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Projeto relacionado
Categoria de bem cultural
Descrição
características gerais
área de mata preservada em meio a campos nativos tendo aproximadamente mil hectares de floresta em duas grandes
manchas de concentração de espécies nativas maduras, localizada entre as coordenadas 28º27’30’’ e 28º31’30’’ de
latitude sul e 54º33’45’’ e 54º39’15’’ longitude oeste, nas nascentes de córregos formadores do arroio santa bárbara
(para sul), próximo ao divisor de águas com os formadores do arroio urucuá (para norte), sendo trespassada pela
estrada que faz a ligação interior e mais curta entre a cidade de são miguel e o povoado de são lourenço, distando
poucos quilômetros desta cidade no caminho que unia estes que foram dois dos sete povos das missões. a
designação mata são lourenço advém de sua proximidade geográfica com o local deste antigo povoado.
trata-se de um patrimônio natural que exige proteção ambiental, por ser nascente de mananciais e por apresentar
núcleo de mata primária nativa da região, relicto de floresta classificada como “missioneira”, sendo unidade ambiental
parte da chamada selva missioneira na argentina e de selva central no paraguai. no brasil, ela está classificada como
floresta estacional decídua e faz parte do grupo de florestas subtropicais da américa do sul. no caso dos dois
primeiros países, este tipo de floresta é considerado como a de maior biodiversidade e de maior complexidade
ecológica, sendo superado no brasil apenas pelas florestas amazônica e atlântica nestes quesitos.
mata são lourenço faz parte de um tipo de floresta que tem sua distribuição entre os paralelos 19º e 30º de latitude sul
e entre o meridiano 57º de longitude oeste e o litoral atlântico. segundo a classificação da vegetação brasileira
adaptada ao sistema universal, esse tipo de vegetação é caracterizado por duas estações climáticas bem
demarcadas, uma chuvosa seguida de um longo período de estiagem nas regiões tropicais do interior do continente.
segundo coloca o eng. florestal luis cláudio da silva sobre as floretas missioneiras: “[...] sua ocorrência se dá na
forma de disjunções florestais, apresentando um estrato dominante macro ou mesomanerofítico predominantemente
caducifólio, com mais de cinqüenta por cento dos indivíduos que perdem a folhagem. na região subtropical, no planalto
das missões no rio grande do sul e argentina, apresenta características semelhantes de caducifólia, possuindo uma
homologia ecológica. nesta área, o período frio abaixo de 15ºc que ocorre variando entre maio e setembro provoca a
estacionalidade fisiológica dos indivíduos da floresta que coincide com a seca das áreas tropicais. via de regras, essas
disjunções florestais decíduas, tanto nas áreas tropicais como subtropicais, são dominadas pelos mesmos gêneros de
origem afro-amazônica dos quais se destacam pelthophorum, apuleia, anadenanthera e parapiptdadenia, embora
suas espécies sejam diferentes”.
mata são lourenço reproduz a característica das florestas missioneiras, por sua ocorrência circundada por campos
nativos, já que no vale do rio uruguai ocorre o que os especialistas consideram área de transição entre a floresta
ombrófila mista (floresta de araucária) a leste e a estepe (campos gaúchos) a sul. sua riqueza em espécies está
diretamente relacionada a sua altitude em relação ao nível do mar e sua ocorrência ecológica deriva do avanço das
florestas galeria que forma corredores ecológicos pelos arroios santa bárbara e urucuá em direção aos rios piratini e
ijuí e, de lá, até o rio uruguai. mata são lourenço tem a configuração de um imenso “capão” de mato, palavra que é
derivada da expressão guarani “kaapa’u”, ilha de bosque no meio do campo, embora ela esteja ligada através da mata
ciliar do rio santa bárbara até as matas das margens do rio piratini.
como as demais florestas missioneiras, a mata são lourenço é dominada pelas leguminosas, lauráceas, mirtáceas
e meliáceas, sendo formada por árvores de 20 a 30 metros de altura, com estratos de árvores menores e manchas de
sub-bosque denso de bambus dos gêneros gaduan, chusquea, merostachys ou por arvoretas, ervas umbrófilas,
lianas e epífitas. há uma variação em ocorrência e densidade de mais de cinqüenta espécies, de maneira que é difícil
definir uma espécie como predominante.
mata são lourenço é o nome atual de kaaguy miri, da “mata pequena”, lugar onde houve a tekoá de carlito poku,
índio mbyá-guarani que veio da argentina na década de 1940 e que manteve assentamento no local até a década de
1970. a tekoá kaaguy miri existiu durante décadas na mata são lourenço e ainda existem pessoas vivas que
habitaram o local com o referido patriarca. ali eles construíram oó (casas tradicionais) e opy (casas de reza), fizeram
kokué (roçado) e mundé (armadilhas de caça) e pari.
a presença dos mbyá em mata são lourenço não deve ser entendida como aleatória ou casual. a referida área fazia
parte do espaço ocupacional dos antigos guarani, principalmente durante a vigência das missões jesuíticas. esta
afirmação é fundamentada em evidências materiais, pois os arqueólogos já fizeram o registro como sítio arqueológico
do local contendo vestígios e fundações de uma antiga capela missioneira e de estruturas correlatas dento da referida
mata, ocorrência que precisa da salvaguarda por estabelecer ligação inconteste com as referências culturais dos
mbyá-guarani. assim, mata são lourenço é unidade que fazia parte da rota de circulação dos guarani entre são
miguel, são lourenço, caaró e em direção a norte pelo vale do rio urucuá até o rio ijuí. essa referência territorial
permaneceu e foi retomada por carlito poku no século xx, talvez mesmo porque ela nunca tendo deixado de existir.
na metade da década de 1990, negociações estabelecidas entre a então direção do museu das missões e o
proprietário da área em questão viabilizaram o acesso eventual dos mbyá ao interior da mata são lourenço, onde
puderam recolher matérias-primas (taquara, cipó-guembé, cerne de guajuvira etc.) e lenha para abastecer sua aldeia
localizada no parque da fonte jesuítica, na cidade de são miguel. desta forma, eles re-estabeleceram vínculo com a
referida área, algo interrompido depois que eles foram assentados na reserva indígena do inhacapetum em 2001.

