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Maracatu
Características do bem
Projeto relacionado
Categoria de bem cultural
Descrição
Maracatu é uma manifestação cultural e performática afro-brasileira que reúne música, dança, cortejo e teatralidade. Suas raízes remontam às irmandades negras e aos rituais ligados às coroações de reis e rainhas do Congo, mesclando elementos das culturas africanas, indígenas e do catolicismo popular. Possui duas vertentes principais: o Maracatu de Baque Virado (ou Maracatu Nação) e o Maracatu de Baque Solto (ou Maracatu Rural). A performance é marcada pelo uso de tambores (alfaias), gonguê, agbês, caixas. No caso do Maracatu Nação, há também a presença do cortejo da corte real, com figuras como rei, rainha, dama do paço, porta-estandarte e a emblemática calunga.
Embora mais conhecido como expressão pernambucana, o maracatu também possui trajetória histórica em Alagoas, sobretudo na região de Maceió e entorno. No início do século XX, havia grupos ativos ligados a comunidades negras urbanas e rurais, dialogando com práticas de matriz africana então vigentes no estado. Essa presença, porém, foi severamente afetada pelos acontecimentos ligados ao “Quebra de Xangô”, episódio de violência política e religiosa ocorrido em Maceió em 1912, que resultou na destruição sistemática de terreiros, perseguição a lideranças afro-religiosas e na repressão ao culto de Xangô (como é chamado o Candomblé em Alagoas). Essa repressão atingiu profundamente diversas expressões culturais de matriz africana — entre elas o maracatu.
A partir dos anos 1990 e, especialmente, dos anos 2000, inicia-se em Alagoas um processo de retomada e revalorização do maracatu, impulsionado por movimentos culturais, coletivos de juventude, grupos percussivos, terreiros e pesquisadores. Esse renascimento se conecta ao fortalecimento das identidades afro-brasileiras, às políticas de patrimônio cultural e à circulação do maracatu pernambucano, que inspirou novas formações.
Hoje, o maracatu reaparece no estado em forma de grupos de baque virado e baque solto, oficinas de percussão, cortejos urbanos, festivais e ações educativas. Alguns grupos incorporam elementos tradicionais, enquanto outros dialogam com linguagens contemporâneas, mantendo vivo o vínculo simbólico com a ancestralidade africana e com a resistência cultural frente ao apagamento histórico causado pelo Quebra de Xangô.
No que se refere ao território estudado, foram localizados fazedores de cultura relacionados ao Maracatu no bairro do Farol.
Localização
Pessoas e Organizações Relacionadas ao Bem
Detentores do bem cultural
Espaços e territórios associados ao bem
Territórios associados ao bem
Espaços associados ao bem
Nome do espaço
Ameaças e Questões Internas
Riscos à transmissão
Baixo - há muitas pessoas transmitindo os conhecimentos
Ameaças externas
Desterritorialização compulsória, perda de territórios e vínculos comunitários
Descreva a ameaça externa
Todos os bens listados nesta plataforma, identificados pelo projeto IPCI, fazem parte de um contexto de desterritorialização e reterritorialização, de saberes, modos de fazer, ofícios e celebrações diversas, identificado na cidade de Maceió, ocorrido nos bairros de Bebedouro, Bom Parto, Mutange, Pinheiro e Farol.
A população destes territórios, incluindo seus fazedores de cultura, foi forçada a desocupar de forma total ou parcial estes bairros, em virtude da subsidência do solo causada pela ação da mineração.
Após a desocupação, grande parte do território foi demolida, processo que permanece em curso, tendo os moradores, ex-moradores, fazedores de cultura e população da cidade, perdido espaços e territórios de referência cultural relacionados à práticas e saberes imateriais.
O estudo em questão procurou identificar os fazedores e detentores de saberes vinculados aos bairros atingidos e os bens culturais aos quais se relacionam, bem como a redistribuição desta população, dentro da cidade de Maceió e para além dela, buscando compreender, de modo ampliado, os desafios enfrentados por essa população para lidarem com as consequências do que é considerado o maior desastre socioambiental em área urbana do mundo e o impacto deste, sobre o campo da cultura.
De modo geral a perda dos territórios, dos espaços de socialização comunitária, a desmobilização de redes de manutenção das práticas e repasse dos saberes e a fragilização de vínculos comunitários representam, em maior ou menor medida, uma ameaça aos bens culturais identificados.
Acesso e uso do território
Todos os bens listados nesta plataforma, identificados pelo projeto IPCI, fazem parte de um contexto de desterritorialização e reterritorialização, de saberes, modos de fazer, ofícios e celebrações diversas, identificadas na cidade de Maceió, especificamente nos bairros de Bebedouro, Bom Parto, Mutange, Pinheiro e Farol.
A população destes territórios, incluindo seus fazedores de cultura, foi forçada a desocupar de forma total ou parcial estes bairros, em virtude da subsidência do solo causada pela ação da mineração.
Boa parte do território já se encontra demolido por determinação da Defesa Civil da cidade de Maceió, processo que segue em curso e em constante processo de reavaliação. Outras partes do território estão desocupadas e seguem com acesso restrito.
Acesso à justiça e direitos humanos
Ao procurar identificar os bens culturais relacionados aos territórios desocupados na cidade de Maceió, em virtude da ação da mineração, a pesquisa do IPCI Maceió realizou ampla busca por fazedores culturais relacionados a diversos segmentos e saberes do patrimônio cultural imaterial.
Para identificação dos bens, foi preciso realizar ampla escuta junto aos fazedores culturais, processo que envolveu compreender também de que modo o deslocamento compulsório afetou as práticas culturais e quais desafios seus fazedores enfrentam, na atualidade, para seguirem atuantes.
A comunidade segue lutando por medidas de mitigação e reparação aos danos patrimoniais e extra patrimoniais decorrentes da desocupação compulsória e da consequente diáspora comunitária.
A realização deste Inventário é uma dessas medidas de reparação e atende à exigência do Acordo Socioambiental firmado pela Braskem e pelo Ministério Público Federal, juntamente com o Ministério Público Estadual, em resposta aos impactos da catástrofe tecnológica e ao decorrente perigo de subsidência que atinge a área e precipitou o processo de desocupação dos bairros pela defesa civil.
Os resultados alcançados pelo IPCI Maceió são parte de uma resposta aos direitos da comunidade cultural atingida, reconhecendo que o campo da cultura foi fortemente impactado pela perda dos lugares de referência e desmobilização comunitária. Uma luta que dialoga com o direito à cidade, à história, à memória e a vida comunitária profundamente enraizada nos territórios e repletas de redes e vínculos de ordem material, imaterial e simbólica.


