Informações
Projeto relacionado
Nome completo
Hamilton martins
História de vida
Questionário de identificação: ofícios e modos de fazer pe pe ol 10 q60 13 há certo tempo atrás (não foi especificado quanto), havia uma corporação de ofício que durou cerca de 100 anos no recife, intitulada “corporação de ofícios de são josé do ribamar” (cf. Item 5.5). Mais recentemente, para hamilton, a atividade de cantaria estava se perdendo. Ele só se lembrava de uma pessoa que fazia o serviço, o seu vavá, hoje com cerca de 70 a 80 anos, que apesar de ter muita experiência na área não tinha muito conhecimento técnico, nem qualidades técnicas, nem tampouco muito zelo pelo bem cultural. “arquitetos e escultores foram ensinando aos seus ajudantes, que às vezes não tinham uma formação. E aí o ofício começou a se perder. E aí eles [os canteiros de então], muitas vezes, dos últimos canteiros bebiam muito, e a coisa começou a desaparecer”. Inclusive seu vavá “bebia que só”. A este último faltava, segundo o entrevistado, conhecimento de geometria e, talvez por uma questão de prazo a ser cumprido, não restaurava tal como o original. Hamilton nunca trabalhou com o seu vavá, mas em certas ocasiões conversavam sobre o ofício (cf. 6.5 para mais detalhes). Tinha-se de recorrer às vezes à mão-de-obra estrangeira, como no caso de quando aprendeu a cantaria com os três alemães (cf. 5.2). Hoje, considera que o ofício foi resgatado e se mostra otimista com a atividade, apesar de ressaltar que o trabalho é muito difícil. "e graças a deus, nós conseguimos resgatar o ofício. Eu posso dizer hoje que nós conseguimos resgatar este ofício. Hoje a coisa [o trabalho de cantaria] está se disseminando muito bem. Agora, é muito difícil [o trabalho]. O resgate de um ofício é muito... Eu posso dizer que é muito difícil". E ressalta a melhora no conhecimento da atividade, “hoje a gente tem condições de mostrar como se faz para poder exigir qualidade. [antes,] a gente não tinha como. Porque você tem que saber como se faz. Quer dizer, ’não, eu quero assim’ [pediria o solicitante do serviço], ’não, deve ser assim’ [responderia o canteiro]”.
Localização
Aprendizado do bem
Na década de 1970, antes de trabalhar com cantaria, hamilton trabalhava com entalhe artístico em madeira e em resina de cajá – substância que se assemelha muito à madeira. Tal ofício aprendeu de forma autodidata, bem como toda parte de escultura, apesar de seu avô, que era pescador, também trabalhar com entalhes. Algumas das obras de maquetes de algumas igrejas feitas por hamilton se encontravam em exposição no iphan (ver fotos do dia 14/01 do grupo b, em d:\14-01-10\claudia_miniaturas madeira hamilton), tendo ele recebido prêmios em salões de arte. Além das maquetes, ele fazia também peças figurativas, porém esta última atividade se tornou mais esporádica do que a cantaria. Em 1981 tornou-se funcionário do iphan, na época “fundação nacional pró-memória”. De acordo com seu relato, “eu entrei no ipha, em junho, no dia 24 de junho de [19]81. Eu fui para o iphan para fazer parte do serviço de vigilância. Então, nas horas vagas eu ficava fazendo uns bonequinhos de madeira, e certo dia o diretor viu eu fazendo aqueles bonequinhos de madeira, aí ele [me] disse, ‘você não quer ensinar esse ofício? Não quer ensinar isso, não? Pros meninos lá na... Os guias mirins?’ eu disse, 'quero! Estou doido para sair daquele negócio de vigilância!’”. Em 1986 começou a fazer esculturas em pedra, e sua primeira escultura foi feita para ser exposta em um salão de artes, e assim poder auxiliar no pagamento das despesas do nascimento de seu terceiro filho, tal peça foi vendida rapidamente. O conhecimento e a prática de tal atividade, segundo ele, ajudou-o na atividade de cantaria, que aprenderia posteriormente, abandonando o entalhe em madeira e a participação em salões de arte por falta de tempo e de valorização do trabalho. Seu primeiro contato com a cantaria foi como ajudante, em 1991, na igreja do monte de olinda. De acordo com hamilton, “em [19]91 a coordenadora da regional recife / tinha visto meu trabalho em escultura em pedra, isso já era / [19]89. Em [19]91 ela me convidou para participar com os alemães para aprender a restaurar pedra / a cantaria [com os alemães] / e a gente não sabia como fiscalizar como orientar, como produzir. Aí eu fui e aprendi durante um ano”. Por lá passou este período aprendendo com três alemães que vieram restaurar a portada, fazendo inicialmente o trabalho pesado, como carregar e quebrar coisas, passando posteriormente para as atividades mais finas. Assim descreveu o canteiro, “a gente [hamilton] fazia o trabalho pesado / e eu ficava danado, porque eu sabia fazer a parte de artista, mas eu não tinha a técnica. E aí eu comecei a observar. Comecei a observar, e consegui aprender tudo que eles iam me passando. Eu ia catando, anotando, e treinando”. Questionário de identificação: ofícios e modos de fazer pe pe ol 10 q60 13 estes alemães trouxeram suas próprias ferramentas (que eram “muito boas” segundo hamilton), inclusive trouxeram sua própria argamassa. E sobre tal portada afirma que: “dizem que é o único ‘portão’ neoclássico no brasil”. Posteriormente, após ser selecionado com excelente qualificação dentre cerca de 300 candidatos em um concurso onde foram escolhidos 34 mestres, foi a veneza pelo programa monumenta aperfeiçoar a técnica da cantaria.
Transmissão de saberes
Hamilton não esconde como realiza o ofício , ensina a qualquer um que quiser aprender. Antes mesmo de aprender a cantaria – quando trabalhava pelo pró-memória entre 1982-83 – ensinava a feitura de maquetes para crianças no parque histórico nacional dos guararapes. “eu ensinava aos meninos da comunidade a fazer souvenir em madeira. Nessa época eu trabalhava com madeira. Os meninos faziam umas maquetezinhas, umas fachadas da igreja de nossa senhora dos prazeres e vendia para os turistas. Isso se fazia em casca de cajá, que hoje se vê muito em olinda”. Na cantaria, hamilton diferencia três níveis de profissional, “existem três níveis. Por exemplo, um dos meninos que está começando agora, ele está mais na parte de abrir as pedras e mandar para gente produzir. A gente diz que ele é o homem mais forte do reino [risos]. Esse é o primeiro nível, que é o nível básico: ele parte a pedra, bota em cima do carrinho para gente e transporta lá para área de trabalho. Aí, o segundo nível é aquele que já faz a cantaria e o terceiro nível é aquele que já faz esculturas, que já faz os ornados”. Tais etapas também tiveram de ser seguidas por hamilton. E destaca sobre a qualidade prévia do futuro profissional de cantaria, “o bom da cantaria é quando a gente pega um aluno que é escultor. Ele não sabe o ofício e aprende o ofício, e ali a esculpir a arte dele. Então, a gente não interfere na arte, na identidade cultural do artista. Mas a gente passa uma técnica para ele nova, que é uma técnica muito antiga. Aí, na verdade, a gente vê que a produção artística começa a ter uma nova conotação, começa a ter uma nova... Novo sentido, um aperfeiçoamento muito, muito legal”. O entrevistado ensinou o ofício ao filho, que trabalhou por um tempo com ele, mas hoje é professor de português, não trabalhando mais na atividade. Ensinou várias pessoas em pernambuco, nas próprias obras. Já no ensino formal, deu diversas oficinas em ouro preto-mg, em são cristóvão-se, e na 5ª bienal de arquitetura e design em são paulo. Dois de seus alunos também foram para veneza em 2001 pelo projeto monumenta, os irmãos josenildo e jorge sinfrônio, também entrevistados. Hamilton descreveu da seguinte forma como jorge aprendeu o ofício: “então o jorge, ele foi para lá [para obra de restauro igreja do carmo em olinda] para ser ajudante de pedreiro, e ele me viu fazendo umas peças, que era para capela de são pedro de advíncula, em olinda. Eu estava fazendo uns colchéis. E ele me viu fazendo aquela peça e disse assim, 'seu hamilton, o sr. Me ensina esse trabalho?' eu disse, 'sim. Não tem problema nenhum’. E ele começou a aprender e aí o diretor do escritório técnico pegou... Ele já tava com boas habilidades e botou ele para fazer um trabalho comigo na igreja do carmo, de restauro. Aí ele já passou a ganhar mais. Aí o interesse já melhora, não é? Depois disso, ele fez outros trabalhos de restauração, a gente foi para onde... A gente foi para... Para o teatro apolo. Ele estava de licença prêmio. Queria uma licença prêmio de três meses, e a gente foi fazer um trabalho de restauro da fachada do teatro apolo, que era uma pedra lióis. Aí depois, a gente fez outros trabalhos particulares de restauro. E aí, ele se libertou de mim. Foi fazer os contratos, já tem os contratos dele ' ensina o ofício desde 2003 no ceci - centro de estudos avançados da conservação integrada, em olinda, num curso de execução de cantaria e restauro voltado para arquitetos e engenheiros com o intuito de: “você não está ali para ser um cantel. Você está ali para saber se o teu contratado sabe trabalhar ou não. Você vai saber se o teu profissional, ele é um profissional de carpintaria, se ele é um profissional de cantaria, pedreiro. No momento que ele pegar na ferramenta, você sabe”. Por fim, ele relata que trabalha não com funcionários, mas com aprendizes.

