Informações
Projeto relacionado
Nome completo
Roxo.
História de vida
A origem das técnicas dominadas por moisés é identificada por ele como européia e sua atividade na área de restauro faz com que domine a história de algumas destas técnicas aplicadas em bens imóveis tombados, como é o caso do telhado. Assim, nos relata: “as primeiras tesouras existentes no brasil são as chamadas tesouras canga de porco. Ela tinha uma boca de lobo na extremidade dela e em cima tem uma cruzeta onde encaixa a cumeeira. Veja só, se o frechal estiver aqui, quando este telhado e esta cumeeira pega carga, a tendência é jogar as paredes para o lado despencando tudo. Quem desenvolveu este tipo de tesoura foram os carpinteiros navais portugueses, holandeses porque precisavam fazer casas na colônia, etc... Agora, se você inverter uma tesoura como essa vai parecer um cavernão de um navio. Para um navio funciona bem porque por fora é comprimido pela água. Mas, para telhado, não questionário de identificação: ofícios e modos de fazer pe pe re 10 q60 26 funciona. Este tipo de tesoura derrubou muito telhado. Se eu fizer um encaibramento todo assim eu estou fazendo uma expulsão do frechal para dentro. Como o frechal encaixa dentro da parede vai fazer o mesmo trabalho que a canga de porco: vai jogar para fora o frechal com parede e tudo. Seria mesmo que ter várias tesouras canga de porco seguidas só que em menor dimensão porque o caibro tem menor dimensão. Ai, inventaram a tesoura canga de porco de linha baixa e de linha alta servindo como atirantamento para não arreganhar. Fizeram uma peça com este encaixe de linha baixa que também não adiantou. Aí resolveram fazer um diamante, já tiraram a boca de lobo de cima dos frechais e resolveram fazer um diamante, uma espiga, ali está vendo. A tesoura na basílica de penha, aspa de santo andré, eu nunca vi uma tesoura com tanta perfeição. Ela é toda cravada”.
Localização
Aprendizado do bem
Moisés floriano aprendeu com seu pai, josé floriano de arruda filho, o trabalho com madeira. Relata que seu avô era agricultor e que seu pai, não querendo seguir esta profissão, trabalhava em usinas de cana de açúcar com carpintaria. Moisés relata sobre o seu pai: “quando meu pai se casou com minha mãe e foi morar em olinda, conseguiu um trabalho de carpinteiro na fundação de olinda, no centro de preservação. Em tudo que é obra dentro de olinda, do sítio, do patrimônio histórico, meu pai trabalhou: igreja do carmo de olinda, igreja da misericórdia, igreja do amparo, igreja da sé, palácio dos governadores de olinda, o antigo cine bajara. Meu pai quase só trabalhou em obra de restauro. Em todas as obras de restauro em carpintaria, o meu pai trabalhou e eu ia muito nelas. Na época tinha uma história de levar o almoço: ‘vai levar o almoço para o seu pai’ – assim, todo dia eu estava dentro das obras. Eu tinha que voltar cedo por causa da escola. Eu levava o almoço e ele não queria que eu ficasse muito por dentro por causa das máquinas – são máquinas perigosas. Mas, ainda assim eu levava uns pedaços de madeira para casa, para ir treinando. Uma coisa que eu achei muito importante: as ferramentas. Muito antes de me interessar pela área da carpintaria, eu já tinha as ferramentas que era meu pai que me dava. Quando ele comprava uma para ele, ele comprava uma para mim. ‘aqui, uma para você’ – ele dizia , era uma plaina, ele comprava uma para ele e uma para mim. Comprar formão, era um formão para ele e outro para mim. Então, quando eu comecei a me dedicar mais para este lado, eu já tinha todas as ferramentas da carpintaria. Meu pai tinha o vício de chegar no trabalho duas horas antes. Ali, ele fazia um cafezinho em um fogareiro de álcool. Tomava o café e afiava as ferramentas. No final de semana, ele levava muita ferramenta para casa para afiar. Então, ele tinha uma pedra de afiar. Ele começava a afiar e me chamava. Ele tinha a mania de me chamar de sargento: ‘sargento, amola ai esta ferramenta’. Eu já estava por dentro de tudo. Mesmo antes de começar a trabalhar com carpintaria, eu já afiava ferramenta. Eu via a necessidade que ele tinha de ferramenta afiada. Se não tivesse afiada, ele não trabalhava. E outras ferramentas que com o passar do tempo, a gente tem de confeccionar e isso vai da necessidade do trabalho. Muitas das ferramentas das técnicas tradicionais são confeccionadas pelo profissional”. Sobre o processo de aprendizado de sua família, roxo detalha: “meu pai começou a levar paulo com ele para o trabalho. Paulo é o filho mais velho e foi o primeiro a aprender a carpintaria com meu pai. Depois, levou arruda que também aprendeu o trabalho com meu pai. Entre arruda e paulo, havia outro filho que era tecelão, o reginaldo que trabalhou pouco tempo com pai. Entre eu e reginaldo, tem três mulheres – elas não aprenderam nada de carpintaria e marcenaria. éramos quatro homens, mas reginaldo tinha problemas cardíacos e faleceu. O três restantes somos voltados para a área da carpintaria. Quem teve mais tempo com pai foi arruda e paulo. Eu via mais durante os finais de semana em que fazia trabalhos em casa e eu ficava por ali, junto dele... Até pedia uma peça para fazer com resto de madeira, mas ele me dizia que eu não ia fazer com resto de madeira. Dizia que eu ia fazer com madeira nova e que era para fazer bem. Eu fiz uma peça simples, mas tive uma grande satisfação de fazer igual as que pai fazia. Assim eu fui pegando amor ao trabalho com madeira”. Sobre sua história de aprendizado com o pai, roxo relata: “eu comecei mesmo a trabalhar com meu pai com uns 15 anos. Foi um trabalho em olinda, em casa caiada, a gente fez uma varanda de uma galeria. Nós passamos um mês. Ela era uma obra moderna, mas, tinha muito detalhe em madeira. Em seguida, fomos para a igreja de santa tereza em olinda. Mas, lá não foi feito restauro em telhado. O nosso trabalho era uma subcobertura, como a gente está fazendo aqui só para o pessoal trabalhar embaixo, para não chover e não cair nada dentro do bem”. Questionário de identificação: ofícios e modos de fazer pe pe re 10 q60 26 em seguida, relata: “meu pai resolveu se mudar de olinda e foi para igarassú, mas não gostou de igarassú. Morou pouco tempo lá. E se abusou [se cansou] de igarassú e de carpintaria também. Ai, ele foi morar em caruaru e quis ser comerciante. Em caruaru, eu comecei a trabalhar em uma empresa de ônibus como carpinteiro. E o dono da empresa era deputado e me levou para salvador, bahia. Eu continuei trabalhando nesta empresa até ir para paraíba ainda trabalhando como carpinteiro, com meu irmão arruda. Meu irmão arruda me ensinou a ler um projeto, as escalas, estas coisas... Isso eles queriam um carpinteiro na ilha de costinha para restaurar um patrimônio. Ai foi quando pai voltou para recife e pegou o trabalho na ilha junto com paulo , eu e arruda ficamos no centro de joão pessoa paraíba na igreja do carmo e depois a ordem terceira do carmo”. Neste período, roxo recebeu sua classificação profissional em carteira de trabalho: “eu tinha dezessete anos quando trabalhei de servente durante uma semana, eu fui fazer este trabalho na paraíba, na igreja do carmo em joão pessoa. Estavam precisando de um carpinteiro e como eu tinha todas as minhas ferramentas por lá, o engenheiro me colocou para fazer o trabalho. Ele me perguntou se eu conseguia, eu disse ‘vamos ver’. Eu fiz. Ele me disse que eu não era ajudante e que ia me classificar. Na minha carteira profissional, tem somente uma semana como auxiliar. Na segunda semana já foi como profissional. Ele colocou carpinteiro. Todo o pessoal que trabalhou comigo nesta época ficaram lá e acabaram que passaram para o quadro do iphan – instituto do patrimônio histórico e artístico nacional – na paraíba, joão pessoa. Eu não sabia, estava com saudade da família e voltei para pernambuco”. Assim, roxo relata: “eu fui trabalhar de novo para o mesmo deputado em salvador, bahia. Com este deputado não era restauro. Era construção de casa de madeira e mobiliário. Daí eu voltei para caruaru e voltei para a empresa de ônibus do deputado para aumentar umas casas”. Moisés ressalta, entretanto, que em sua história de vida passou um período sem trabalhar como marceneiro e carpinteiro: “é uma profissão que não é muito reconhecida. Eu até mesmo desisti, durante um tempo, de trabalhar com carpintaria. é um trabalho prazeroso e sinto amor pelo que eu faço, mas, por mais que se saiba trabalhar é uma profissão que não tem valor. (...) eu tinha desistido de trabalhar com carpintaria porque não estava valendo a pena. Eu me abusei de trabalhar com madeira, uma destas vezes que eu fui para caruaru fui trabalhar em uma concessionária com ferramentaria. O cara já me colocou como encarregado pela ferramentaria. Eu desenrolei e trabalhei um ano por lá. Eu saí porque queria. Ai fui trabalhar de costureiro industrial. Eu fazia calça jeans. Trabalhei em uma das maiores industrias de confecção de caruaru. Tinha de fazer um curso pelo senai [serviço nacional de aprendizagem industrial] e fiz este curso de quinze dias. Eu estava parado e me colocaram para trabalhar na sabra mush, eu estava abusado de trabalhar em madeira. Abusei de costurar, voltei para recife e vim trabalhar com madeira de novo. Não tem para onde fugir. Você é carpinteiro, pode abrir o maior comércio do mundo que você volta para a madeira. é prazeroso você fazer uma peça encaixar todinha com a madeira limpa e as pessoas ficarem olhando. Ficarem admiradas e perguntarem quem foi que fez. Dizer ‘fui eu’ e as pessoas ficarem admiradas. é muito bom”. Retornando para a região metropolitana de recife, moisés relata seu trabalho como carpinteiro e marceneiro em obras de restauro: “com vinte anos mais ou menos, eu comecei um trabalho de restauro na igreja do carmo em recife, eu confeccionei as esquadrias todas. Eu trabalhei com meu pai lá. Eu não passei um ano por lá. Porque tinoco me colocou um preço bom para eu ir para penedo, alagoas, trabalhar na igreja nossa senhora das correntes. Em recife, tinoco [o arquiteto jorge tinoco, dono da tinoco obras] já me conhecia e nunca deixou de me dar trabalho. Sempre que tinha trabalho em madeira me chamava. Tinoco é uma pessoa que eu tenho muito respeito, é como se fosse meu pai. Arenga nos trabalhos, eu digo uma coisa ele diz outra... Teimosia, né? (...) passei uns oito meses por lá. Voltei e fui para a igreja do carmo de recife de novo – pai continuava lá. Ai apareceram outras obras, como o teatro de santa isabel e alguns trabalhos modernos também, como o teatro da universidade federal do recife. Eu fiz o palco e todos os desdobramentos de trabalho e já tinha uns vinte dois anos. Passou um ano teve um incêndio no teatro da universidade e tive que fazer tudo de novo”. Já com vinte e três para vinte e quatro anos, moises relata: “eu fui trabalhar no convento são francisco de igarassú, tinha uma equipe grande de portugueses, espanhóis, franceses e italianos. Esta equipe chamou a gente para trabalhar também: fizemos balaustre, cinefa, cimalha... Você sabe que os bons eram para eles e os ruins eram para a gente. A gente queria mostrar para eles que a gente sabia também. Os espanhóis não, mas os portugueses eram murrinhas. Só que os caras eram bons. Tinham ferramenta para tudo. Se eles quisessem tirar esta mesa daqui, vinha carpinteiro para calcular o peso desta mesa, vinha um que trabalhava com louça, outro que trabalhava com botânica. Eles se juntavam para discutir, eles perdiam meio dia debatendo sobre uma mesa desta. Agora, quando resolvia, ia cada um para o seu lado e todos faziam os trabalhos muito rápido. Já ia tudo certinho. Eles não mexiam em nada sem uma conversa para saber quem ia fazer o quê. Eles são muito organizados e muito profissionais”. Em seguida, relata: “de lá, eu nem me lembro direito. Eu fiz tanta obra. Acho que foi para rosália, uma restauradora que trabalhava no iphan. Ela me pediu para fazer um altar de são cosme e damião para ela. Depois, fiz engenho monjope. Este foi o último trabalho que fiz com meu pai há uns dez anos. (...) depois, eu fiz a coberta, esquadria, forro... Da sede da antiga fundarpe [fundação do patrimônio histórico e artístico de pernambuco], uma mansão, que fica no benfica em recife. Em seguida, eu fui para a madre de deus e em seguida, eu fiz sítio de trindade, o forte de sete pontas, mosteiro de são bento e a basílica da penha – ai eu estava trabalhando para tinoco no ceci [centro de estudos avançados da conservação questionário de identificação: ofícios e modos de fazer pe pe re 10 q60 26 integrada] e fiz a coberta da basílica – e a assembléia legislativa de recife para a driare”. Moisés ainda trabalhou um ano para uma madeireira realizando todos os trabalhos em madeira para o hotel bueno. Sobre a sua relação de trabalho com paulo, seu irmão mais velho, relata: “paulo é o seguinte: ele não quer responsabilidade em cima dele. Ele quer que eu faça o acerto e assuma a responsabilidade. Ali ele vai trabalhar como carpinteiro e vai trabalhar no dia que quer. Se perguntarem por ele, eu é que tenho arcar com as conseqüências. Um dia ele me disse que eu era muito preocupado e me chamou de otário. Eu disse para ele que ia fazer o quê? E mãe? E minha a mulher e meu menino, como ficam?’”. Sobre a sua relação de trabalho com arruda, relata: “com o arruda, a gente trabalha junto também. Na basílica da penha mesmo, a gente trabalhou junto. Arruda estava trabalhando com um cara que estava maltratando ele. O cara fazia pagamento sexta feira a tarde com um cheque. Eu cobria as coisas para ele. Um dia ele me ligou dizendo que não estava agüentando mais. Paulo estava comigo lá, mas ele matou as duas pernas de tesoura, ficou com vergonha e não apareceu mais. Eu chamei ele para trabalhar comigo lá. A gente dividiu o telhado. Eu disse que um lado era todo meu e o outro era dele. Disse para ele sentar o pau. Só que o lado que eu dei a ele era melhor, e ele passou na minha frente. Tinoco até me disse: ‘mas, rapaz... Você pega o serviço e dá a carga ao seu irmão’. Eu disse ao tinoco: ‘doutor, madeira é uma caixa de surpresa. Deixe ele ganhar o dinheiro dele que eu vou mordendo pelas beiradas e quando der para eu dar uma corrida, eu corro’. No fim, a gente acabou junto”. Sobre seu trabalho atualmente, relata: “então, esta empresa atual, a concrepox me convidou para ir olhar um trabalho. Eu fui e eles gostaram do meu trabalho, fiz um primeiro trabalho para eles, eles gostaram tanto que hoje, eu sou exclusivo – não posso pegar trabalho fora. Uma causa é que hoje eu não tenho tempo e fica difícil. Atualmente, estou fazendo o restauro do engenho massangana em ipojuca [pernambuco], o restauro do telhado da capela e da casa grande. (...) nunca passei muito tempo sem trabalho”. Sobre a sua especialização em alguma área do trabalho em madeira, moises relata: “eu trabalhei em muitas empresas como carpinteiro, marceneiro também. Mas, a carpintaria é a que eu me dedico mais. Eu gosto mais de carpintaria. Como carpinteiro, eu trabalho em cobertura, estrutura e assoalhos. [especialização] eu acho que é por tradição e isso existe muito no sul. Lá, tem o pedreiro de acabamento, tem o pedreiro de massa e de reboco, aqui [em pernambuco] não tem. Eu acho que se o cara é carpinteiro, ele coloca uma porta, ele faz um armário... Ele faz tudo em madeira. Eu confecciono móvel, eu faço talha, eu faço marchetaria, confecciono esquadria, faço o assentamento da esquadria, faço o telhado. Eu não sinto dificuldade nenhuma em trabalhar com a madeira. Em madeira, só existe uma coisa que eu não faço: escultura. Essa é uma área que eu nunca me interessei. Eu acredito que a única coisa que meu pai não fazia era marchetaria. Ele entalhava um pouco, mas entalhava”. Como domina também a técnica da marchetaria, roxo explica: “marchetaria é uma técnica, se você tem um desenho em um móvel como uma flor ou uma moldura, com diversos tipos de madeira – entram dois ou três tipos de madeira para formar o desenho. O tom quem dá são os diferentes tipos de madeira que ficam uniformes, madeira embutida em madeira formando o que você quiser. é usado mais para mobiliário. O piso da fundação joaquim nabuco tem marchetaria, o piso do palácio do governo tem também. Se usa muito em piso, mobiliário e moldura. Em muitos moveis antigos de época tem arremate em marchetaria”.
Transmissão de saberes
Roxo foi como convidado por carla, aluna do curso de gestão de restauro oferecido pelo ceci a dar assistência e aulas de marcenaria e carpintaria durante duas semanas em uma oficina escola em são luiz do maranhão. Ele relata sobre esta experiência: “eles estavam com falta de ferramenta. Eu fui comprar ferramentas com eles. Comprei ferramentas para cada um. Eram vinte marceneiros e vinte carpinteiros. Eles já iam se formar, já estavam no curso há dois anos. Dei uma lima, um serrote e uma travadeira para cada um. E foi difícil fui passando de mão em mão mostrando como se trava... (...) e tem um regulador nela, eu regulei tudo para eles. Só para travar, foi problema e para amolar? Você acredita que teve gente que amolou os dentes do serrote – os dentes têm sempre uns dentes para frente – quando terminou os dentes estavam para trás. (...) o jeito foi trocar o cabo de lugar. Eu disse a eles: ‘vocês para serem profissionais têm de aprender a lidar com a ferramenta, aprender a manutenção das ferramentas de vocês porque não é somente em são luiz que tem oficina escola. Tem na paraíba, em recife e isso é tudo concorrência. Só chegam os bons’ ficaram bicudos comigo e foram na diretoria reclamar. A diretora veio me chamar atenção. Ela disse que eu estava lá para ensinar e eu disse que ‘sim, e estava ensinando para eles. Mas, eu estava dizendo que se eles não forem bons, não ganham mercado’. Dos vinte alunos de carpintaria e dos vinte alunos de marcenaria, só teve uma menina que era danada. Era magrinha e fazia carpintaria. Eu marquei umas peças e ela ficou junto da minha bancada, olhando. Observou e, quando eu marquei cinco, disse que ela mesma marcava a dela. Ela marcou. Eu marcava qual era a peça que saia e qual ficava, ela só teve dúvida nisso. Eu marquei isso e ela mesma ajustou a peça. Ficou perfeita. Ajustar porque em uma peça desta tem duas corcundas: uma na face mais larga e outra na mais estreita quando a gente tira um grau de uma peça desta, mesmo que o grau esteja correto dos dois lados, não dá perfeito. Por causa da corcunda da peça, ai a gente passa um serrote entre uma peça e outra e chama-se engravotar. Está uma peça com a outra e se ela não estiver ajustada e tiver um pouco aberta o serrote vai passar no meio engravotando as questionário de identificação: ofícios e modos de fazer pe pe re 10 q60 26 duas peças, com dois ou três cortes a peça fica perfeita. Se não for assim, tem de lavrar. Desta oficina, eu só aproveitaria ela. Eu acho que ela daria um bom mestre em carpintaria. Pode até não ter força, mas pode até adquirir, mas, para força, arruma peão - gente que não tem interesse no trabalho, só está ali para carregar peso mesmo. Tem muita gente assim. Eu fico só observando. Tem gente que não interesse no trabalho, só serve para carregar peso”. Roxo é professor do curso ofertado pelo ceci: “já faz uns três anos que eu dou este curso. Dei duas vezes no mesmo ano. Mas, não teve muito de se aproveitar. A minha intenção era levantar a oficina. Eu fiz réplica de ferramenta que eu fiz em casa e manualmente. Tinoco estava me mostrando e até me assustei. Eu acho que me empolguei e ficou bom mesmo”. Roxo ressalta a relação de aprendizado no fazer cotidiano do trabalho juntamente com sua equipe: “tem carpinteiro que trabalha comigo que quase toda semana me pede: ‘oh, me explica isso aqui’. Eu paro o trabalho na hora e explico. Eu falo que isso é assim por causa disso, isso e aquilo e a conseqüência disso vai dar isso e aquilo. Eu ensino porque não me custa nada. Carpintaria e marcenaria eu estou aprendendo todo dia. Eu aprendo todo dia. Eu ensino no dia a dia. A maioria do meu pessoal é de parentes, vizinhos lá da rua... Estranho não tem. Eu morava lá e levei um vizinho para trabalhar comigo, o djalma. Ele tinha acabado de chegar do interior e eu gostei do trabalho dele, ele era esforçado. Ai ele disse que a gente estava precisando de mais gente e se dava para trazer o sebastião. Ele disse que conhecia e que ele era trabalhador. Então, eu trouxe sebastião. Daí, o djalma com o sebastião, hoje, são os dois profissionais que trabalham comigo. Temos o alexandre, o brown, que é meu genro [sic cunhado]. São os três profissionais que eu tenho. Tem paulo, meu irmão mais velho, que também trabalha comigo. às vezes, eu pegava dois, três trabalhos e tinha que deixar alguém coordenando um... Eu colocava paulo coordenando um. Esta equipe não é de agora, eles já vêem trabalhando comigo há anos. (...) eu passo o que eu sei para o meu pessoal, mas muitas vezes as cabeças são diferentes. às vezes, as pessoas só absorvem a coisa ali na hora. Quando é o dia seguinte, já esqueceram tudo. O trabalho é uma linha e deve ser corrido. Tem gente que esquece o que estava fazendo ontem e me perguntam o que tem de fazer hoje, eu respondo: é para dar continuidade ao que estava fazendo no dia anterior. Nunca ninguém me pediu para ensinar tudo o que eu sei. O pessoal, às vezes, se acomodam por causa do dinheiro que é bom... Que dá para desenrolar. O interesse de aprofundar não existe. Eu levei uma apostila outro dia para o trabalho – apostila de gestão em patrimônio do ceci que o tinoco me deu. Na hora, todo mundo se interessou e disseram que ia tirar cópia. Eu deixei a apostila lá. Eu vi gente olhando para a apostila até uma hora da tarde. Depois disso, ela passou quinze dias lá... A poeira já estava dando por cima. Quando eu peguei e viram que eu ia levar pra casa, começaram a falar que ainda não tinham tirado cópia... Eu disse que era para ler e não tirar cópia. Eu queria era que eles lessem: assim é bom demais, eu compro um tanto de livro de direito e deixo em casa e começo a dizer que sou advogado. Tem de ler. Eles são bons, sabem trabalhar, mas não querem aprofundar. Quando dá uma bronca, me chamam e não tomam a decisão. é uma equipe em que todos têm de dar solução”.

