as transformações no uso do solo no município de Maceió resultaram na significativa descaracterização da cobertura vegetal original, especialmente nos bairros Bebedouro, Bom Parto, Mutange, Pinheiro e Farol.
Segundo dados de 2018, os remanescentes vegetais nessa região totalizam cerca de 198,70 hectares, o que corresponde a aproximadamente 23,91% da área total dos bairros analisados. Esses fragmentos de vegetação estão distribuídos de forma isolada pelo espaço urbano, com exceção do setor oeste do bairro Bebedouro, que ainda preserva uma cobertura vegetal mais ampla.
A distribuição dessa vegetação remanescente varia significativamente entre os bairros. Bebedouro se destaca como o mais expressivo, com uma área de 145,2 hectares coberta por vegetação. Em contraste, os bairros Farol (26,35 ha), Mutange (15,69 ha) e Pinheiro (9,63 ha) apresentam cobertura vegetal bastante fragmentada e dispersa, ocorrendo pontualmente em vias e espaços públicos. O bairro Bom Parto possui a menor cobertura vegetal entre os analisados, com apenas 1,10 hectare – o que representa menos de 1% de sua área total.
Entre as espécies vegetais identificadas na região, destacam-se aquelas típicas de áreas alagadas, como a avenca (Cheilanthes radiata), a andaca (Commelina ludiflora), a aninga (Montrichardia linifera), o junco (Cyperus articulatus) e o piripiri (Cyperus giganteus). São também comuns as plantas aquáticas nativas da Laguna Mundaú e de seus canais, como a baronesa (Eichhornia crassipes), a alface-d’água (Pistia stratiotes) e a vitória-régia (Nymphea ampla). Outros exemplares presentes nos fragmentos vegetais incluem o araticum-do-brejo (Annona glabra), a erva-de-passarinho (Struthanthus syringifolius), o coentro-do-mato (Parthenium hysterophorus) e o mussambê (Tarenaya longicarpa), entre outras.
Embora não tenha sido possível aprofundar os estudos sobre as relações entre a vegetação local e a comunidade e seus bens culturais, é plausível supor que práticas culturais – especialmente aquelas associadas ao uso de plantas medicinais – seguem resistindo ao avanço da urbanização. Práticas fitoterápicas de cura popular, baseadas no conhecimento tradicional e transmitidas oralmente entre gerações, ainda fazem parte da vida cotidiana de muitos moradores, mantendo vivos os vínculos entre natureza e cultura.
Além disso, remanescentes de vegetação mais densa, ainda que raros, também foram historicamente utilizados por comunidades religiosas de matriz africana para a realização de seus rituais. A mata, nesses contextos, é entendida como espaço sagrado, de recolhimento e conexão com os orixás e encantados, onde ocorrem práticas como oferendas, banhos de ervas e cultos que expressam uma profunda relação espiritual com o ambiente natural.
Nesse contexto, os manguezais e as restingas às margens da Laguna Mundaú continuam desempenhando um papel relevante. Além de sua importância ecológica, esses ecossistemas fornecem recursos essenciais para atividades extrativistas, como a coleta de mariscos, e oferecem madeiras leves e resistentes utilizadas em pequenos ofícios. Sua presença contribui para a subsistência de comunidades locais e para a preservação de modos de vida tradicionais que expressam, de forma concreta, a relação entre o ambiente natural e a cultura popular.
Recursos hídricos e acesso à água
A cidade de Maceió está inserida em três regiões hidrográficas – Pratagy, Mundaú e o Complexo Estuarino-Lagunar Mundaú-Manguaba (CELMM) – que configuram uma paisagem marcada por uma rica rede de cursos d’água, exercendo forte influência sobre a vida e a organização das comunidades locais. Entre os recursos hídricos mais relevantes, destaca-se a Laguna Mundaú, integrante do CELMM, um sistema formado pelas lagoas Mundaú e Manguaba, canais, ilhas e áreas estuarinas. Esse complexo possui profundo valor simbólico, ambiental e cultural, especialmente para as comunidades ribeirinhas que vivem da pesca artesanal, da mariscagem e de práticas tradicionais ligadas ao cotidiano das águas.
Maceió abriga ainda oito bacias hidrográficas de importância: Riacho do Silva, Rio Jacarecica, Rio Meirim, Rio Mundaú, Rio Pratagy, Rio Reginaldo, Rio Santo Antônio e Rio Sapucaia. Esses cursos d’água atravessam diversos bairros da cidade, influenciando diretamente o modo de vida, a ocupação do território e as memórias coletivas das populações locais.
A Bacia do Riacho do Silva, com área de 10,13 km², destaca-se por abranger grande parte dos bairros mais afetados pela catástrofe tecnológica na cidade. Ela atravessa o Parque Municipal de Maceió e a Reserva Florestal do Ibama/AL, desaguando na Laguna Mundaú, no Porto do Sururu – um espaço de grande relevância sociocultural. Contudo, a bacia enfrenta sérios problemas ambientais, como a urbanização desordenada e ocupações irregulares, especialmente em suas margens e encostas.
Esses recursos hídricos, além de essenciais para o abastecimento e a saúde pública, carregam um profundo valor simbólico e cultural. Os territórios lagunares da região estão intimamente ligados a práticas tradicionais de pesca artesanal e mariscagem, que garantem a subsistência de muitas famílias e fortalecem os vínculos entre comunidade e natureza. Também sustentam uma intensa vida cultural e espiritual. As águas da Laguna Mundaú, por exemplo, são palco de celebrações religiosas marcantes, como a festa de São Pedro, que mobiliza a comunidade de Bebedouro em uma procissão terrestre e fluvial carregada de fé e tradição.
A laguna também acolhe manifestações populares emblemáticas, como a tradicional corrida de barcos entre as margens de Maceió e Coqueiro Seco. Esses territórios são ainda espaços de devoção e resistência, atravessados por religiões de matriz africana e por saberes tradicionais que orientam a relação das comunidades com o ambiente. São expressões vivas de modos de vida e de pertencimento historicamente construídos a partir da convivência com as águas.
Recursos minerais
O território de Maceió, capital de Alagoas, abriga um dos mais significativos depósitos de sal-gema do país – recurso mineral de grande relevância econômica para o estado. Formado majoritariamente por cloreto de sódio (NaCl) de alta pureza, o sal-gema ocorre em camadas subterrâneas profundas, entre 900 e 1160 metros, situadas sob áreas densamente povoadas da cidade. O sal-gema é usado na indústria química para a fabricação itens variados como: cloro, soda cáustica, ácido clorídrico, bicarbonato de sódio, indústrias de papel e celulose, vidro, sabão, detergente, pasta de dente. A exploração foi historicamente realizada pela Salgema Mineração Ltda. – atualmente Braskem S.A. – por meio da técnica de injeção de água para dissolver o sal-gema e posterior bombeamento da salmoura, dispensando etapas de beneficiamento.
Coordenadas geográficas do marco físico
Paisagem e meio ambiente
A paisagem, entendida como resultado da interação histórica entre o homem e a natureza, constitui-se em espaço de múltiplas dimensões: material, simbólica, cultural e social. Ela não se limita à soma de elementos físicos ou naturais, mas se realiza no modo como as sociedades produzem, transformam e atribuem sentidos ao território. Nesse processo, a geografia deixa de ser apenas um dado natural e passa a refletir a marca do trabalho humano, das formas de organização coletiva, das crenças e dos modos de vida.
As chamadas paisagens culturais expressam de forma exemplar essa articulação. São manifestações da convivência entre a humanidade e seu ambiente natural, nas quais se inscrevem tanto técnicas de manejo sustentável da terra quanto relações espirituais e simbólicas com os lugares. Elas revelam a evolução das sociedades e dos assentamentos humanos ao longo do tempo, mostrando como oportunidades e restrições do meio físico foram constantemente ressignificadas pelas dinâmicas sociais, econômicas e culturais.
Nessa perspectiva, a paisagem é simultaneamente herança e criação, um bem cultural que preserva a memória de processos históricos e que confere identidade a uma coletividade. (Unesco, 2025; IPHAN, 2025; ICOMOS Brasil, 2025)
No caso de Maceió, os bairros atingidos pela exploração de sal-gema evidenciam de forma trágica como essa interação entre sociedade e natureza pode ser transformada em ruptura. Até a emergência do desastre, a paisagem urbana desses territórios representava o resultado de um longo processo de adaptação e apropriação do espaço natural. Morros, laguna e áreas planas haviam sido incorporados à vida comunitária, dando suporte a ruas arborizadas, igrejas, escolas, praças, feiras e campos de futebol. Esses elementos não eram apenas recursos funcionais, mas marcos simbólicos que estruturavam as relações sociais, alimentavam práticas culturais e asseguravam a construção de memórias coletivas.
Esse espaço vivido se configurava, portanto, como uma paisagem cultural em pleno sentido: território no qual natureza, ambiente construído e práticas sociais se entrelaçavam, gerando identidades compartilhadas. Ali, a paisagem era referência cultural, pois traduzia o sentimento de pertencimento, articulava memórias e sustentava a sociabilidade cotidiana.
A exploração mineral em escala intensiva, ao comprometer a estabilidade geológica do subsolo, instaurou um processo abrupto de ruptura. A necessidade de desocupação compulsória desestruturou a vida comunitária e converteu a paisagem em signo de trauma. O que antes era símbolo de pertencimento transformou-se em geografia do vazio: casas abandonadas, ruas desertas, equipamentos públicos inutilizados e espaços interditados pela vigilância permanente. A paisagem passou a expressar não a vitalidade da vida social, mas a violência do deslocamento forçado e a perda das referências culturais que sustentavam o território.
A transição entre o “antes” e o “depois” torna-se, assim, reveladora das contradições entre diferentes formas de uso do território. De um lado, comunidades que, ao longo de décadas, moldaram modos de vida, práticas culturais e laços identitários em relação estreita com o ambiente natural e urbano. De outro, a lógica econômica predatória que instrumentalizou o espaço como recurso de exploração, desconsiderando os significados sociais, culturais e ambientais nele inscritos. Essa assimetria resultou em desterritorialização: não apenas o deslocamento físico das populações, mas a erosão de memórias, a interrupção de práticas culturais e a dissolução de vínculos identitários.
A análise do caso de Maceió permite compreender que a paisagem não deve ser reduzida a sua dimensão física. Ela é também espaço de significados, identidades e cultura. A destruição provocada pela exploração mineral ultrapassa os danos materiais e ambientais, atingindo a percepção social e simbólica do território. O que se perdeu não foi apenas o solo ou as edificações, mas um modo de vida, um conjunto de práticas sociais e culturais, uma memória coletiva que tinha na paisagem o seu suporte essencial.
Portanto, a passagem de uma paisagem de pertencimento para uma paisagem da perda impõe um desafio ético e político. Trata-se de reconhecer que a reparação não pode restringir-se a indenizações financeiras ou soluções técnicas, mas deve considerar a dimensão cultural e simbólica das perdas. A salvaguarda das paisagens culturais afetadas, ainda que parcialmente reconstruída na memória e na prática social, torna-se um imperativo para assegurar justiça territorial, reparar os vínculos rompidos e garantir que a memória das comunidades deslocadas continue a ser transmitida às gerações futuras.
Manejo tradicional do meio ambiente
O território que abrange a Lagoa Mundaú e seu entorno revela formas tradicionais de manejo do meio ambiente profundamente enraizadas na relação simbiótica entre as comunidades locais e os ecossistemas naturais. Essa convivência se manifesta tanto em práticas produtivas quanto em expressões culturais e religiosas que têm como base o conhecimento ancestral dos ciclos naturais.
Entre as práticas tradicionais de subsistência, destaca-se a pesca do sururu, principal recurso pesqueiro da região. Essa atividade é realizada por meio de mergulhos em apneia até o fundo da laguna, onde os pescadores recolhem manualmente o molusco em meio ao lodo. Trata-se de uma técnica transmitida de geração em geração, que requer conhecimento preciso das marés, do comportamento dos organismos aquáticos e dos períodos propícios para a coleta, demonstrando o saber empírico das comunidades sobre os ciclos ecológicos.
O modo de vida das populações tradicionais da região também é orientado por valores espirituais que conectam o uso do território à religiosidade afro-brasileira. No Candomblé e em outras religiões de matriz africana, os elementos naturais – como águas, matas e mangues – são compreendidos como moradas de divindades e entidades ancestrais. Essa visão sagrada da natureza orienta práticas de cuidado e respeito ambiental uma vez que a preservação desses espaços é compreendida como dever religioso.
Dentro desse contexto, a laguna Mundaú, os rios, os manguezais e as matas são espaços de realização de rituais, oferendas e obrigações espirituais. Além disso, esses ambientes fornecem insumos sagrados – como folhas, cascas, sementes e raízes – utilizados em banhos, curas e cerimônias. A coleta desses elementos segue um código de ética tradicional que respeita os ciclos naturais e promove sua renovação, expressando um manejo sustentável guiado por princípios culturais e espirituais.
Portanto, o manejo tradicional no território da Lagoa Mundaú não se limita à exploração de recursos naturais, mas envolve uma complexa rede de conhecimentos, crenças e práticas que aliam o uso do meio ambiente à sua proteção. Essas práticas comunitárias reforçam a identidade cultural local e oferecem importantes contribuições à conservação da biodiversidade e à sustentabilidade socioambiental.
Problemas que afetam o meio ambiente no território
Impacto de atividades econômicas e empreendimentos
Inicialmente estatizada, a Salgema foi privatizada em 1996, passando a se chamar Trikem. Em 2002, com a fusão com outras empresas, surgiu a Braskem S.A., atualmente controlada por uma associação entre a Petrobras e o Grupo Novonor. A empresa manteve a extração de sal-gema na região da Lagoa Mundaú, em Maceió, com foco na produção de dicloroetano (sal-gema) em sua unidade industrial no bairro Pontal da Barra. A exploração mineral, iniciada na década de 1970, foi responsável pela abertura de dezenas de poços em área urbana.
Apesar da relevância econômica da Braskem, uma das maiores arrecadadoras de ICMS do estado, a atividade extrativista passou a ser duramente contestada devido aos impactos ambientais, sociais e culturais que provocou. A partir de fevereiro de 2018, episódios de agravamento de danos estruturais nos imóveis e ruas atingiram bairros tradicionais como Pinheiro, Mutange, Farol, Bebedouro e Bom Parto. O chamado “caso Braskem” ganhou notoriedade após um tremor de terra sentido em março de 2018, seguido do surgimento de rachaduras em imóveis, fendas nas vias públicas e crateras inexplicáveis – especialmente no bairro Pinheiro.
Inicialmente atribuídos a causas como falhas no sistema de esgoto ou acomodação natural do solo, os danos foram investigados pelo Serviço Geológico do Brasil / Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (SGB/CPRM). Após um ano de estudos, com a participação de 52 pesquisadores, foi confirmada a responsabilidade da empresa Braskem S.A. O laudo apontou que a extração de sal-gema havia provocado a instabilidade subterrânea, classificando o fenômeno como subsidência do solo.
Os impactos foram profundos e devastadores. A remoção compulsória de mais de 60 mil pessoas desestruturou comunidades inteiras, rompendo vínculos afetivos, desfazendo redes de solidariedade e interrompendo abruptamente práticas culturais enraizadas no cotidiano. Essas práticas – transmitidas de geração em geração – constituem parte essencial do patrimônio imaterial dessas populações e sua interrupção comprometeu não apenas a vida material dos moradores, mas também a continuidade dos saberes, celebrações, formas de expressão e modos de viver forjados no território.
A desocupação forçada atingiu diretamente comunidades populares e tradicionais, incluindo grupos ligados à pesca artesanal e diversas expressões religiosas. Foram removidos paróquias, igrejas evangélicas, terreiros de religiões de matriz africana e espaços vinculados a religiões orientais, comprometendo referências simbólicas que sustentavam a vida coletiva. Essa ruptura não afetou apenas o cotidiano e os laços de convivência – trouxe prejuízos profundos à identidade cultural da região, historicamente construída sobre a pluralidade de saberes e modos de viver em estreita relação com o território.
Até abril de 2023, segundo a Defesa Civil Municipal, mais de 46 mil imóveis foram desocupados devido ao risco de afundamento do solo, afetando diretamente cerca de 60 mil pessoas. Ao todo, a Braskem operava 35 minas subterrâneas na região, entre ativas e inativas, distribuídas nos arredores de cinco bairros. Áreas de resguardo foram estabelecidas ao redor dessas estruturas, embora, até o momento, apenas a "mina 18" tenha colapsado, tendo como efeito visível a perturbação do espelho d’agua na laguna Mundaú, ocorrido em 10 de dezembro de 2023 (Rodrigues et. al., 2024). O caso configura um dos maiores desastres tecnológicos do país, provocando uma drástica redefinição dos limites urbanos, a remoção em massa da população e alterações profundas na paisagem, na organização social e no sentimento de pertencimento das comunidades atingidas.
A extração de sal-gema, portanto, não provocou apenas um colapso geológico e urbano. Ela atingiu em cheio o tecido cultural da cidade, afetando tradições, memórias e formas de sociabilidade historicamente construídas. Ao se elaborar o inventário cultural desses territórios, é indispensável reconhecer as perdas simbólicas, os deslocamentos forçados e a interrupção de práticas culturais que davam sentido à vida coletiva. A reparação não pode se restringir aos danos materiais. É fundamental que ela inclua, com dignidade, a reconstrução dos vínculos entre memória, cultura e território profundamente abalados pelo deslocamento forçado e pela desestruturação das comunidades.
Infraestrutura urbana
A infraestrutura urbana constitui a base material que sustenta o funcionamento das cidades e o bem-estar de suas populações. Trata-se de um conjunto integrado de serviços e sistemas indispensáveis à vida urbana, como redes de abastecimento de água, energia elétrica, gás, telefonia, coleta de lixo, drenagem pluvial, saneamento básico, transporte público (rodoviário, ferroviário, hidroviário e aeroviário), além de equipamentos coletivos voltados à saúde, educação, cultura, lazer e segurança. A presença, ausência ou precariedade desses elementos interfere diretamente nas condições de vida da população, nos níveis de desigualdade e nas possibilidades de desenvolvimento econômico e social dos territórios.
Considerando que o presente estudo se debruça sobre um território majoritariamente desocupado, Bebedouro, Bom Parto, Farol, Mutange e Pinheiro, em decorrência do processo de evacuação compulsória ainda em processo, a análise de indicadores relacionados às dimensões sociais como Necessidades Humanas Básicas (incluindo acesso à alimentação, moradia, segurança entre outras), Fundamentos do Bem-Estar (como condições de vida saudável e contato com a natureza) e Oportunidades (relativas ao respeito aos direitos individuais) foi inviabilizada.
Embora a infraestrutura urbana seja um elemento fundamental para a compreensão das dinâmicas territoriais e das condições de vida da população, este estudo optou por não aprofundar tal dimensão. Esta decisão se justifica, em primeiro lugar, pelo esvaziamento físico das áreas investigadas decorrente do processo de desocupação compulsória em razão do desastre ambiental. Além disso, o hiato temporal entre o início das evacuações e a realização deste levantamento dificultou a obtenção de informações que representassem com precisão o estado da infraestrutura no momento anterior à crise.
Cabe destacar que, embora os aspectos relacionados à infraestrutura sejam relevantes para uma análise mais abrangente da realidade socioeconômica do território, eles não constituem o foco central desta pesquisa. O objetivo principal aqui é oferecer uma abordagem panorâmica sobre os marcos legais e socioespaciais que moldaram – e, em certa medida, ainda moldam – as bordas da zona de desastre tecnológico analisada, com ênfase nos bens de natureza imaterial. Nesse sentido, optou-se por privilegiar a escuta e o registro das experiências, memórias e práticas simbólicas das comunidades afetadas, entendendo-as como dimensões essenciais para a construção de políticas públicas voltadas à reparação e à preservação da memória social desses territórios.
No caso de Maceió, especificamente nos bairros Bebedouro, Bom Parto, Farol, Mutange e Pinheiro, a infraestrutura urbana sempre se apresentou de forma desigual, revelando um padrão de ocupação marcado por profundas disparidades territoriais. Enquanto bairros como o Farol e o Pinheiro, situados em áreas de maior valorização fundiária, concentravam serviços urbanos mais estruturados – como pavimentação de vias, iluminação pública eficiente, transporte coletivo regular, acesso pleno a redes de água tratada, esgoto sanitário, internet e telefonia –, outras localidades, especialmente aquelas situadas na orla lagunar, como Bebedouro, Mutange e Bom Parto, conviviam com carências crônicas.
Outro aspecto relevante diz respeito à forte presença, nos bairros afetados, de comunidades populares classificadas pelo IBGE como favelas e áreas urbanas carentes – conhecidas em Maceió, de forma popular, como grotas. Essas grotas se localizam em formações geográficas típicas da cidade, como ravinas e vales sinuosos, que cortam as áreas mais elevadas do município – o chamado "tabuleiro" – e funcionam como calhas naturais para o escoamento das águas pluviais em direção à planície litorânea e lagunar. Por exercerem esse papel ambiental estratégico, constituem territórios sensíveis e fundamentais para o equilíbrio urbano da cidade.
Das 35 áreas identificadas com tais características, 17 estão localizadas dentro da área de desocupação, e já passaram (ou estão) por processo de demolição, por processo de demolição. Entre elas, destacam-se as comunidades: Alto do Céu, Área Vulnerabilizada da Ladeira Lopes Trovão, Área Vulnerabilizada do Mutange, Área Vulnerabilizada do Mutange II, Bela Vista, Bom Parto, Flexal de Baixo, Jardim Alagoas, Ladeira Lopes Trovão, Mutange, Travessa Santa Luzia, Vale do Mundaú, Comunidade Verde e Vila Santo Amaro. Além disso, as favelas também têm início no final da Rua Arnon de Melo, da Rua do Campo e da Rua José Moreira, junto à entrada da comunidade.
Essas comunidades, exceto as dos Flechais, foram submetidas a processos de demolição e remoção forçada, resultando na perda de moradias, de acesso a equipamentos coletivos, de vínculos comunitários e de modos de vida historicamente construídos. Tal processo não apenas aprofundou vulnerabilidades pré-existentes, mas também rompeu com trajetórias coletivas de vivência comunitária e organização social que moldavam o cotidiano e a identidade dessas localidades.
Em relação aos aspectos da saúde, os dados coletados indicam que, até o período de desocupação, o território dispunha de uma rede composta por unidades públicas e privadas de atendimento. Havia postos de saúde e unidades básicas sob gestão municipal e estadual, além de clínicas e consultórios particulares que ofereciam serviços de atenção primária e especializada. Entre os principais equipamentos, destacam-se o Hospital Sanatório e o Centro de Referência de Assistência Social (Cras) Bebedouro. O hospital, além de referência em saúde especializada, tinha forte valor simbólico para a população local e, em determinados momentos, serviu como espaço para ações comunitárias e culturais.
O Cras Bebedouro, por sua vez, também se consolidava como um importante ponto de articulação cultural, sendo frequentemente utilizado por grupos locais para ensaios, oficinas e apresentações artísticas. Ambos os equipamentos extrapolavam suas funções institucionais, o que fortalecia os vínculos sociais e culturais da região e desempenhava papel essencial no acesso à saúde e no cotidiano das comunidades.
Em relação aos aspectos educacionais, os dados coletados indicam que, até o período de desocupação, o território contava com uma rede diversificada de instituições de ensino, abrangendo tanto a esfera pública quanto a privada. Havia escolas municipais e estaduais responsáveis pela oferta da educação básica, além de estabelecimentos particulares que atendiam aos níveis fundamentais. Entre os principais equipamentos educacionais, destacam-se o Centro Educacional de Pesquisa Aplicada (Cepa), localizado no bairro Farol e reconhecido como um dos maiores complexos educacionais da América Latina, e a Escola Estadual Nossa Senhora do Bom Conselho, construída em 1870, no bairro Bebedouro, tombada como Patrimônio Histórico de Alagoas por seu valor cultural. Esses equipamentos, para além de suas funções pedagógicas, contribuíam significativamente para o fortalecimento dos vínculos comunitários e culturais no território. As escolas públicas, em especial, desempenhavam um papel ampliado, funcionando também como espaços de convivência, encontro e articulação social e reforçavam a integração entre educação, cultura e comunidade.
Em relação ao transporte, embora os bairros diretamente afetados pelo desastre estejam atualmente desocupados, parte das vias rodoviárias permanece transitável, permitindo, em algumas regiões, a circulação de veículos e a operação limitada de linhas de ônibus do transporte público. Antes da evacuação, o território era servido por uma malha viária que integrava os bairros entre si e os conectava a outras áreas da cidade, facilitando os deslocamentos cotidianos da população. Apesar das mudanças provocadas pelo processo de desocupação, a permanência de alguns trechos em funcionamento ainda garante um nível básico de mobilidade nos arredores da zona interditada.
Entretanto, os moradores que continuam vivendo nas áreas de borda enfrentam sérias dificuldades. A redução no número de linhas de ônibus, o aumento do tempo de deslocamento e a limitação no acesso a serviços essenciais tornaram o seu cotidiano ainda mais desafiador. Soma-se a isso a precariedade da infraestrutura urbana: calçadas estreitas ou inexistentes, pontos de ônibus com infraestrutura inadequada e falta de acessibilidade agravam o cenário e reforçam o isolamento de determinadas localidades.
No caso do transporte sobre trilhos, a circulação do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) se encontra suspensa desde 2020 nos trechos que atravessam os bairros atingidos pelo afundamento do solo causado pela mineração de sal-gema. Essa interrupção impactou diretamente a rotina de trabalhadores e moradores que dependiam desse meio de transporte para acessar escolas, serviços, empregos e o comércio. A descontinuidade do VLT, somada à cobertura desigual dos demais modais, contribuiu para ampliar a sensação de exclusão territorial e comprometeu ainda mais a mobilidade urbana no entorno da área afetada.
Em relação ao saneamento básico, os relatos de moradores que ainda vivem nas áreas de borda da zona afetada revelam uma situação de elevada vulnerabilidade marcada por dificuldades no acesso a serviços essenciais. Em muitos trechos, a infraestrutura de esgotamento sanitário é precária ou inexistente, assim como os sistemas de drenagem urbana e a manutenção das vias públicas. O abastecimento de água e energia é frequentemente instável e a coleta de lixo ocorre de maneira irregular, agravando ainda mais as condições de vida dessas populações. Essa carência estrutural reflete a ausência de políticas públicas efetivas voltadas à universalização do saneamento básico no território. Como consequência, práticas ambientalmente prejudiciais, como o despejo direto de resíduos na Laguna Mundaú, ainda são recorrentes e, por isso, comprometem a saúde coletiva e ampliam os riscos sanitários para a população residente.
As percepções da população afetada indicam que, mais do que perdas materiais, o afundamento do solo provocou uma profunda ruptura nos vínculos comunitários e na organização das redes cotidianas de apoio sustentadas pela convivência com equipamentos urbanos e espaços coletivos. A desativação de escolas, postos de saúde, mercados e, sobretudo, a perda de espaços de culto – como igrejas, terreiros e templos –, bem como de praças, campos de futebol, associações comunitárias e sedes de grupos culturais, impôs um impacto profundo à vida social tanto de quem permaneceu nas bordas da área afetada quanto daqueles que foram forçados a se deslocarem para outras regiões do município.
Entre os espaços mais significativos, destacam-se a Praça Lucena Maranhão, em Bebedouro; o Estádio do Mutange, no Mutange; a Igreja Nossa Senhora do Bom Parto, no bairro de mesmo nome; e a Igreja Batista do Pinheiro, no Pinheiro. Esses locais, para além de suas funções práticas, exerciam um papel central na construção de vínculos afetivos, identitários e coletivos, funcionando como pontos de encontro, sociabilidade e expressão cultural. Com sua ausência, aprofundou-se o sentimento de desenraizamento vivido por muitos ex-moradores – especialmente entre os que foram realocados para localidades distantes, dentro e fora de Alagoas –, comprometendo ainda mais a continuidade das relações comunitárias e das memórias partilhadas que davam forma ao cotidiano desses territórios.
A análise da infraestrutura urbana dos bairros afetados pelo afundamento do solo revela não apenas carências de infraestrutura, mas também desigualdades historicamente construídas e perpetuadas por políticas de planejamento urbano fragmentadas e excludentes. Com a migração forçada de milhares de pessoas para outras regiões da cidade – muitas delas já marcadas por vulnerabilidades sociais e déficits estruturais –, tornou-se evidente a necessidade de uma ação imediata por parte do poder público.
A sobrecarga dos serviços públicos nos bairros receptores da população deslocada, como saúde, educação, transporte, segurança e habitação, agravou desigualdades preexistentes e intensificou disputas por recursos limitados. Famílias passaram a conviver com a escassez de creches, a precariedade dos postos de saúde e a falta de moradias adequadas, o que ampliou a sensação de exclusão e insegurança.
Diante deste cenário, é urgente que o poder público local reveja suas estratégias de investimento e implemente políticas públicas integradas voltadas à requalificação dos bairros ou regiões receptoras. Isso inclui garantir infraestrutura de saneamento, ampliar a rede de serviços essenciais e promover ações de inclusão social que reconheçam o impacto do deslocamento compulsório.


















