Informações
Projeto relacionado
Nome completo
Terezinha De Jesus Silva
História de vida
Senhora terezinha é marisqueira: coleta búzios, sururu, siri, caranguejo. Senhora terezinha se aposentou em 1987. Ela, apesar de aposentada, ainda realiza todo o processo da atividade junto de senhora tiquinha, sobrinha de seu primeiro esposo e sua companheira de trabalho. Ela se dedica à coleta de búzios atualmente.
Localização
Descrição da atuação em rede
Senhora terezinha é marisqueira: coleta búzios, sururu, siri, caranguejo. Senhora terezinha se aposentou em 1987. Ela, apesar de aposentada, ainda realiza todo o processo da atividade junto de senhora tiquinha, sobrinha de seu primeiro esposo e sua companheira de trabalho. Ela se dedica à coleta de búzios atualmente.
Aprendizado do bem
Em guaxinim, localidade no rio grande do norte em que foi criada e que hoje é conhecida como bela vista, a senhora terezinha extrai mariscos da natureza desde 1941 entre macau e a localidade de logradouro: “desde os nove anos de idade, que eu sou marisqueira. Eu aprendi com meus avôs, tirar búzios, pegávamos caranguejo, tirava siri, tirava sururu. . . Tudo isso a minha avó e meu avô faziam. E, então, quando eles iam, levavam nós [irmãos e primos] também e nós aprendemos a fazer esse trabalho com eles também. Lá era praia como é aqui também, lá seca tudo também, ai ele levava nós para a praia. . . Ele ia para o mangue catar caranguejo e nós ficávamos com a avô tirando os mariscos. Desde os nove anos de idade, nós trabalhamos nessas coisas. Meu avô se chamava luís de lima e minha avô chamava maria emília da conceição”. E detalha: “eu pegava siri no guaxinim e ia vender em um lugar que tem por nome pendências que é nesse meio do mundo. Levávamos da praia uns sacos na cabeça. . . Passávamos dois dias cozinhando esse siri – lá tinha muito siri e a gente pegava muito – colocávamos bastante sal, colocávamos no sol para secar. Quando era no outro dia, tornava a cozinhar e, de madrugada, a gente colocava na cabeça aquele saco e ia para pendências. A gente ia a pé com eles na cabeça, saia de madrugada e chegava lá quando o sol ia saindo para vender. Isso era eu e muitas companheiras fazíamos esse trabalho. Eu fui muito sofrida, fui criada sem pais [eles faleceram] e meus avôs que me criaram já eram muito velhinhos”. Senhora terezinha é viúva duas vezes e criou os seus nove filhos com o trabalho como marisqueira no mangue e como comerciante de peixe. Sobre isso, relata: “se eu contar o meu sofrimento a vocês. . . Eu sou viúva duas vezes. Eu me casei a primeira vez em 50 e com 13 anos de idade. . . Desses 13 anos de idade, eu vim me embora para cá e tive 9 filhos do meu primeiro marido. Foi o tempo que meu marido adoeceu, ele bebia muito, e a cachaça comeu bofe, fígado, rim e tudo da noite pro dia. Ele era pescador, pescava de linha em alto mar, pescava voador. . . Toda qualidade de peixe. Pescava de rede, peixe grosso: arraia, tartaruga. De tudo ele pescava. Ai, pronto. Eu fiquei com sete filhos para criar. Nesse tempo, em 70 e com 7 filhos para criar [uma ainda era bebê quando ele morreu e ela veio a falecer pouco tempo depois]. Olha o sofrimento dessa mulher para criar 7 filhos sem ter quem desse nada porque não tinha mais avô, não tinha mais avó, mais pai. . . Não tinha mais ninguém, só eu, número um, e meus filhos. . . Eu criei esses filhos dentro do mangue cortando madeira com um, ainda tenho ali dentro, machado e facão. . . Tirando madeira para vender, tirando sururu. . . Os maiorzinhos quando foram crescendo, eu ia ensinando a eles. . . Levava eles. Carregavam meia lata de sururu de búzios de acolá de onde eu tirava para trazer para aqui e comprar o que era para eles comerem junto comigo. Tudo isso eu sofri. . . Desde 50 para cá, que eu venho nessa vida. Eles foram crescendo e o povo pedia, mas eu nunca dei. . . Nunca dei natureza de dar os meus filhos a ninguém. Criei todos eles nesse sofrimento, mas não dei a ninguém. São todos vivos, só morreu uma com um ano e três meses, a mais nova. E os outros seis estão todos criados. Criei todos dentro de casa. Quando começaram a se casar, começaram a querer sair de casa. . . Eu não tinha o que fazer. Estavam todos criados e casados. Bem lá vai, passei dois anos viúva sem ninguém, trabalhando de dia e de noite. Ai me casei com um velho, pai de mesquito [o atual presidente da colônia]. Eu vive 28 anos com o pai daquele menino. Ele tinha um armazém de peixe mesmo ali e nós comprávamos peixe, tratávamos peixe e vendíamos peixe. . . Tive mais cinco filhos do velho. Morreram dois e eu criei três. Tenho 9 filhos vivos: seis do meu primeiro marido e três do pai do mesquito. Tudo isso nessa luta de peixe, de armazém de peixe. (. . . ) todos os meus filhos são pescadores. Tenho cinco filhos-homens e todos são profissionais em pescaria. E os meus filhos aprenderam a pescar com os pais. Com oito anos de idade, o pai, meu primeiro marido, já levava eles para pescar, os dois mais velhos. Já faz onze anos que o velho [segundo marido] morreu e aqui não tem quem fale dessa velha em canto nenhum. . . Sobre sem-vergonhesa (sic), não. Mas, se perguntar de trabalho. . . Você acha em todo o canto. Se você perguntar de trabalho, você acha meu nome em todo canto aqui de porto do mangue. Toda casa, todo mundo. Ninguém diz ‘ela vive de safadeza, sem vergonheza’. . . Não tenho medo disso, não”. E completa: “e até hoje eu sei fazer, pode me mandar para dentro deste mangue que eu ainda sei fazer tudo isso. E não perdi o treino. Em caso de precisar, faço tudo isso e mostro os cantos todos por dentro do mangue por onde eu ando. Desde 1950, um tempo depois que eu me casei e vim para cá, eu cato marisco dentro desse mangue. Daqui eu não sai mais para canto nenhum e continuei nessa mesma vida”.
Transmissão de saberes
Senhora terezinha sempre é acompanhada em seu trabalho pela marisqueira senhora tiquinha que aprendeu a atividade com ela. Sobre tiquinha, terezinha, relata: “eu sou tia dela, fui casada com o tio dela [a mãe dela era irmã do primeiro marido de senhora terezinha]. Ela pequena fui eu quem criei muito tempo com o tio. Depois, ela foi se embora do guaxinim para cá, para a casa da mãe dela e ficou aqui. Mas, hoje, ela ainda me considera ainda. Nós duas trabalhamos juntas. Ela morou comigo muito tempo lá no guaxinim, ela não queria vir se embora. Mas, ela começou com uma história de namoro e eu tive medo dela se perder por lá”. Além disso, relata que ensinou a atividade a todas as suas filhas: “as meninas todas tiraram mariscos comigo. Todas elas sabem, mas elas mexem com uma coisa, com outra. Mas, algumas ainda vão comigo. A mais velha mora ali e ainda vai comigo e passa o dia tirando marisco. Eu criei os meus filhos todos trabalhando”. Senhora terezinha, além de ter ensinado tiquinha e suas filhas a atividade, ensinou também a várias mulheres da comunidade que a acompanhavam quando precisavam ajudar no rendimento da casa.

