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Nome completo
Edivan ou “os meninos de zé pedro”
História de vida
Segundo hercílio, a cidade de bezerros é caracterizada pela existência de olarias e fábricas de doce. Havia muitas na região, mas hoje em dia é possível ver diversas olarias abandonadas. No caso dos entrevistados, foi o pai deles quem iniciou nesta atividade que lhes foi repassada. Nos tempos mais prósperos, entre os anos oitenta e início dos noventa [1980 e 1990], a olaria chegou a contar com cerca de vinte e oito funcionários, atualmente são onze. Chegaram a ter cinqüenta cabeças de gado com o objetivo de prover leite aos funcionários. Hoje não tem nenhuma. Antes, a demanda era tanta, sobretudo de manilhas para obras de saneamento das prefeituras que representava a maior fonte de renda, que zé pedro por vezes repassava manilha de outros produtores, por não dar conta da demanda. Hoje a demanda por manilhas caiu drasticamente, ficando somente a demanda por peças para restauro: “ficou só telha, tijolo e lajota para restauração” diz hercílio, e a demanda por esses produtos não cresceu, mas caiu muito de pouco tempo para cá. O pai dos entrevistados, o seu josé pedro do santos havia trabalhado em diversos ramos e atividades antes da olaria, tais como marchand, matador de porco e cortador de charque em uma mercearia. Como muitos outros em sua época, o seu zé pedro foi para são paulo tentar a vida. Trabalhou por lá como porteiro cerca de quatro anos e voltou para pernambuco. Chegando a bezerros começou a trabalhar como rendeiro da olaria atual no ano de 1959. Rendeiro trata-se de uma forma de aluguel. Numa produção de quinze mil tijolos, três mil são repassados ao dono do local como pagamento. Tal pagamento é feito impreterivelmente com produtos e não com dinheiro. Após cinco ou seis anos trabalhando nesta situação conseguiu comprar cinqüenta por cento das terras onde trabalhava. Depois, trabalhou mais três anos e comprou o restante do terreno. Ao ser questionado do porquê ter escolhido o ramo da olaria, hercílio respondeu: “porque não tinha opção. Na época não tinha outra opção, aí partiu pra aqui e deu certo. Assim, deu pra ‘arrumar a feira’ [está de bom tamanho]./ aqui ninguém ‘tá’ preocupado em enricar, não. Deu pra arrumar o que comer, vai/. Aqui as opções são poucas, né? Ou isso ou fábrica de doce. E então ele optou por isso aqui e aí / fábrica de doce era mais caro o investimento, aí ele pegou e não / ”. Edivan conta sobre a situação: “de 1964 até 1970 ele passou o maior aperto aqui / era tão ruim pra ele conseguir aqui que quem queimava o forno era ele mesmo. Ele mesmo enfornava, ele mesmo esquentava, ele mesmo queimava. Porque ele ainda não tinha condições de pagar outra pessoa. / já fazia o serviço que era pra não pagar outra pessoa, pro dinheiro ficar ‘pra’ ele sobreviver. Chegou uma época, em 1970, e ele passou um aperto tão grande que até fome ele passou. Ele e minha mãe. Minha mãe grávida de mim e ele, / a celpe [empresa de energia] veio e cortou a luz da casa dele / ele comprava numa venda fiado e ele foi na venda, chegou lá, mandou buscar – naquela época, agora é 100 gramas, duzentas gramas, mas naquela época era um quarto – mandou buscar um quarto de açúcar, o dono da venda disse que não despachava mais porque a conta já estava alta”. Hercílio complementa: “aí só melhorou mais depois que aquele menino de ferrão veio aqui, começou a fazer esse material mesmo e melhorou. E graças a esse negócio aí, ele [seu zé pedro] dizia até foi quando ele [edivan] nasceu trouxe sorte pra ele. Melhorou muito, né? Agora está voltando o aperto daquela época pra gente agora”. Em outro momento conta edivan: “quando o pai começou só fazia tijolo e telha. Em 1970 aproximadamente que começou a vender para igrejas e patrimônio para ferrão. Foi ele [ferrão] que veio aqui pra fazer, começar a fazer essas telhas grandes. Ele trouxe o tamanho e o piso / trouxe uma amostra do piso também”. E sobre o início do declínio da atividade edivan conta: “aqui pra gente foi bom até 1994 quando / pra papai aqui. Todo material que fazia vendia, não sobrava não , vendia tudo. Aí quando entrou / esse real, né? Facilitou muito as coisas, aí deixaram de comprar manilha, já comprava tubo de pvc e de cimento também. / aí foi ‘afracando’, ‘afracando’, mas até 94 era bom. Chegou uma época aqui dele vender quinze ‘carrada’ [caminhões] de material por semana. Quinze caminhão de material. Já chegou a vender [para] quatorze prefeituras aqui. Ele vendia aqui no agreste e de vitória [pe] questionário de identificação: ofícios e modos de fazer pe pe be 10 q60 04 até / vitória, gravatá, bezerros, caruaru, toritama, surubim, são bento do una, agrestina, altinho, ibirajuba. Todas estas prefeituras compravam aí. São caetano [também]”. Com o adoecimento do pai que o forçou a se afastar do ofício e conseqüente falecimento do mesmo quatro anos atrás [2006], dois de seus cinco filhos, hercílio e edivan, resolveram assumir o negócio. Ao serem questionados como foi que assumiram, contaram que foi: “com a cara e a coragem [assumiram o negócio]. A gente assumiu mesmo agora quando ele morreu, há quatros anos atrás. Porque até então, ele com oitenta e três anos, aqui o grito era dele. Tem esse negócio da gente falar alguma coisa e ele não”. Em outro momento comentou que seu pai “é daquele tempo que ‘quem manda sou eu’, e acabou’, né? Eu com trinta e tantos anos, quase quarenta anos, mas quando ele dissesse, ‘psiu’, eu já estou calado”. Voltando ao tema anterior, seu zé pedro tinha: “oitenta e três anos e morreu trabalhando. Ele não morreu de cama, não. De repente ele deu um negócio nele, um problema que ele teve, uma infecção urinária, aí dessa infecção ele passou quinze dias sem vir aqui, esses quinze dias foi o que fez ele morrer, porque ele pensava direto nisso aqui, porque ele gostava muito disso aqui. ‘ah, estou devendo à fulano, estou devendo à cicrano’, ‘vamos se tratar, depois a gente...’ deu um avc nele, e desse avc ele passou vinte e quatro dias e não saiu mais. Aí a gente assumiu. Aí, também assumimos com a cara e a coragem, porque a gente ficou devendo um mundos e fundos por causa da doença dele, né? E o serviço atrasado aqui também. Mas a gente já pagou ‘tudinho’. As dívidas que a gente tem hoje é de agora mesmo”. Quanto à continuidade do serviço, além de estarem encaminhando para fazer tijolos de seis furos e assim abandonar as peças utilizadas em restauro, os filhos de hercílio e edivan não quiseram seguir o mesmo ofício. Hercílio tem um filho e edivan um casal, todos na faixa dos 21 anos. Nenhum deles trabalhou na olaria e fazem faculdade. Edivan conta que seu filho “não quer seguir a profissão não”.
Localização
Aprendizado do bem
Há três formas de responder a esta questão: como o pai dos irmãos aprenderam, como os irmãos aprenderam e como os funcionários da olaria aprendem a atividade. No primeiro caso, hercílio assim relata como seu pai aprendeu: “com ele mesmo, com o tempo. Assim, ele nunca trabalhou na parte de produção. Ele trabalhou assim, que nem eu estava ali, botando tijolo dentro do forno, enfornando/, queimando o forno, que ele queimava. Ele passava a noite sozinho aqui. Porque ele não podia pagar na época”, e complementa “o próprio trabalhador, digamos, ele[seu pai] chegou aqui, ele não entedia de nada. Comprou, ou arrendou, foi trabalhar. Mas sempre tem aqueles que vêm, que entende, porque vai fazer a telha, vai fazer o tijolo. Ele só na administração, e/ aí passou a aprender as coisas assim, com os trabalhadores mesmo, né?” já os irmãos começaram a trabalhar no local quando adolescentes. Edivan, por exemplo, começou com quinze, dezesseis anos. Mas não trabalham diretamente na feitura (retirar o barro, amassar, moldar, enfornar e desenfornar), mas carregando material. Hercílio já montou um lava jato, vendeu verduras, dentre outras atividades antes de assumir este ofício. Os irmãos assumiram a administração da olaria quando há cerca de quatro anos o pai adoeceu e faleceu. No caso dos trabalhadores, edivan conta que: “a maioria aqui já fez aqui foi com os pais, os pais já trabalharam, eles vinham, vinham ajudar o pai”. Mas há funcionários novos na olaria fazendo a parte de carregamento e, posteriormente, nos momentos de folga observam os companheiros e começam a experimentar a fabricação dos produtos, até o ponto de chegarem a produzir.
Transmissão de saberes
Os entrevistados não ensinaram ou ensinam o ofício, uma vez que eles não detêm o conhecimento mais especializado na feitura, trabalhando na administração do negócio da família. Muitos dos trabalhadores que possuem mais de sessenta anos aprenderam o ofício com os pais quando eram pequenos. Mesmo assim, ocorre ensino no lugar. Geralmente jovens começam no serviço mais pesado de carregamento e no tempo livre, como no horário de almoço, vão aprendendo e testando, como conta edivan: “quando vem aqui pra trabalhar, eles começam trabalhando na diária, assim, enfornar, desenfornar, aí depois na hora de almoço vão treinando”. Questionário de identificação: ofícios e modos de fazer pe pe be 10 q60 04

