
CENTRO NACIONAL DE REFERÊNCIA CULTURAL
Tecelagem Manual no Triângulo Mineiro
1976 – 1986
Uberlândia / Triângulo Mineiro

Tecelagem Manual no Triângulo Mineiro foi um projeto de pesquisa do antigo Centro Nacional de Referência Cultural (CNRC) dedicado ao estudo da tecelagem artesanal mineira.
Dentre as diferentes técnicas investigadas, a mais destacada pelo projeto foram os repassos, “receitas” têxteis transmitidas entre gerações por meio de um código próprio, que não depende da escrita tradicional ou oralidade.
Para facilitar o registro, comunicação e devolução às tecedeiras, o projeto adotou profundamente os recursos tecnológicos da época. Além de fotografia e vídeo, a programação aparece como recurso essencial da pesquisa, em um interessante exemplo de integração entre cultura e tecnologia.
Entre 1976 a 1979:
Centro Nacional de Referência Cultural
Entre 1980 a 1986:
Fundação Nacional pró-Memória
Proposta
Edmar de Almeida
Xavier Maureau
Coordenação:
Xavier Maureau
Tereza de Almeida
Maria Cecília Londres
Glória Altafim
Pesquisadores
Xavier Maureau
Tereza de Almeida
Maria Cecília Londres
Glória Altafim
Werner Streitwieser
Ezequias Heringer
Ferramentas, técnicas e materiais: conheça os itens da coleção


A região do Triângulo Mineiro foi escolhida como local principal de pesquisa devido ao interesse do CNRC em investigar as diferentes motivações para tecer, como consumo próprio, encomenda
ou venda de produtos artesanais, todas práticas presentes
na região.
Além disso, já existia um núcleo dedicado à pesquisa sobre tecelagem no local, coordenado pelo artista plástico Edmar de Almeida, o que facilitava o contato com as tecelãs.
Antes do tecer
Fiação
A escolha do tipo de fibra que será tecida afeta fatores como preço, facilidade em tecer, cor do produto e maciez.
Na época em que foi realizada a pesquisa, produzir os fios a partir de fibras naturais era uma prática comum e mais barata que o uso de fios industrializados. Esse trabalho podia ser realizado pela própria tecedeira ou por uma fiandeira, artesã dedicada à produção de fios.
Mais sobre o processo de fiação →Fibras brutas
Materiais naturais eram transformados artesanalmente em fios pelas tecedeiras e fiandeiras.

Fios e retalhos industriais
Eram comprados pelas tecedeiras ou seus clientes. Embora mais caros, cresciam em popularidade na época da pesquisa.

Material recuperado
Tecidos antigos ou sobras de outros trabalhos eram cortados e reaproveitados.

Tingimento
Seja produzido artesanalmente ou adquirido pronto, o conjunto de fios (chamado de meada) pode ser tingido por meio de diferentes técnicas.
Durante o período da pesquisa, as artesãs da região utilizavam uma variedade de corantes, tanto naturais quanto artificiais.
A seguir, vamos conhecer um pouco mais sobre o processo de coloração da meada com cores primárias.

Quaresminha
A quaresminha é um semi arbusto que cresce em terrenos alagados. Em um tacho de cobre, camadas de seus ramos são intercaladas com a meada em um banho quente.
A quantidade de folhas, número de camadas e tipo de enxágue modifica o tom obtido.
Anilim
Anilim é um semi arbusto de folhas secas. Para produzir o corante azul, suas folhas são curadas em processo contínuo de banho e mistura, até obter um líquido espesso e esverdeado.
A meada é deixada de molho na mistura por uma noite para obter a primeira coloração azul. Quanto maior a quantidade de banhos, mais intenso será o tom.
Sangra d’água
A sangra d’água é uma árvore brejeira que chega a 8 metros de altura. Sua sobrecasca é triturada e fervida para obter a tintura vermelha, que banha a meada.
Quanto maior a quantidade da casca utilizada, mais intensa ficará a cor.

Além de rica em padrões, a tecelagem mineira apresenta cores em seus fios, contrastando com o branco ou bege natural das fibras.
Embora tenhamos abordado os processos naturais mais utilizados, você pode saber mais sobre esse elemento da pesquisa no repositório do projeto.
Saiba mais sobre tingimento →Tecendo
Com os fios prontos e coloridos, chega a hora de tecer!
FERRAMENTA
Tear de quatro pedais
O tear é a ferramenta principal para a tecelagem. Embora existam muitos tipos, o mais comum utilizado no Triângulo Mineiro na década de 1970 era o tear de quatro pedais, representado ao lado.
Na época da pesquisa, os teares eram adquiridos principalmente por meio de herança ou compra de segunda mão, visto que a fabricação desses grandes instrumentos por marceneiros era cada vez menos comum.

Técnicas de tecelagem
Repassos
Os repassos foram a principal técnica de tecelagem pesquisada pelo CNRC.
Trata-se de um código escrito em partitura, que indica tanto a ordem de passagem dos fios de urdume nas folhas de liço quanto a pedalagem do tear.

Acervo CNRC – Arquivo Central do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Projeto Tecelagem Manual no Triângulo Mineiro.
Imagem 240.
Para entender o funcionamento dos repassos, precisamos ter uma visão geral do processo de tecelagem.
Na animação ao lado, destacamos os passos essenciais para tecer e como os repassos são aplicados.
Cada código repasso (partitura) gera um padrão gráfico diferente no tecido.
Tanto o código quanto o produto visual recebem o mesmo nome.



Acervo CNRC – Arquivo Central do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Projeto Tecelagem Manual no Triângulo Mineiro.
Imagem 257.

Acervo CNRC – Arquivo Central do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Projeto Tecelagem Manual no Triângulo Mineiro.
Imagem 253.

Acervo CNRC – Arquivo Central do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Projeto Tecelagem Manual no Triângulo Mineiro.
Imagem 246.

Acervo CNRC – Arquivo Central do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Projeto Tecelagem Manual no Triângulo Mineiro.
Imagem 244.

Acervo CNRC – Arquivo Central do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Projeto Tecelagem Manual no Triângulo Mineiro.
Imagem 256.
Foi justamente para registrar a exuberância desses padrões que a tecnologia se fez presente.
Com o apoio da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e do Prof. Werner Streitwieser, foram desenvolvidos dois programas digitais: um responsável por imprimir os padrões visuais de cada repasso e outro com a capacidade de identificar diferenças entre repassos muito semelhantes.
Com a impressão por computador dos repassos, foi possível ter um registro visual de todos os padrões encontrados, sem sobrecarregar as tecedeiras com a produção de amostras.

Acervo CNRC – Arquivo Central do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Projeto Tecelagem Manual no Triângulo Mineiro.

Imagem do livro “Tecelagem Manual no Triângulo Mineiro: uma abordagem tecnológica”, 1984.
Página 170.

Imagem do livro “Tecelagem Manual no Triângulo Mineiro: uma abordagem tecnológica”, 1984.
Página 154.

Imagem do livro “Tecelagem Manual no Triângulo Mineiro: uma abordagem tecnológica”, 1984.
Página 166.

Imagem do livro “Tecelagem Manual no Triângulo Mineiro: uma abordagem tecnológica”, 1984.
Página 159.
Outras técnicas
Além dos repassos, os pesquisadores do CNRC identificaram outras três técnicas de tecelagem no Triângulo Mineiro que também utilizavam o tear de quatro pedais.
Passagem liso
Uma única passagem do urdume nos liços (a “passagem liso”) é utilizada com diferentes sequências de pedalagem.
Saiba mais →
Padrões compostos
Obtidos pela combinação entre a passagem liso, os repassos e outras técnicas de tecelagem.
Saiba mais →

Devolutiva
Ao final do projeto “Tecelagem Manual no Triângulo Mineiro”, diferentes materiais de comunicação foram produzidos, além de um catálogo especialmente criado para as tecedeiras.

Catálogo de repassos (1984)

Tecelagem Manual no Triângulo Mineiro: uma abordagem tecnológica (1984)

Tecelagem Manual no Triângulo Mineiro (1984)

Tecelagem Manual no Triângulo Mineiro: uma política sistemática de inventário tecnológico (1986)
Principal objeto de devolutiva social da pesquisa, o catálogo reunia todos os mais de 300 repassos registrados pelo CNRC, apresentando seu código e padrão resultante. Cópias impressas foram distribuídas entre as tecedeiras da região, aumentando seu repertório.
Além de conter os resultados de pesquisa sobre técnicas de fiação, tingimento e tecelagem estudados, a obra analisava o contexto social das tecedeiras, sendo finalizada com o conjunto de repassos impressos por computador recolhido pelo CNRC.
Documentação audiovisual que apresenta as principais técnicas de produção da tecelagem mineira com narração das próprias tecedeiras.
Publicado na revista do IPHAN, o texto narra o processo geral de pesquisa, passando pelos desafios no registro e no estudo sociológico da tecelagem.
Atualidade
A tecelagem abordada pelo projeto ainda é praticada no Sudeste e Centro-Oeste do país, com destaque para Minas Gerais.
Em Uberlândia, o Centro de Tecelagem Fios do Cerrado é um dos maiores pontos de referência dessa prática. Fundado por Edmar de Almeida em 1992, o local emprega artesãos locais na produção de objetos decorativos e sob encomenda, gerando renda local pela venda turística e até mesmo em projetos arquitetônicos.
Visite o Centro de Tecelagem
Av. Francisco Galassi, 855 –
Morada da Colina, Uberlândia – MG, 38411-120
Aberto de segunda à sexta,
das 07h às 16h.


